terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

quero outra noite no fim do dia #5


«As coisas que me acompanham, que são minhas
Por palavras que não reconheço, vejo pela dor
Que são sempre intrusas. A meu lado, não me 
Propiciam o sono da noite. Eu sei a razão, mas
Digo para mim própria que é por uma razão não
Esclarecida, uma lesão vivida e que supura.»

Maria Gabriela Llansol 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

diário dos mesmos pesares #12


«Se pudermos considerar a linguagem uma velha cidade com um emaranhado de ruas e de praças, com bairros que remontam longe no tempo, com quarteirões demolidos, limpos e construídos de novo e subúrbios que se vão alargando ao campo circundante, eu serei uma pessoa que, após uma longa ausência, já não consegue encontrar o caminho neste aglomerado, já não sabe para que serve uma paragem de autocarro, o que é um saguão, um cruzamento, uma avenida ou uma ponte. Todo o articulado da língua, o ordenamento sintáctico de cada elemento, pontuação, conjunções e por fim até mesmo os nomes das coisas vulgares, tudo ficou mergulhado numa neblina impenetrável. Também o que eu próprio tinha escrito no passado, isso particularmente, deixei eu de entender. Estava sempre a pensar: portanto, uma frase, uma coisa pretensamente cheia de sentido, é na verdade quando muito um expediente medíocre, uma espécie de excrescência da nossa ignorância com a qual tacteamos às cegas a escuridão que nos rodeia, do mesmo modo que muitas plantas e animais marinhos usam os seus tentáculos. Precisamente o que de costume contém a expressão de uma inteligência bem orientada, a exposição de uma ideia mediante certa competência estilística, não passava, parecia-me então, de empresa de todo arbitrária ou ilusória. Já não via coerência alguma, as frases diluíam-se em muitas palavras isoladas, as palavras numa série de conjuntos de letras aleatórios, as letras em sinais desmantelados e estes num rasto cor de chumbo com reflexos prateados aqui e além que alguma criatura rastejante tivesse segregado e deixado como rasto e cuja visão me enchia cada vez mais de sentimentos de horror e vergonha.»


W. G. Sebald, "Austerlitz", Editorial Teorema, 2004 

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Toda a humilhação leva à morte #12


«Aquele homem tinha medo de quem batia à porta, mas também de quem telefonava ou o fixava da janela do edifício em frente. E por isso, resolveu pintar as paredes do quarto de riscas brancas e azuis, de forma a  assemelhar-se ao tecido do seu pijama. Logo que ouvia o rumor de passos suspeitos, ao longo da escada, corria a vestir o pijama e colava-se de rosto contra o muro. Por vezes era a sua mulher a procurá-lo ou a entrar em casa. Chamava-o. Mas estava tão camuflado que o quarto parecia vazio.»

Tonino Guerra, "Histórias para uma noite de calmaria", Assírio & Alvim, 2002

domingo, 5 de fevereiro de 2012

espécie de oração particular #13




«Às pessoas saudáveis faço o seguinte apelo: não teimem em ler apenas esses livros saudáveis, travem um conhecimento mais estreito, também, com a literatura dita doentia, que vos transmitirá, decerto, uma cultura edificante. As pessoas saudáveis deveriam sempre expor-se um pouco ao perigo. Senão, com mil raios, para que serve ser saudável? Simplesmente para, num determinado dia, morrer de boa saúde?» 


Robert Walser, "O Salteador", Relógio d'Água, 2003

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A vida não é um sonho #14



«Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder.»


Clarice Lispector, "Felicidade Clandestina", Ed. Rocco, 1971 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Orelhas de Elefante #23



«Leonard Cohen
Abandonou a música e entrou na décima arte chamada tristeza. Mas fazia mal à tristeza.
Quis aprender línguas e outras tarefas. Tornou-se o carpinteiro que fazia discursos demorados. Depois pegou numa cadeira, sentou-se, e repetiu alto: é um exercício sobre o movimento dos outros. Quando se confessava dava ordens ao confidente.
Só perdes a capacidade de ameaçar quando te apaixonas. O teu amado não tem medo de ti.»

Gonçalo M. Tavares, "Biblioteca", Campo das Letras, 2004

sábado, 28 de janeiro de 2012

a poesia não me interessa #29



Peguei no guardanapo de papel
ao qual limpaste o batom
e estendi os contornos dos teus lábios
sobre o tampo da mesa.


Depois pousei a cabeça
sobre o guardanapo,
assim de lado,
com o ouvido bem junto
ao contorno dos lábios,
e sonhei que me sussurravas
um segredo ao ouvido.


