terça-feira, 3 de maio de 2011

Perguntas Abandonadas #11


«QUE FAZER, senhores? Entrar na engrenagem e, implacavelmente, ser triturado por ela, ou recusá-la, e equacionar de novo, solitariamente que fosse, o problema ou os problemas, sem outros rodeios, sem outras contemplações além das devidas à dignidade própria e à tarefa do entendimento?»

Joel Serrão (1919-2008)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Dicionário das causalidades #6




F

Falar


«Existem incompatibilidade forçadas: o literato não quer ouvir falar da sabedoria oriental; o insatisfeito que tenta atingir a sabedoria oriental não quer ouvir falar de literatura; o erudito não quer ouvir falar de experiências não livrescas; quem faz experiências não livrescas não quer ouvir falar de filologia; quem confia nas demonstrações da ciência não confia nas demonstrações da mística; quem exalta a mística sente aversão pelas pesquisas experimentais; quem se centra no moderno, vê a barbárie no passado; quem se centra no antigo vê a degeneração no presente.»


Roberto Calasso, "Os Quarenta e Nove Degraus", Cotovia, 1998

domingo, 1 de maio de 2011

Retrato de Família #16




Rainer Maria R. Karamazov (1875-1926)

«Não será tempo de estas dores antiquíssimas se tornarem
finalmente fecundas? E não será tempo de nós,
os que amamos, nos libertarmos de quem amamos, como trémulos vencedores?
De sermos como a flecha que, vencendo o arco, se solta, toda ímpeto,
passando a ser mais do que ela própria? Pois em nenhum lugar se permanece imóvel.»

sábado, 30 de abril de 2011

Ela tem os teus olhos #1



«Em muitos aspectos, a televisão torna desnecessários os golpes de Estado e as detenções em marcha da minha imaginação. Podemos começar a perceber a irrelevância de tais actos, agora que um golpe mais subtil se aproxima.
Dá-se directamente no espírito, na percepção e nos modelos sociais de cada indivíduo. Um instrumento tecnológico torna-o possível, e talvez inevitável, enquanto impede a consciência de reparar no que está a acontecer.»

Jerry Mander, "Quatro Argumentos Para Acabar com a Televisão", Antígona, 1999

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Momento Pergaminho #6



«Mãe, posso ir nadar?
Sim, minha querida filha.
Pendura a roupa num ramo de nogueira,
mas não te aproximes da água.»

Mother Goose

Jean Shinoda Bolen, "As Deusas em cada Mulher", Planeta Editora, 1998

quinta-feira, 28 de abril de 2011

a temperatura do corpo #7



«Não é nenhum capricho! exclamou ela.
Então o que é? perguntei apavorado.
Despertou em mim esse instinto, disse ela tranquilamente como que reflectindo; talvez jamais visse a luz do dia se não o tivesse despertado, desenvolvido e agora ele atingiu uma força irresistível que enche meu ser, que me proporciona o prazer mais desejável e apesar disso tu querias que recuasse, tu, mas és tu um homem?»

Leopold von Sacher Masoch, “A Vénus de Kazabaika”, Edições Afrodite,1966

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Orelhas de Elefante #18



Porque há musicas de outras dimensões.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

o combate com o demónio #2



Aristides de Sousa Mendes (1885–1954)

«Sousa Mendes desobedeceu a Salazar; Salazar destruiu-o.»

Rui Afonso

domingo, 24 de abril de 2011

Corpus Christi Carol #4



«É claro e evidente que constitui um abuso, um erro, uma ilusão, uma mentira e uma impostura querer fazer passar leis e instituições puramente humanas por leis e por instituições sobrenaturais e divinas. Ora, não há dúvida que todas as religiões que existem no mundo são apenas, como disse, invenções e instituições puramente humanas, e não há dúvida que aqueles que as inventaram só se serviram do nome e da autoridade de Deus para melhor e mais facilmente fazerem aceitar as leis e as ordenanças que quiseram estabelecer.»

Jean Meslier, "Memória", Antígona, 2003

sexta-feira, 22 de abril de 2011

a poesia não me interessa #24



«Não é necessário observar o trabalho de alguém
para saber se é essa a sua vocação,

basta olhá-lo nos olhos:
um cozinheiro apurando um molho,

um cirurgião abrindo a pele,
um escriturário preenchendo uma relação

de embarque, têm a mesma expressão
distraída, embevecidos na sua tarefa.

Que bela é essa devoção
do olho pelo objecto.

Ignorar a deusa sedutora,
abandonar os sacrários magníficos

de Rea, Afrodite, Demeter, Diana,
preferir rezar a S. Focas,

Santa Bárbara, S. Saturnino,
ou outro padroeiro qualquer,

de cujo mistério se seja merecedor,
que passo gigantesco foi dado.

Deveria haver monumentos e odes
aos heróis desconhecidos que começaram,

a quem arrancou as primeiras faíscas
da pederneira e esqueceu o jantar,

ao primeiro coleccionador de conchas
que ficou celibatário.

Se não fossem eles, ode estaríamos?
Ainda ferozes, sem hábitos caseiros,

errando através das florestas,
com nomes sem consoantes,

escravos da Dama gentil, sem
noções da civilidade

e hoje à tarde, para esta morte,
não haveria agentes funerários.»

