sexta-feira, 23 de março de 2012
alegações finais #7
«Quando, por fim, as chamas o alcançaram, desatou a rir às gargalhadas como nunca tinha rido na sua vida.»
Elias Canetti, "Auto de Fé", Livros do Brasil, 1983
quinta-feira, 22 de março de 2012
é meia-noite no fim do céu #9
«No inarticulado mundo animal
Apenas esta criatura
Compreendeu o bem e o mal e viu
O homem completo,
Aquele a quem
Talvez a vida deu alegremente
Esse objecto de um amor livre»
Rabindranath Tagore, "Poesia", Assírio & Alvim, 2004
quarta-feira, 21 de março de 2012
terça-feira, 20 de março de 2012
Teoria da Conspiração #30 (ou o Ilustre Conhecimento da Sabedoria)
«Emancipar-se das bases materiais da verdade invertida, eis no que consiste a auto-emancipação da nossa época. Esta "missão histórica de instaurar a verdade no mundo", nem o indivíduo isolado, nem a multidão atomizada, submetida às manipulações, a podem realizar, mas ainda e sempre a classe que é capaz de ser a dissolução de todas as classes, ao reduzir todo o poder à forma desalienante da democracia realizada, o Conselho, no qual a teoria prática se controla a si própria e vê a sua acção. Lá, somente, onde os indivíduos estão "directamente ligados à história universal"; lá, somente, onde o diálogo se estabeleceu para fazer vencer as suas próprias condições.»
Guy Debord, "A Sociedade do Espectáculo", Edições Antipáticas, 2010
segunda-feira, 19 de março de 2012
diário dos mesmos pesares #13
«O meu pai morreu no dia 10 de Junho, há dois meses e meio. Pouco antes o Miguel perguntou-lhe – O que é que gostava de nos ter transmitido? e ele respondeu, sem hesitações – O amor das coisas belas pensou um bocadinho e acrescentou – Ou pelo menos das coisas que eu considero belas. Sou eu que ocupa agora o seu lugar à mesa, na cadeira de braços, na extremidade oposta ao sítio em que costumava sentar-me. O mundo parece diferente visto da cabeceira. Ainda não me habituei por completo. Julgo que me encontro em paz com ele. Desde os dez ou onze anos a minha vida tem um sentido de que nunca se afastou, e me acompanhará, com a mesma determinação, até ao fim: escrever. Toda a minha arquitectura mental a construí com esse objectivo e o resto encaro-o como secundário. Nunca quis agradar a ninguém, nunca procurei reconhecimento nem aplauso e, portanto, nunca pedi muito ao meu pai, e a sua opinião era-me igual ao litro. Um mérito ele e a minha mãe tiveram, e estou-lhes grato por isso: não me encheram de amor e atenção, o que teria matado em mim o artista: no que diz respeito às emoções mais secretas estive sempre sozinho. Em contrapartida, a criatura de quem herdei o lugar à mesa inculcou-me o ódio impiedoso a três coisas: a desonestidade, a cobardia e a falta de rigor. Tão pouco lhe escutei, uma vez sequer, um exagero, uma mentira. Recebi dele o desprezo ou indiferença pelas coisas materiais, a frugalidade e, sobretudo, o tal amor das coisas belas: nada mau como legado. Não existiram, entre nós, efusões, confidências, pieguices: não era meu amigo, era apenas meu pai. Não era amigo dele, era seu filho. Durante dois meses e meio tenho pensado no que sinto em relação a um homem com o qual não possuo a menor semelhança física e cujo feroz egoísmo, cuja impulsiva violência me surpreendiam. (serei assim tão diferente?) e é-me difícil explicar. Em que medida foi importante para mim? Amava-o? Faz-me falta? Como responder a estas três questões? É muito clara, na minha cabeça, a noção que me fiz a mim mesmo, sem ajudas, e que, com qualquer outra família, a minha existência teria sido idêntica. Quanto ao amor não sei: afigura-se-me que não é uma palavra que possa aplicar à minha relação com o meu pai e, no entanto, um estranho elo me prende à sua lembrança: não o consigo definir, o que não me inquieta demasiado. Quanto a fazer-me falta julgo que me faz falta no sentido em que cresci junto dele, junto dele e longe dele ao mesmo tempo. Era eu muito pequeno e dizia-me poemas, dava-me livros para ler, falava com entusiasmo dos seus pintores, dos seus compositores, dos seus escritores, que só parcialmente são os meus. O meu pai não foi uma pessoa criativa, não detinha o mínimo sentido de humor embora o notasse capaz de apreciar o dos outros, mas viveu apaixonado pelo seu trabalho, pelas coisas que considerava belas, espero que por mulheres também. Suponho que foi feliz, seja o que for que isso signifique. Irascível, cruel, ciumento, perdoando-se unicamente a si, era igualmente capaz de guinadas de generosidade e de autêntico