quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Não respire... (ou leituras em apneia) #4


«Estamos na última. Comemos os nossos cavalos, os nossos pássaros, ratos e mulheres. E temos fome ainda.
Os assaltantes tapam as ameias. São mais de quatro miríades; nós, menos de quatrocentos.
Não podemos já esticar o arco, nem gritar-lhes insultos; só podemos ranger os dentes, ardendo por morder-lhes.


Estamos mesmo na última. Se se dignar ler isto que é escrito a sangue, que o Imperador não tenha censuras para os nossos corpos mortos,
Mas que não invoque os nossos espíritos - pois queremos ser demónios, demónios dos piores:
Por vontade ainda de morder e devorar aquela gente!»


Victor Segalen, "Estelas e Terra Amarela", Cotovia, 1996


Pode respirar.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

a temperatura do corpo #10



«Foi quando a mina alvejou a estrada que Zeca realizou que tinha morrido com ela. Esse conforto demorou um nada de pensar. Uma agulha de som furou-lhe os ouvidos por dentro e um ciclone esvaziou o chão, levantou-lhe os pés e desembainhou-lhe a espinha entre a nuca e o peito. Com este açoite, a dor roubou-lhe a sensação do corpo. Viu o céu rebolar no ar, em trambolhões sem cor, e estatelar-se na areia. O mundo apagou-se no mesmo instante. Nem o pânico chegou a tempo.»

Pedro Rosa Mendes, “Baía dos Tigres”, Publicações Dom Quixote, 2005 

domingo, 11 de dezembro de 2011

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Perguntas Abandonadas #15

«Afastada a justiça, o que são, na verdade, os reinos senão grandes quadrilhas de ladrões? Que é que são, na verdade, as quadrilhas de ladrões, senão pequenos reinos?»


Santo Agostinho (354-430)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

o homem de quarta-feira #41


Sonâmbulos,
Porque dormir agora se amanhece devagar? Ainda é belo sentir as palmas a bater.
O que seria desta rua se privada do que inesperadamente nos atrai? Nada foi rasgado.
Todas as nossas sombras desejam descer, mas só o chão sabe quando é tempo de errâncias. 
                                                                                                                       

domingo, 4 de dezembro de 2011

é meia-noite no fim do céu #8


«podeis aprender que o homem
é sempre a melhor medida.
Mais: que a medida do homem
não é a morte mas a vida.»

João Cabral de Melo Neto, Paisagem com Figuras, 1956

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

o Mal-estar da Civilização #23


«A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos.»


José Saramago, Estocolmo, 10 de Dezembro, 1998

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Retrato de Família #17



Henri M. Karamazov (1899-1984)

«Não digo nada e deixo desenrolar-se sem comentários o 
incrível jogo de máscaras que continua,
ágil e sem objectivo, sem utilidade e sem relações.»