domingo, 9 de outubro de 2011

Teoria da Conspiração #27 (ou a Invenção da Banha da Cobra)




«A esta perseguição dos tigres se ajuntou outra de piolhos, a qual posto que parecia leve, foi tal que a alguns tirou as vidas, e a todos geralmente pôs em risco de as perderem; porque enquanto andávamos quase nus, trazendo somente vestidos uns farrapos por que nos apareciam as carnes em muitos lugares, ali se criavam tantos, que visivelmente nos comiam sem lhe podermos valer, e conquanto escaldávamos o fato muito amiúde, e o catávamos cada dia três e quatro vezes por ordenança; mas como era praga dada por castigo de nossos erros, nenhuma cousa aproveitava, antes parecia que quanto mais trabalhávamos por os apoquentar, então cresciam em maior quantidade; porque quando cuidávamos que os tínhamos todos mortos, dali a pouco espaço eram outra vez tantos, que com um cavaco os ajuntávamos pelo fato, e os levávamos a queimar ou soterrar, por se não poder matar tanta soma de outra maneira, mas com todos este remédios, a um Duarte Tristão, e outros dous ou três homens fizeram tais gaivas pelas costas e cabeças, que disso claramente faleceram.»

Bernardo Gomes De Brito, "História Trágico-Marítima", Círculo De Leitores, 1994       

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

o homem de quarta-feira #40



«Do vasto corpus da literatura utópicaapenas em Andrei Platonov encontramos uma reflexão essencialsobre o “corpo utópico”.18 
Por falta de espaço, limitemo-nos a algumas observaçõessucintas, para recolocarmos o problema. Em O Poço daFundação19, publicado apenas em 1987, mas que foi escrito nosmeses de inverno de 1929 e 1930, o “corpo utópico” entra emcena ao mesmo tempo que a “utopia” se esvanece, enterrada no“poço” que ela própria originara: o de construir um “casa”perfeita, um “mundo” absolutamente feliz. A história tem a vercom a construção de uma casa para os futuros jovens nascidos na“revolução”. Alegoricamente está em causa o retorno da“humanidade” a casa, da única maneira como pode ser pensada.Construíndo-a. Sucede que o plano da casa é tão incomensurávele infixável, por razões misteriosas, que as fundações exigem um“poço” que vai crescendo desmesuradamente. Finalmente não há mais que um enorme buraco, esse imenso poço. Por uma “casa” que não chega a ser construída, de que apenas ficou o poço, todos os trabalhadores abandonaram as suas, os kulaks foram expulsos, as mortes sucedem-se, e no fim, até Nastya, a rapariguinha que parece representar o “novo começo”, também ela acaba por morrer.»


18 Andrei Platonov é autor de obras densas e fantasmagóricas, caso de O poçodas Fundações e Chevengur, que tendo sido escritas nos finais dos anos 20, sóforam publicadas, em russo, nos anos oitenta.
19 Em Inglês o título é The Foundation Pit, e em Francês La Fouille.


José A. Bragança de Miranda, "Corpo utópico", cadernos pagu (15) 2000: pp.249-270

terça-feira, 4 de outubro de 2011

a temperatura do corpo #9




«Estremeceu. Poderia ainda continuar? Poderia ainda arrastar-se, cheia de febre, extenuada, em ferida, pela serra a cabo? E as dores cada vez mais apertadas, que a varavam de lado a lado, a princípio rastejantes, quase voluptuosas, e depois piores que facadas? Não, não podia continuar. Agora só atirar-se ao chão e, como no dia de São Martinho, rolar sobre a terra em brasa, negra, saibrosa, eriçada de tocos carbonizados, sem palha centeia a quebrar a dureza das arestas, e sem o desavergonhado do Armindo a cantar-lhe loas ao ouvido...»


Miguel Torga, "Bichos", Edições do Autor, 1970

domingo, 2 de outubro de 2011

a poesia não me interessa #27




Demasiado só estou no mundo, porém não o bastante
para cada hora consagrar.
Demasiado pequeno sou no mundo, porém não o bastante
para diante de ti como uma coisa estar
obscura e operante.
Quero a minha vontade e quero com minha vontade acompanhar
os caminhos do actuar;
e quero, em tempos de serenar ou de um pouco hesitar,
quando algo se aproximar,
entre os cientes me encontrar
ou a solidão habitar.

Quero ser teu reflexo sempre de corpo intrépido,
e nunca ser cego ou demasiado decrépito
para tua imagem pesada e vacilante suster.
Quero crescer.
Em nenhum lugar quero ficar distorcido,
pois é mentido o que ficar distorcido.
E quero o meu sentido
verdadeiro diante de ti. Quero de mim imagem dar
como o quadro que pude contemplar,
longamente e a curta distância também,
como palavra compreendida,
como minha diária bebida,
como o rosto de minha mãe,
como um barco afinal,
que me pôde transportar
atravessando a tormenta mais mortal.



Rainer Maria Rilke, "O Livro das Horas", Assírio & Alvim, 2009

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Perguntas Abandonadas #13



«O amor é o amor - e depois?!»
   
