sexta-feira, 6 de abril de 2012

o Mal-estar da Civilização #26



«O mal-educado não tirava o chapéu em nenhuma situação. Nem às senhoras quando passavam, nem em reuniões importantes, nem quando entrava na igreja.
Aos poucos a população começou a ganhar repulsa pela indelicadeza desse homem, e com os anos esta agressividade cresceu até chegar ao extremo: o homem foi condenado à guilhotina.

No dia em questão colocou a cabeça no cepo, sempre, e orgulhosamente, com o chapéu.
Todos aguardavam.
A lâmina da guilhotina caiu e a cabeça rolou.
O chapéu, mesmo assim, permaneceu na cabeça.
Aproximaram-se, então, para finalmente arrancarem o chapéu àquele mal-educado. Mas não conseguiram.
Não era um chapéu, era a própria cabeça que tinha um formato estranho.»


Gonçalo M. Tavares, "O Senhor Brecht", Caminho, 2004

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Paz à sua bala #1


São Miguel de Seide, 1 de Junho de 1890

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Imediatamente embora pouco a pouco #16


«Que a morte venha ter connosco ou que vamos nós ao seu encontro, não tem a mínima importância. Há quem diga: "A coisa mais bela é morrer de morte natural!" Convence-te de que esta frase é um absurdo enunciado de um espírito o mais inepto possível. Ninguém morre senão de morte natural! Em outra coisa ainda deverás meditar: ninguém morre senão no seu próprio dia. Do teu tempo, nunca perderás um segundo, pois todo o tempo que sobra já não te pertence!»

Séneca, "Cartas a Lucílio", Fundação Calouste Gulbenkian, 2004

terça-feira, 3 de abril de 2012

Dicionário das causalidades #10


        
J
        
Julgar-se
       
«Nós temos em toda a vida, especialmente na esfera da comunicação espiritual, o hábito errado de emprestarmos às outras pessoas muito daquilo que nos é próprio, como se tivesse de ser mesmo assim. Mas como elas, além disso, nos mostram também o que têm de si próprias, daí resultam, dado que nós procuramos criar uma unidade com as duas partes, autênticos monstros, semelhantes àqueles que, numa casa com muitos cantos, a luz de uma lanterna produz com uma parte de sombras e uma parte de objectos reais. Não há nenhuma operação mais útil mas, ao mesmo tempo, mais difícil que deduzir da imagem do outro aquilo que inconscientemente lhe foi emprestado. No entanto, só assim fazemos dos outros verdadeiras pessoas - ou, dito de uma forma mais breve: o homem julga compreender os homens quando acrescenta a uma suposta e ilimitada analogia com o seu próprio eu ainda alguma coisa que é contrária a esse eu. É a experiência que leva cada um a poder lidar com pessoas que tem de imaginar, na sua essência, diferentes de si mesmo.»

Hugo Hofmannsthal, "Livro Dos Amigos", Assírio & Alvim, 2002

domingo, 1 de abril de 2012

Momento Pergaminho #9

 


«Se um ser sofre, não pode haver justificação moral para recusar ter em conta esse sofrimento. Independentemente da natureza do ser, o princípio da igualdade exige que ao seu sofrimento seja dada tanta consideração como ao sofrimento semelhante - na medida em que é possível estabelecer uma comparação aproximada - de um outro ser qualquer. Se um ser não é capaz de sentir sofrimento, ou de experimentar alegria, não há nada a ter em conta. Assim, o limite da senciência (utilizando este termo como uma forma conveniente, se não estritamente correta, de designar a capacidade de sofrer e/ou, experimentar alegria) é a única fronteira defensável de preocupação relativamente aos interesses dos outros. O estabelecimento deste limite através do recurso a qualquer outra característica, como a inteligência ou a racionalidade, constituiria uma marcação arbitrária. Por que não escolher qualquer outra característica, como a cor da pele?»