Quis convencer-me
que ainda não tinhas partido,
que a sala ainda estava cheia de ti.


Henrique Manuel Bento Fialho, "A Dança das Feridas", Edição do Autor, 2011

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Teoria da Conspiração #28 (ou o Único e a sua Particularidade)


«A essência da festa: cara a cara, um grupo de seres humanos coloca seus esforços em sinergia para realizar desejos mútuos, seja por boa comida e alegria, por dança, conversa, pelas artes da vida. Talvez até mesmo por prazer erótico ou para criar uma obra de arte comunal, ou para alcançar o arroubamento do êxtase. Em suma, uma "união de únicos" (como coloca Stirner) em sua forma mais simples, ou então, nos termos de Kropotkin, um básico impulso biológico de "ajuda mútua". (Aqui devemos mencionar a "economia do excesso" de Bataille e sua teoria sobre a cultura potlatch.)»


Hakim Bey, "TAZ – Zona Autônoma Temporária", Editora Conrad, 2001

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

sábado, 21 de janeiro de 2012

Dicionário das causalidades #8



H

Hipótese

 «Caius toma a palavra acerca de cheiros e avança uma hipótese sobre a origem do fedor:
- Antes de nascer, somos os cadáveres de uma vida de que não temos memória e andamos a flutuar no fundo do oceano.
Enquanto as nossas mães nos trazem na barriga, inchamos, enchemo-nos de ar, apodrecemos, vamos subindo lentamente até à superfície desse oceano.
Bruscamente, o nascimento lança-nos para a costa. É uma espécie de vaga violenta e súbita. T. Lucretius Carus dizia que em cada dia da nossa vida abordamos continuamente uma costa de luz.
Como o sol bate forte, começamos a cheirar mal, a decompor-nos e irrompemos a gritar.
Ao morrer, voltamos à profundidade, ao silêncio e à doçura inodora do abismo.» 

Pascal Quignard, "As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitia", Cotovia, 1999

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Momento Pergaminho #8

«Conhecer-se a si mesmo significa criar-se a si mesmo. O espirito é individual, o espirito de si.»



«Nós nos tornamos universais, mas, ao mesmo tempo, guardamos nossas raízes na nossa terra original. Esquecer-se de si é criar-se a si mesmo.»


Yoka Daïshi, "Shodoka: O Canto do Satori Imediato", Editora Pensamento, 2000

domingo, 15 de janeiro de 2012

Imediatamente embora pouco a pouco #14


«Mas não há como evitá-lo: com a idade cedemos ao costume, precisamos disso, e o motor circular de um dia extenso nos traz de volta ao mesmo jardim. Nele, todas as flores fomos nós que plantamos, todos os bancos têm nosso nome e a sombra da catedral nosso próprio formato. Não passamos então de tristes autores de nossas vidas, sobre a qual exercemos controle minucioso e despótico - herdeiros de dias antigos, proprietários cuja escritura foi lavrada com nosso medo e tédio. Em certa medida, vamos nos parecendo cada vez mais com a matéria inerte, e não com corpos elásticos feitos para o banho e para a tarde vermelha. Nosso pulmão vai se mineralizando, temos a constância dos eventos naturais (saímos de casa às seis horas, somos alérgicos a chocolate, ouvimos tangos, apenas tangos), e uma ferida azul escura vai se cravando em nossa canela, nossa espinha verga, nossos olhos perdem brilho e transparência, como leite quando talha. Então transformamo-nos num sistema circular de tiques, opiniões, fixações coletivas, cacoetes socializados, imbecilidades consentidas.»

Nuno Ramos, "Ó", Cotovia, 2010

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Não respire... (ou leituras em apneia) #4


«Estamos na última. Comemos os nossos cavalos, os nossos pássaros, ratos e mulheres. E temos fome ainda.
Os assaltantes tapam as ameias. São mais de quatro miríades; nós, menos de quatrocentos.
Não podemos já esticar o arco, nem gritar-lhes insultos; só podemos ranger os dentes, ardendo por morder-lhes.


Estamos mesmo na última. Se se dignar ler isto que é escrito a sangue, que o Imperador não tenha censuras para os nossos corpos mortos,
Mas que não invoque os nossos espíritos - pois queremos ser demónios, demónios dos piores:
Por vontade ainda de morder e devorar aquela gente!»


Victor Segalen, "Estelas e Terra Amarela", Cotovia, 1996


Pode respirar.