Alexandre O'Neill (1924-1986)

sábado, 10 de setembro de 2011

sábado, 16 de julho de 2011

A vida não é um sonho #12



«Era uma vez um surdo completamente surdo, um paralítico completamente paralítico e um calvo completamente calvo. Viviam juntos e de tanto se aborrecerem decidiram partir. A fim de alcançarem o ponto mais distante do mundo puseram-se a caminho a pé, ou seja: o paralítico ia deitado numa maca, porque era tão completamente paralítico que nem sequer se podia sentar, e o calvo e o surdo transportavam a maca. O surdo ia à frente.
A certa altura da viagem foi preciso atravessar uma floresta. Quanto mais os três homens penetravam nela mais o mato era denso e a folhagem cerrada: Por causa disso e do anoitecer, escurecia.
Iam a meio de uma clareira quando o surdo disse: "Poisa a maca." E deixou de andar, o que obrigou o calvo a parar também. O calvo e o surdo puseram a maca no chão.
E o surdo disse assim: "Esta floresta está cheia de assassinos e malandros. Há já um bom bocado que oiço a restolhada deles." O calvo respondeu: "Estou em crer nisso, porque sinto que os cabelos se me estão a pôr em pé." Então o calvo e o surdo desataram a correr, seguindo o trilho que tinham aberto no mato.
O paralítico ficou sozinho na clareira. E ele pensou: "Não gosto de estar nesta floresta. Parece-me que vou mas é fugir daqui."

Nuno Bragança, "Directa", Dom Quixote, 1995

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Imediatamente embora pouco a pouco #12



«Instrutivas são as existências em que a felicidade se vai e depois regressa; o homem entra constantemente em contacto com o universo. Estas reviravoltas não são raras na vida do jogador, mas podem ser igualmente observadas nos príncipes e nos soldados. Ainda assim, tais curvas num mundo, em que frequentemente apenas um passo em falso chega para causar ruína, permite imaginar a existência de uma inteligência fortemente marcada e rítmica. Do mesmo modo, sente-se nas pontas dos dedos, e, com efeito, tem-se consciência de que mãos finas e bem contornadas são frequentemente um indício de uma natureza feliz. Existe uma ciência do momento favorável; quem quiser ter uma ideia, deve utilizar o compêndio de Casanova.»

Ernst Jünger, "O Coração Aventuroso", Cotovia, 1991

segunda-feira, 13 de junho de 2011

domingo, 5 de junho de 2011

Chefe, precisamos de mentiras novas #2




«Como uma mesma corrente, desenvolvem-se as lutas de classes da longa época revolucionária, inaugurada pela ascensão da burguesia, e o pensamento da história, a dialéctica, o pensamento que já não pára à procura do sentido do sendo, mas que se eleva ao conhecimento da dissolução de tudo o que é; e no movimento dissolve toda a separação.»

Guy Debord, "A Sociedade do Espectáculo", Edições Antipáticas, 2010

sábado, 4 de junho de 2011

Teoria da Conspiração #26 (ou a Máquina do Estado Novo)



«Mas no caso da máquina humana de leitura, "ler" significa: reagir desta e daquela maneira a símbolos escritos. Assim, este conceito ficou completamente independente de um mecanismo psíquico ou de outro qualquer. - Aqui também não pode o professor dizer ao aluno: "Talvez ele tenha lido esta palavra". Porque não há qualquer duvida acerca do ele fez. - A transformação que foi tendo lugar quando o aluno começou a ler foi uma transformação do seu
comportamento; e aqui não tem qualquer sentido falar de uma "primeira palavra no seu estado novo de consciência".»

Ludwig Wittgenstein, "Tratado Lógico-Filosófico. Investigações Filosóficas", Fundação Calouste Gulbenkian, 1995

sexta-feira, 3 de junho de 2011

diário dos mesmos pesares #9



«Será que este caminho tem coração? Se tem, o caminho é bom; se não tem, não presta. Nenhum dos caminhos leva a parte alguma; mas um tem coração, o outro não tem. Um proporciona uma viagem com alegria; na medida em que se o seguires, serás uno com ele. Outro levar-te-á a amaldiçoar a vida.»

Don Juan

Tobias Schneebaum, "Lá onde o rio te leva", Antigona, 1990

quinta-feira, 2 de junho de 2011

espécie de oração particular #10



«Berrem comigo! Senão não me contenho.»

H.-E. Kaminski/Louis-Ferdinand Céline, "Céline de Camisa Castanha/Mea Culpa", Antígona, 1989

quarta-feira, 1 de junho de 2011

dedicatória #13*



* dedicada a todos os portadores de PHDA.

terça-feira, 31 de maio de 2011

a poesia não me interessa #26



Igual ao deuses é aquele que,
à tua frente, se senta a escutar
as tuas palavras doces e o teu riso
encantador.

É isto que provoca um tumulto
no meu peito. Ao ver-te apenas,
a minha voz treme, a minha língua
paralisa-se.

Logo um delicado fogo percorre
os meus membros; os olhos ficam
cegos e os meus ouvidos
ressoam.

O suor invade o meu corpo; percorre-me
uma ternura. Empalideço mais
que a erva seca e vejo aproximar-se
a morte.

William Carlos Williams, "Paterson", Relógio d'Água, 1998

domingo, 29 de maio de 2011

iridescência lume



©Reggio,Godfrey;1982

sábado, 28 de maio de 2011

Orelhas de Elefante #19




Porque há musicas de outras dimensões.