Peter Singer, "Libertação Animal", Via Optima, 2008

sábado, 31 de março de 2012

Teoria da Conspiração #31 (ou Como num Sono Acordado)



«O acordar privilegiado não tem que suceder forçosamente quando se dorme. Dado que sono e vigília não são duas partes da vida, que ela, a vida, não tem partes, mas lugares e rostos. E assim, do sono e de certos estados de vigília, pode-se acordar deste privilegiado modo que é o acordar sem imagem.
Acordar sem imagem sobretudo de si próprio, sem imagens algumas da realidade, é o privilégio deste instante que pode passar de maneira inapreensível, deixando, sem dúvida, a pegada; uma pegada inextinguível, mas que não se sabe decifrar, pois não houve conhecimento. E nem sequer um simples registo desse ter acordado para este nosso aqui, para este espaço-tempo onde a imagem nos assalta. O ter respirado somente numa solidão privilegiada nas margens da fonte da vida. Um instante de experiência preciosa da preexistência do amor: do amor que nos diz respeito e nos olha, que olha para nós.» 


Maria Zambrano, "Clareiras do Bosque", Relógio D'Água, 1995

sexta-feira, 30 de março de 2012

Perguntas Abandonadas #18


«- que necessidade é esta nossa de nos remetermos ao silêncio e de fecharmos a boca, enquanto as mais diversas e estranhas coisas caem sobre nós e se acumulam, reclamando luz, ar, liberdade, a palavra?»


Friedrich Nietzsche (1844-1900)

quinta-feira, 29 de março de 2012

A vida não é um sonho #16



 «- Tu e a mãe vão-se divorciar? - tinha ele perguntado. Era sábado de manhã e não havia muitos carros.
 - Se pudermos evitar, não - disse eu. - Não queremos. Por isso é que vamos para fora e não queremos ver ninguém durante o Verão. Por isso é que alugámos a nossa casa durante o Verão e arranjámos uma em Eureka. Também é por isso que te vais embora, acho eu. Pelos menos, é uma das razões. Para não falar no facto de vires de lá com os bolsos cheios de dinheiro. Nós não queremos divorciar-nos. Queremos estar sozinhos durante o Verão e tentar resolver as coisas.
 - Ainda gostas da mãe? - disse ele. - Ela disse-me que sim.
 - Claro que gosto - disse eu. - Já devias saber isso. Só que tivemos a nossa quota parte de problemas e grandes responsabilidades, como toda a gente, e agora precisamos de um tempo a sós para resolver as coisas. Mas não te preocupes connosco. Vai para lá e passa um bom Verão, trabalha muito e poupa dinheiro. Considera isso também uma férias. Vai à pesca o mais que puderes. Há por lá bons sítios para pescar.»


Raymond Carver, "Telefona Se Precisares de Mim", Editorial Teorema, 2001

quarta-feira, 28 de março de 2012

electrocardioTrama #10 (ou a actividade implícita do espírito)



«A história da literatura não deveria ser a história dos autores e dos acidentes da sua carreira ou da carreira das suas obras, mas a História do Espírito como produtor ou consumidor de literatura. Essa história poderia ser levada até o fim sem mencionar um só escritor.»

terça-feira, 27 de março de 2012

quero outra noite no fim do dia #7



«Grande sorte é topar com homens de seu génio e de seu engenho; arte é sabê-los buscar; conservá-los, maior. Fruição é o conversável momento, e a felicidade a discreta comunicação, especialmente quando o génio é singular, ou por excelente ou por extravagante; que é infinita latitude, até entre dois términos de sua bondade ou sua malícia, a sublimidade ou a vulgaridade, o cordo ou o caprichoso: uns comuns, outros singulares.»


Baltasar Gracián, "O Discreto", frenesi, 2005

segunda-feira, 26 de março de 2012

domingo, 25 de março de 2012

o Mal-estar da Civilização #25



 «- A libertação das algemas e o voltar-se das sombras para as figurinhas e para a luz e ascensão da caverna para o Sol, uma vez lá chegados, a incapacidade que ainda têm de olhar para os animais e plantas e para luz do Sol, mas, por outro lado, o poder contemplar reflexos divinos na água e sombras, de coisas reais, e não, como anteriormente, sombras de imagens lançadas por uma luz que é, ela mesmo, apenas uma imagem, comparada com o Sol - são esses os efeitos produzidos por todo este estudo das ciências que analisamos; elevam a parte mais nobre da alma à contemplação da visão do mais excelente seres, tal como há pouco a parte mais clarividente do corpo se elevava à contemplação do objecto mais brilhante na região do corpóreo e do visível.»


