quarta-feira, 30 de novembro de 2011
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
o Mal-estar da Civilização #23
«A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos.»
José Saramago, Estocolmo, 10 de Dezembro, 1998
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Retrato de Família #17
Henri M. Karamazov (1899-1984)
«Não digo nada e deixo desenrolar-se sem comentários o
incrível jogo de máscaras que continua,
ágil e sem objectivo, sem utilidade e sem relações.»
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
diário dos mesmos pesares #11
«Sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro!.»
Clarice Lispector, "Perto do Coração Selvagem", Relógio D'Água, 2000
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
a poesia não me interessa #28
És um rei. Vive só. Escolhe um caminho livre
E segue por onde te levar tua mente livre;
Aperfeiçoa os frutos das ideias que te são caras,
Sem nada esperar por teus nobres feitos.
Em ti estão as recompensas. De ti és o juiz supremo.
Ninguém, com mais rigor, julgará tua obra.
Judicioso artista, isso te apraz?
Alexander Pushkin (1799-1837)
Andrei Tarkovski, "Esculpir o Tempo", Martins Fontes, 1998
sábado, 12 de novembro de 2011
Perguntas Abandonadas #14
«Se um artista tem uma obra dentro de si, deve sacrificar os outros ou a obra?»
Agostinho da Silva (1906-1996)
Agostinho da Silva (1906-1996)
terça-feira, 8 de novembro de 2011
espécie de oração particular #12
«Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer, e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
Pelo prazer de chorar e pelo "estamos aí"
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague
Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Deus lhe pague
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague»
Chico Buarque, "Deus Lhe Pague", Construção, 1971
domingo, 6 de novembro de 2011
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
terça-feira, 1 de novembro de 2011
domingo, 30 de outubro de 2011
o Mal-estar da Civilização #22
«Digno de espanto, se bem que vulgaríssimo, e mais doloroso do que impressionante, é ver milhões de homens a servir, miseravelmente curvados ao peso do jugo, esmagados não por uma força maior, mas aparentemente dominados e encantados apenas pelo nome de um só homem cujo poder não deveria assustá-los, visto que é um só, e cujas qualidades não deviam prezar, porque os trata desumana e cruelmente.
Tal é porém a fraqueza humana: levados à obediência, obrigados a contemporizar, os homens não podem sempre ser os mais fortes.»
Etienne de la Boétie, "Discurso sobre a servidão voluntária", Antígona, 1997
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
espécie de oração particular #11
«O tédio é pior que a angústia, é mesmo o contrário, quando se está angustiado não se sente tédio; e assim eu passava do tédio à angústia, da angústia ao tédio. Não, já não sinto tédio, não, não pode ser mais nada! Se bem que, lá no fundo, sinta que ela me espreita, me ameaça, e que me pode muito bem vir a crescer, a envolver-me, a atabafar-me. Ah, mas não, o mundo tem imenso interesse, imenso. Basta olharmos. Há gente que se contenta em olhar para as árvores, em passear. Aconselharam-me a passear. Mas esses passeios eram mais entediantes que o próprio tédio, mais tristes do que a tristeza. Oxalá que eu não torne a afundar-me no abismo do tédio. Olhar atentamente em redor, para o mundo; com a maior da atenções. Despi-lo da sua "realidade", lutar por experimentar, a cada passo, o espanto original.»
Eugène Ionesco, "O Solitário", Editora Ulisseia, 1975
terça-feira, 25 de outubro de 2011
A vida não é um sonho #13
Vergílio Ferreira, "Em Nome da Terra", Bertrand Editora, 1990
sábado, 22 de outubro de 2011
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Imediatamente embora pouco a pouco #13
«O leitor sabe que está consciente e sente que está em pleno acto de conhecer, porque o subtil relato imagético, que está agora a fluir na corrente dos seus pensamentos, manifesta o conhecimento de que o seu proto-si foi modificado por um objecto que agora mesmo se torna saliente na sua mente. O leitor sabe que existe porque, nesta narrativa, o leitor é o protagonista do acto de conhecer. O leitor eleva-se, transitória mas incessantemente, acima da linha de água do conhecimento, sob a forma de organismo sentido, imparavelmente renovado em cada novo instante, graças a toda e qualquer coisa que afecte a sua maquinaria sensorial, vinda do exterior ou recordada da memória. O leitor sabe que existe e que está a ver esta página porque a história da consciência narra um personagem — o leitor no acto de ver. O leitor sabe agora de si, e a primeira base para o si consciente é um sentimento que surge na re-representação do proto-si não consciente, no processo de ser modificado. O primeiro truque da consciência é a criação do relato desta modificação, e a sua primeira consequência é o sentimento do conhecer.»
António Damásio, "O Sentimento de Si. O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência", Publicações Europa-América, 2000
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terça-feira, 18 de outubro de 2011
Chefe, precisamos de mentiras novas #3
«Solto-me das aparências e contudo fico preso a elas; ou melhor: fico a meio caminho entre essas aparências e aquilo que as anula, aquilo que não tem nome nem conteúdo, aquilo que é nada e é tudo. Nunca serei capaz de dar o passo decisivo para fora delas. A minha natureza obriga-me a flutuar, a eternizar-me no equívoco, e, se tentasse optar por um sentido ou pelo outro, perder-me-ia por causa da minha salvação.»
E. M. Cioran, "Do Inconveniente de Ter Nascido", Letra Livre, 2010
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domingo, 16 de outubro de 2011
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Dicionário das causalidades #7
G
Guilhotina
«O sangue que treme na cama: a cama
que treme na casa: a casa
que treme, A paisagem arrancada
ao chão,
Furos de lume, Os tecidos do corpo,
Não é doce esta bolsa
de sangue, Que te adiantes: cabeça
estrelar de tigre, O dia empurra as suas massas,
Máquina planetária: Deus: uma faísca
em cheio, Ou um dedo apenas direito
estendido:
com a unha veemente entrando,
Que a obra espacial da luz se acomode
à tua plumagem, em que poça de ouro
se implanta
soberbamente a mão?,»
Herberto Helder, "A Cabeça Entre As Mãos", Assírio & Alvim, 1982
terça-feira, 11 de outubro de 2011
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