W.H. Auden, "O Massacre dos Inocentes", Assírio & Alvim, 1994

quarta-feira, 20 de abril de 2011

terça-feira, 19 de abril de 2011

o homem de quarta-feira #39



«A construção da vida passa neste momento muito mais pela força dos factos do que pelas convicções. Concretamente, de factos que quase nunca e em lugar algum chegaram a transformar-se em fundamento de convicções. Em tais circunstâncias, a autêntica actividade literária não pode ter a pretensão de se desenvolver num âmbito estritamente literário - essa é antes a expressão habitual da sua esterilidade. Uma eficácia literária significativa só pode nascer de uma rigorosa alternância entre acção e escrita. Terá de cultivar e aperfeiçoar, no panfleto, na brochura, no antigo jornal, no cartaz, aquelas formas despretensiosas que se ajustam melhor à sua influência sobre comunidades activas do que o ambicioso gesto universal do livro. Só esta linguagem imediata se mostra capaz de responder activamente às solicitações do momento. As opiniões estão para o gigantesco aparelho da vida social como o óleo para as máquinas: ninguém se aproxima de uma turbina e lhe verte óleo para cima. O que se faz é ejectar algumas gotas em rebites e juntas escondidos que têm de se conhecer bem.»

Walter Benjamin, "Imagens de Pensamento", Assírio & Alvim, 2004

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Teoria da Conspiração #23 (ou o Fundo Mitológico da Ironia)



«No início havia um deus da noite e da tempestade, um ídolo negro sem olhos, nu e coberto de sangue. Mais tarde, nos tempos da república, havia muitos deuses e suas esposas e crianças, camas que rangiam e raios que explodiam de modo inofensivo. No fim apenas neuróticos supersticiosos traziam nos bolsos pequenas estátuas de sal, representando o deus da ironia. Nessa altura não havia um deus que sobressaísse.

E então vieram os bárbaros. Também eles tinham em grande conta o deus da ironia. Esmagá-lo-iam com os calcanhares e usá-lo-iam para decorar os seus manjares.»

Zbigniew Herbert, "Escolhido Pelas Estrelas", Assírio & Alvim, 2009

domingo, 17 de abril de 2011

Chefe, precisamos de mentiras novas #1



«- Que balbúrdia é esta?, perguntou o Chefe. Eu estava desesperado, mas tranquilo. Que vêm agora vocês...?!
- Os economistas dizem que é preciso cortar ainda mais nas despesas! - disseram de uma vez os Auxiliares, com respiração ofegante.
- Quais despesas?
- As dos outros!
- Ah, as dos outros! - Exclamou o Chefe, aliviado.
- Sim, Chefe, mas tal não nos deve descansar. Porque os economistas (e esta palavra era dita como se existisse receio de a repetir em voz alta) quando dizem que é urgente cortar as despesas dos outros não deixam de olhar para nós. E fixamente.
- Para nós?! - exclamou o Chefe, indignado. - Mas nós não somos os outros!
Subitamente todos se calaram, ao mesmo tempo, como se tivessem combinado.»

Gonçalo M. Tavares, "O Senhor Kraus", Caminho, 2005

sexta-feira, 15 de abril de 2011

o Mal-estar da Civilização #20



«Estou de acordo, o homem é um animal, essencialmente criador, predestinado a aspirar a um fim na vida conscientemente e a dedicar-se à arte da engenharia, ou seja, a abrir para si mesmo um caminho, eterna e ininterruptamente, seja para onde for. Mas talvez lhe apeteça às vezes desviar-se para qualquer lado, precisamente porque é obrigado a abrir esse caminho, e também porque, por mais tolo que seja quem age directamente, talvez lhe aconteça de vez em quando pensar que esse caminho vai sempre seja para onde for e que o principal não consiste em que direcção segue, mas no próprio facto de seguir e em que a criança da boa moral não despreze a arte da engenharia e não se dedique à folga nociva que, como se sabe, é a mãe de todos os males. O homem gosta de criar e de construir caminhos, é indiscutível. Mas por que gosta também apaixonadamente da destruição e do caos? Vá, digam lá!
»

Fiódor Dostoiévski, "Cadernos do Subterrâneo", Assírio & Alvim, 2000

quinta-feira, 14 de abril de 2011

K, o elemento estranho da tabela literária #1



«Um dia de manhã, ao acordar dos seus sonhos inquietos, Gregor Samsa deu por si em cima da cama, transformado num insecto monstruoso. Estava deitado de costas, sentia a carapaça dura e, ao elevar um pouco a cabeça, via a barriga arredondada, de cor castanha, dividida em faixas rígidas arqueadas, e no alto dela, a coberta da cama em equilíbrio instável, quase a resvalar. As muitas pernas, penosamente finas em comparação com a sua actual corpulência, tremiam diante dos seus olhos perplexos.
»

Franz Kafka, "A Metamorfose", Quasi Edições, 2008

quarta-feira, 13 de abril de 2011

a vida não é um sonho #9



«Quem transforma a vida num ofertório de instantes, quem lança ao mar as horas e o tambor constante é o herdeiro de uma alegria antiga, cobrindo-se de luto e de tinta tinta preta para descansar, e através da música e das imagens recolher-se, em meio aos gritos do feroz sargento que diz Acorde, Deseje, Marrete, Martele, Produza, e contemplar a imagem calma, azul-escura, depois da chuva. Às vezes, ainda de manhã, antes que o relógio introduza o vício, antes que a borra avinagrada de uma outra vida, melhor que esta, deixe de vez a minha boca, consigo agarrar algumas franjas de um sonho enlutado, mas feliz e único.
»

Nuno Ramos, "Ó", Cotovia, 2010