Platão, "A República", Fundação Calouste Gulbenkian, 2001

sexta-feira, 23 de março de 2012

alegações finais #7



«Quando, por fim, as chamas o alcançaram, desatou a rir às gargalhadas como nunca tinha rido na sua vida.»


 Elias Canetti, "Auto de Fé", Livros do Brasil, 1983

quinta-feira, 22 de março de 2012

é meia-noite no fim do céu #9


«No inarticulado mundo animal
Apenas esta criatura
Compreendeu o bem e o mal e viu
O homem completo,
Aquele a quem
Talvez a vida deu alegremente
Esse objecto de um amor livre»

Rabindranath Tagore, "Poesia", Assírio & Alvim, 2004

terça-feira, 20 de março de 2012

Teoria da Conspiração #30 (ou o Ilustre Conhecimento da Sabedoria)



«Emancipar-se das bases materiais da verdade invertida, eis no que consiste a auto-emancipação da nossa época. Esta "missão histórica de instaurar a verdade no mundo", nem o indivíduo isolado, nem a multidão atomizada, submetida às manipulações, a podem realizar, mas ainda e sempre a classe que é capaz de ser a dissolução de todas as classes, ao reduzir todo o poder à forma desalienante da democracia realizada, o Conselho, no qual a teoria prática se controla a si própria e vê a sua acção. Lá, somente, onde os indivíduos estão "directamente ligados à história universal"; lá, somente, onde o diálogo se estabeleceu para fazer vencer as suas próprias condições.»