afecto. Contraditório, infantil, comodista. Estava aqui a fazer esta crónica e vieram-me à ideia os seus letreiros: o tubo de cola com um papel que dizia: ESTA COLA É DO PAI NÃO MEXER em maiúsculas e sublinhado, a tampa de uma lata de tinta com que andava a pintar, não me lembro o quê, na Praia das Maçãs, e ISTO NÃO É CINZEIRO e creio que a melhor homenagem que lhe fizeram foi a do meu irmão Nuno: estava o corpo na igreja, na antecâmara, numa mesinha, de toalha preta, a salva para os cartões-de-visita, o Nuno, em maiúsculas e sublinhado, encostou à salva ISTO NÃO É CINZEIRO e tenho a certeza absoluta que o meu pai teria adorado. No dia da sua morte fomos os seis filhos, juntos, ao Hospital da CUF: parecíamos um comando da Al Qaeda. Não, faltava o João que tinha ido a Bragança receber um penduricalho presidencial: fomos os outros cincos mas parecíamos um comando da AL Qaeda na mesma, em versão pele branca e olho azul. Isso ele teria adorado também, espero eu. Levávamos-lhe a roupa, aquela vestimenta comprida de professor. Claro que chorei: por ele, por mim, pela incompreensível finitude da vida: não somos feitos para a morte. Depois da missa disse-lhe um soneto do seu amado Antero. E lá ficou, consoante o seu desejo, em campa rasa, num caixão de pobre. Tive vontade, ao dar com ele no caixão, de lhe pôr em cima um letreiro ISTO NÃO É O MEU PAI porque o meu pai não era aquele. O meu pai é um homem de trinta anos a jogar ténis na Urgeiriça e a fazer fosquinhas às inglesas. O meu pai é um homem de trinta e tal ou quarenta anos a entrar-me no quarto, onde eu fumava às escondidas, de papéis na mão, a ler-me um parágrafo qualquer da tese de doutoramento, em que penou durante séculos, para me perguntar – O que é que achas? Eu nem o ouvia, ocupado a esconder o cigarro, e respondia-lhe que achava bem para o ver pelas costas. Há uma semana reli a sua tese, pai, com a atenção que pedia a um adolescente desesperado para disfarçar uma beata. Posso responder-lhe hoje que acho bem. Palavra de honra que acho bem. Volte para o escritório sossegado que escreveu uma tese do caneco. E, já agora, tenho saudades do cheiro do cachimbo. Tenho saudades de irmos de automóvel para Nelas. Tenho saudades de patinarmos no Benfica. O Nuno, aos três anos, com uma peritonite – Eu vou morrer e quero o meu paizinho. Isto nunca esqueci. Ia morrer (foi um milagre não ter morrido) e queria o paizinho dele. Sempre que lembro esta frase comovo-me tanto: – Eu vou morrer e quero o meu paizinho. esta frase e a cara de sofrimento do meu irmão. Foi graças a si que ele não morreu. Foi graças a si que não morri da meningite. Não pense que me esqueço. Não esqueço. Paizinho»
António Lobo Antunes, "Ajuste de Contas", Visão, 9 de Setembro de 2004
domingo, 18 de março de 2012
sábado, 17 de março de 2012
A vida não é um sonho #15
«A morte bateu à porta da família com uma regularidade que se diria cronometrada. Maria, a mais velha de seis irmãos (1814), adoeceu de tuberculose no internato e morreu em Maio de 1825, com onze anos. Elisabete (1815) teve o mesmo destino - acabará de completar dez anos. Charlotte (1816), autora dos romances Jane Eyre (1847), O Coração de Shirley (1849), Villette (1853) e O Professor (1857), assinados com o pseudónimo de Currer Bell, foi, de todos, a que viveu mais tempo, chegando aos trinta e nove anos. No último ano de vida, casou com o vigário Arthur Bell Nicholls, cuja proposta de casamento recusara antes para cuidar do pai. Estava grávida quando morreu. Branwell, o único filho varão (1817) e em quem a família depositava grandes esperanças, morreu em 1848, aos trinta e um anos, afundado no álcool; apesar dos seus dotes, não passou de um pintor frustrado. Emily Brontë (1818), autora, sob o pseudónimo Ellis Bell, de seis poemas imortais e do romance O Monte dos Vendavais (1847), atingiu os trinta anos, e Anne (1820), a mais prosaica das três irmãs escritoras, os vinte e nove. É de Anne o romance Miss Grey (1847), publicado sob o nome de Acton Bell, e ainda A Inquilina de Whitefell Hall (1845). Maria, a mãe dos seis irmãos, morrera vítima de cancro antes de todos eles, em 1921. Só o pai (1777), pastor em Harworth desde 1820, ultrapassou a barreira dos quarenta, tendo falecido aos cinquenta e oito anos.»
Stefan Bollmann, "Mulheres que escrevem vivem perigosamente", Círculo de Leitores, 2007
sexta-feira, 16 de março de 2012
a poesia não me interessa #31
não te escrevas
entre os mundos,
ergue-te contra
a variedade dos sentidos,
confia no rasto das lágrimas
e aprende a viver.
