quarta-feira, 6 de julho de 2011

Imediatamente embora pouco a pouco #12



«Instrutivas são as existências em que a felicidade se vai e depois regressa; o homem entra constantemente em contacto com o universo. Estas reviravoltas não são raras na vida do jogador, mas podem ser igualmente observadas nos príncipes e nos soldados. Ainda assim, tais curvas num mundo, em que frequentemente apenas um passo em falso chega para causar ruína, permite imaginar a existência de uma inteligência fortemente marcada e rítmica. Do mesmo modo, sente-se nas pontas dos dedos, e, com efeito, tem-se consciência de que mãos finas e bem contornadas são frequentemente um indício de uma natureza feliz. Existe uma ciência do momento favorável; quem quiser ter uma ideia, deve utilizar o compêndio de Casanova.»

Ernst Jünger, "O Coração Aventuroso", Cotovia, 1991

segunda-feira, 13 de junho de 2011

domingo, 5 de junho de 2011

Chefe, precisamos de mentiras novas #2




«Como uma mesma corrente, desenvolvem-se as lutas de classes da longa época revolucionária, inaugurada pela ascensão da burguesia, e o pensamento da história, a dialéctica, o pensamento que já não pára à procura do sentido do sendo, mas que se eleva ao conhecimento da dissolução de tudo o que é; e no movimento dissolve toda a separação.»

Guy Debord, "A Sociedade do Espectáculo", Edições Antipáticas, 2010

sábado, 4 de junho de 2011

Teoria da Conspiração #26 (ou a Máquina do Estado Novo)



«Mas no caso da máquina humana de leitura, "ler" significa: reagir desta e daquela maneira a símbolos escritos. Assim, este conceito ficou completamente independente de um mecanismo psíquico ou de outro qualquer. - Aqui também não pode o professor dizer ao aluno: "Talvez ele tenha lido esta palavra". Porque não há qualquer duvida acerca do ele fez. - A transformação que foi tendo lugar quando o aluno começou a ler foi uma transformação do seu
comportamento; e aqui não tem qualquer sentido falar de uma "primeira palavra no seu estado novo de consciência".»

Ludwig Wittgenstein, "Tratado Lógico-Filosófico. Investigações Filosóficas", Fundação Calouste Gulbenkian, 1995

sexta-feira, 3 de junho de 2011

diário dos mesmos pesares #9



«Será que este caminho tem coração? Se tem, o caminho é bom; se não tem, não presta. Nenhum dos caminhos leva a parte alguma; mas um tem coração, o outro não tem. Um proporciona uma viagem com alegria; na medida em que se o seguires, serás uno com ele. Outro levar-te-á a amaldiçoar a vida.»

Don Juan

Tobias Schneebaum, "Lá onde o rio te leva", Antigona, 1990

quinta-feira, 2 de junho de 2011

espécie de oração particular #10



«Berrem comigo! Senão não me contenho.»

H.-E. Kaminski/Louis-Ferdinand Céline, "Céline de Camisa Castanha/Mea Culpa", Antígona, 1989

quarta-feira, 1 de junho de 2011

dedicatória #13*



* dedicada a todos os portadores de PHDA.

terça-feira, 31 de maio de 2011

a poesia não me interessa #26



Igual ao deuses é aquele que,
à tua frente, se senta a escutar
as tuas palavras doces e o teu riso
encantador.

É isto que provoca um tumulto
no meu peito. Ao ver-te apenas,
a minha voz treme, a minha língua
paralisa-se.

Logo um delicado fogo percorre
os meus membros; os olhos ficam
cegos e os meus ouvidos
ressoam.

O suor invade o meu corpo; percorre-me
uma ternura. Empalideço mais
que a erva seca e vejo aproximar-se
a morte.

William Carlos Williams, "Paterson", Relógio d'Água, 1998

domingo, 29 de maio de 2011

iridescência lume



©Reggio,Godfrey;1982

sábado, 28 de maio de 2011

Orelhas de Elefante #19




Porque há musicas de outras dimensões.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

a temperatura do corpo #8



«Eu sou o anjo do desespero. Com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, o gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é o último sopro. A minha esperança é a primeira batalha. Eu sou a faca com que o morto abre o caixão. Eu sou aquele que há-de ser. O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de amanhã.»

Heiner Müller, "O Anjo do Desespero", Relógio d'Água, 1997

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Perguntas Abandonadas #12

«Aonde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faz-mo saber, se tens inteligência.»

(Job 38:4)

Bíblia Ilustrada, "Vol. 4, 1º Crónicas - Job", Assírio & Alvim, 2007

quarta-feira, 25 de maio de 2011

dedicatória #12*



* dedicada a todos os amantes deste film noir.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Por vocações de Leitura #3


Katharina Böll

Sofia Gaarder

Guy Bradbury

segunda-feira, 23 de maio de 2011

domingo, 22 de maio de 2011

Não respire... (ou leituras em apneia) #3



«Pense em mim por vezes como alguém a quem a lição da vida foi contada muito asperamente, mas que a escutou com coragem; como alguém que de facto o amava, mas que se odiava a si mesma tão profundamente que o seu amor lhe era odioso; como alguém que o mandou embora apesar de querer ficar consigo para sempre; que não tinha melhor esperança do que esquecê-lo, nem medo maior do que ser esquecida.»

in "Olalla"

Robert Louis Stevenson, "O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde e outros contos", Assírio & Alvim, 2007

Pode respirar.

sábado, 21 de maio de 2011

Teoria da Conspiração #25 (ou o Tempo vs. Alfaiate)



«Virem de vez em quando do avesso os forros das algibeiras, porque nessa poeira de coisas, nessa penugem e cotão, é onde se criam e sustentam todos os micróbios. A putrefacção de muita gente, a gangrena da suas vidas, começou por esses algodões obscuros que não se sabe de onde vêm, por esse restos e migalhas misteriosos... Executem como autênticos cirurgiões a operação de arrancar aos vossos bolsos essas tumefacções e esse pus.
São esquírolas do passado, condensações de tempo, detritos do que passou, resultados de pássaros invisíveis que deixam cair essas coisas todas das árvores do tempo.
A higiene dos bolsos dos casacos, das calças, dos coletes, é uma das higienes mais descuradas.
Por mim, a primeira coisa que faço ao meus doentes é descarregar-lhes os bolsos, arrancar esses vermes colados às comissuras dos forros, tudo isso que cresceu na solidão e é concentração do tempo que morreu, final de horas e minutos que caíram mortos nas algibeiras como em rede de caçador.»

Ramon Gómez de la Serna, "O Médico Inverosímil", Antígona, 1998.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

a vida não é um sonho #11



«Maria ensinou-me - naquela primeira, estranha noite e nos dias seguintes - muita coisa, não apenas jogos desconhecidos e maravilhosos, êxtases dos sentidos, mas também uma nova compreensão, novas perspectivas, um novo amor. O mundo dos dancings e centros de diversão, dos cinemas, dos bares e salões de chá de hotel, que para mim, eremita e esteta, tinham ainda algo de inferior, proibido e degradante, era para a Maria, Hermínia e as suas companheiras pura e simplesmente o mundo, o único mundo que havia; não era bom nem mau, nem admirável nem detestável, mas nele desabrochava e floria a sua vida breve e árida, nele se sentiam aclimatadas e experimentadas.»

Hermann Hesse, "O Lobo das Estepes", Ed. Afrontamento, 1982