Guy Debord, "A Sociedade do Espectáculo", Edições Antipáticas, 2010


segunda-feira, 19 de março de 2012

diário dos mesmos pesares #13



«O meu pai morreu no dia 10 de Junho, há dois meses e meio. Pouco antes o Miguel perguntou-lhe – O que é que gostava de nos ter transmitido? e ele respondeu, sem hesitações – O amor das coisas belas pensou um bocadinho e acrescentou – Ou pelo menos das coisas que eu considero belas. Sou eu que ocupa agora o seu lugar à mesa, na cadeira de braços, na extremidade oposta ao sítio em que costumava sentar-me. O mundo parece diferente visto da cabeceira. Ainda não me habituei por completo. Julgo que me encontro em paz com ele. Desde os dez ou onze anos a minha vida tem um sentido de que nunca se afastou, e me acompanhará, com a mesma determinação, até ao fim: escrever. Toda a minha arquitectura mental a construí com esse objectivo e o resto encaro-o como secundário. Nunca quis agradar a ninguém, nunca procurei reconhecimento nem aplauso e, portanto, nunca pedi muito ao meu pai, e a sua opinião era-me igual ao litro. Um mérito ele e a minha mãe tiveram, e estou-lhes grato por isso: não me encheram de amor e atenção, o que teria matado em mim o artista: no que diz respeito às emoções mais secretas estive sempre sozinho. Em contrapartida, a criatura de quem herdei o lugar à mesa inculcou-me o ódio impiedoso a três coisas: a desonestidade, a cobardia e a falta de rigor. Tão pouco lhe escutei, uma vez sequer, um exagero, uma mentira. Recebi dele o desprezo ou indiferença pelas coisas materiais, a frugalidade e, sobretudo, o tal amor das coisas belas: nada mau como legado. Não existiram, entre nós, efusões, confidências, pieguices: não era meu amigo, era apenas meu pai. Não era amigo dele, era seu filho. Durante dois meses e meio tenho pensado no que sinto em relação a um homem com o qual não possuo a menor semelhança física e cujo feroz egoísmo, cuja impulsiva violência me surpreendiam. (serei assim tão diferente?) e é-me difícil explicar. Em que medida foi importante para mim? Amava-o? Faz-me falta? Como responder a estas três questões? É muito clara, na minha cabeça, a noção que me fiz a mim mesmo, sem ajudas, e que, com qualquer outra família, a minha existência teria sido idêntica. Quanto ao amor não sei: afigura-se-me que não é uma palavra que possa aplicar à minha relação com o meu pai e, no entanto, um estranho elo me prende à sua lembrança: não o consigo definir, o que não me inquieta demasiado. Quanto a fazer-me falta julgo que me faz falta no sentido em que cresci junto dele, junto dele e longe dele ao mesmo tempo. Era eu muito pequeno e dizia-me poemas, dava-me livros para ler, falava com entusiasmo dos seus pintores, dos seus compositores, dos seus escritores, que só parcialmente são os meus. O meu pai não foi uma pessoa criativa, não detinha o mínimo sentido de humor embora o notasse capaz de apreciar o dos outros, mas viveu apaixonado pelo seu trabalho, pelas coisas que considerava belas, espero que por mulheres também. Suponho que foi feliz, seja o que for que isso signifique. Irascível, cruel, ciumento, perdoando-se unicamente a si, era igualmente capaz de guinadas de generosidade e de autêntico afecto. Contraditório, infantil, comodista. Estava aqui a fazer esta crónica e vieram-me à ideia os seus letreiros: o tubo de cola com um papel que dizia: ESTA COLA É DO PAI NÃO MEXER em maiúsculas e sublinhado, a tampa de uma lata de tinta com que andava a pintar, não me lembro o quê, na Praia das Maçãs, e ISTO NÃO É CINZEIRO e creio que a melhor homenagem que lhe fizeram foi a do meu irmão Nuno: estava o corpo na igreja, na antecâmara, numa mesinha, de toalha preta, a salva para os cartões-de-visita, o Nuno, em maiúsculas e sublinhado, encostou à salva ISTO NÃO É CINZEIRO e tenho a certeza absoluta que o meu pai teria adorado. No dia da sua morte fomos os seis filhos, juntos, ao Hospital da CUF: parecíamos um comando da Al Qaeda. Não, faltava o João que tinha ido a Bragança receber um penduricalho presidencial: fomos os outros cincos mas parecíamos um comando da AL Qaeda na mesma, em versão pele branca e olho azul. Isso ele teria adorado também, espero eu. Levávamos-lhe a roupa, aquela vestimenta comprida de professor. Claro que chorei: por ele, por mim, pela incompreensível finitude da vida: não somos feitos para a morte. Depois da missa disse-lhe um soneto do seu amado Antero. E lá ficou, consoante o seu desejo, em campa rasa, num caixão de pobre. Tive vontade, ao dar com ele no caixão, de lhe pôr em cima um letreiro ISTO NÃO É O MEU PAI porque o meu pai não era aquele. O meu pai é um homem de trinta anos a jogar ténis na Urgeiriça e a fazer fosquinhas às inglesas. O meu pai é um homem de trinta e tal ou quarenta anos a entrar-me no quarto, onde eu fumava às escondidas, de papéis na mão, a ler-me um parágrafo qualquer da tese de doutoramento, em que penou durante séculos, para me perguntar – O que é que achas? Eu nem o ouvia, ocupado a esconder o cigarro, e respondia-lhe que achava bem para o ver pelas costas. Há uma semana reli a sua tese, pai, com a atenção que pedia a um adolescente desesperado para disfarçar uma beata. Posso responder-lhe hoje que acho bem. Palavra de honra que acho bem. Volte para o escritório sossegado que escreveu uma tese do caneco. E, já agora, tenho saudades do cheiro do cachimbo. Tenho saudades de irmos de automóvel para Nelas. Tenho saudades de patinarmos no Benfica. O Nuno, aos três anos, com uma peritonite – Eu vou morrer e quero o meu paizinho. Isto nunca esqueci. Ia morrer (foi um milagre não ter morrido) e queria o paizinho dele. Sempre que lembro esta frase comovo-me tanto: – Eu vou morrer e quero o meu paizinho. esta frase e a cara de sofrimento do meu irmão. Foi graças a si que ele não morreu. Foi graças a si que não morri da meningite. Não pense que me esqueço. Não esqueço. Paizinho»

António Lobo Antunes, "Ajuste de Contas", Visão, 9 de Setembro de 2004