Paul Celan, "A Morte é uma flor", Livros Cotovia, 1998
quinta-feira, 15 de março de 2012
quarta-feira, 14 de março de 2012
a temperatura do corpo #12
«Preferi o banho. - Sim, menina, disse em italiano tendo-se ajoelhado n'uma reverencia antes de sair. Corri ao espêlho. Eu era a minha amante! Mas a inteligencia era absolutamente a minha. Extranhava tudo: o atrito das coxas, a curva das pernas, o paladar, o perfume natural da pelle, os cabellos compridamente macios e loiros, os habitos da lingua, a direção dos gestos, as atitudes, tudo diferente e tudo melhor. De repente o corpo começou a desmanchar-se-me como duas metades mal-coladas sempre com os movimentos d'ella intersecionados do meu corpo nú a regressar lentamente de um desaparecimento. E outra vez se diluia pra ser apenas a minha amante toda núa mas com a minha intelligencia. Eu não tinha absolutamente vontade nenhuma sobre os seus gestos quotidianos, sobre os seus habitos. Eu era como que alguem que a disfructásse na intimidade espreitando-a de dentro dos olhos d'ella. Fui inconscientemente abrir um dos guarda-vestidos e vi-a ter todos os gestos que se teem pra se escolher um vestido que vá bem com a disposição do accordar mas o vestido preferido era o meu corpo mólle.»
José de Almada Negreiros, "K4 O Quadrado Azul", Assírio & Alvim, 2000
terça-feira, 13 de março de 2012
Retrato de Família #18
Walter B. Karamazov (1892-1940)
«As citações são nas minhas obras como ladrões de estrada,
que fazem um ataque armado e que aliviam um ocioso das suas convicções»
que fazem um ataque armado e que aliviam um ocioso das suas convicções»
segunda-feira, 12 de março de 2012
domingo, 11 de março de 2012
espécie de oração particular #14
«Serás quem eu quiser. Farei de ti um ornamento da minha emoção posta onde quero, e como quero, dentro de mim. Contigo não tens nada. Não és ninguém, porque não és consciente; apenas vives.»
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego", Relógio D'Água, 2008
sábado, 10 de março de 2012
Dicionário das causalidades #9
«- Mitch, perguntaste sobre o importar-me com pessoas que nem sequer conheço. Mas posso contar-te a coisa que mais tenho aprendido, com esta doença? A coisa mais importante na vida é aprender como dar amor e como deixá-lo entrar.
A sua voz baixou para um sussurro.
- Deixa-o entrar. Nós pensamos que não mercemos amor, pensamos que, se o deixarmos entrar, nos tornamos moles demais. Mas um homem sábio chamado Levine disse bem "O amor é o único acto racional".»
Mitch Albom, "Às Terças com Morrie", Sinais de Fogo, 2006
sexta-feira, 9 de março de 2012
quinta-feira, 8 de março de 2012
quarta-feira, 7 de março de 2012
o homem de quarta-feira #42
«I don't know what one means by happy
I'm happy spasmodically
If I eat a chocolate turtle I'm happy
When the box is empty I'm unhappy
When I get another box
I'm happy again
Happiness is a word for amatures»
Gordon Gano
terça-feira, 6 de março de 2012
segunda-feira, 5 de março de 2012
Imediatamente embora pouco a pouco #15
«'E já que navego sobre o vasto mar e desfraldei as velas todas
aos ventos, nada há no mundo todo que permaneça o mesmo.
Tudo flui, e toda a imagem que se forma é passageira.
Até o próprio tempo escorre, num movimento incessante,
tal como o rio. Na verdade, nem imobilizar-se pode o rio
nem veloz instante. Tal como a onda é impelida pela onda,
e a anterior, empurrada pela seguinte, empurra a anterior a si,
assim, deste modo foge o tempo, e deste modo prossegue
e é sempre novo. Pois o que foi antes fica deixado para trás
e torna-se o que não era, e todos os instantes são renovados.»
Ovídio, "Metamorfoses, Livro XV, 176-185", Livros Cotovia, 2010
Etiquetas:
Imediatamente embora pouco a pouco
domingo, 4 de março de 2012
Teoria da Conspiração #29 (ou o Precioso Consolo desta Cegueira)
«O livro está aberto e há demasiada luz.
Tudo o que escreves está contido nesse livro de letras brancas como a tua morte.
Será possível ler o sol e o silêncio desse livro branco eternamente branco e silencioso?
Como conter a ávida necessidade de devorá-lo como se o livro pudesse matar-nos a irredutível fome de uma linguagem legível e luminosa?
Estamos perante a impossibilidade de ler por um excesso de luz que é a um tempo a nossa morte e a improvável possibilidade de escrever o que não vemos, de ler o que não lemos.
Devoramos o livro e com os olhos cegos de brancura transformar a impossível leitura na escrita de uns signos imediatos que nos devolvem a linguagem da luz apagada pela luz.»
António Ramos Rosa, "Antologia Poética", Publicações Dom Quixote, 2001
Subscrever:
Mensagens (Atom)



























