segunda-feira, 11 de abril de 2011

diário dos mesmos pesares #7





















«Aqui
É tudo,
Nada
Entre Tudo e Nada.
Movimento
Gosto
E
Quando
Mais
Fim,
Causa Amante.»

MGL

sábado, 9 de abril de 2011

a poesia não me interessa #23



«Basta de escavar, de dilapidar a nossa mais próxima parte.
O pior está em todos nós, caçador, no nosso flanco. Vós que aqui não sois mais do que uma pá levantada pelo tempo, voltai-vos sobre o meu amor, que soluça a meu lado, e despedaçai-me, peço-vos, fazei-me morrer de uma vez por todas.»

René Char, "Furor e Mistério", Relógio d'Água, 2000

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Imediatamente embora pouco a pouco #10



Instruções para chorar

«Prescindindo dos motivos, vamos ater-nos à maneira correcta de chorar, ou seja, um pranto que não ingresse no escândalo, nem insulte o sorriso com paralela e torpe semelhança. Consiste o pranto médio ou corrente numa contracção geral do rosto e num som espasmódico acompanhado de lágrimas e ranho, este último no final, já que o pranto termina no momento em que uma pessoa se assoa energicamente. Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto lhe for impossível por haver contraído o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães onde nunca ninguém entra. Quando o pranto começar, cobrirá com decoro o rosto, usando para tal ambas as mãos com as palmas viradas para dentro. As crianças chorarão com a manga do bibe a tapar a cara, e de preferência a um canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos.»

Julio Cortázar, "Histórias de Cronópios e de Famas" Editorial Estampa, 1973

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O milagre do código genético



©Kubrick,Stanley;1987

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Retrato de Família #15




Hermann B. Karamazov (1886-1951)

«Quem vai sobre as ondas do mar não tem objectivo e não pode cumprir-se: está encerrado em si mesmo. Nele o possível dormita. Quem quer que seja que o ame só o pode amar pelo que ele promete, pelo que repousa nele, não pelo que atingiu ou pelo que atingirá. Por isso o homem da terra firme ignora o amor e toma por amor a ansiedade em que vive.»

terça-feira, 5 de abril de 2011

Por vocações de Leitura #2


Alice Carroll

Isabel Somerset Maugham

Gabriela Mann

segunda-feira, 4 de abril de 2011

espécie de oração particular #8



«O Sol secará e o vento esgotará a sordidez e imundice da natureza. Como quando o vento do sul faz derreter os bancos de neve e a face da terra reverdesce com ele, assim também o espírito que avança cria ornamentos à sua passagem e transporta consigo a beleza que visita e a canção que o encanta. Criará belos rostos, corações ternos, palavras sábias e actos heróicos à sua passagem, até que o Mal deixe de existir. O reinado do Homem sobre a Natureza, que não provém da observação - um domínio que, por agora, se encontra para além do seu sonho de Deus -, será alcançado com o mesmo deslumbramento que o de um cego que gradualmente é devolvido à visão perfeita.»

Ralph Waldo Emerson, "A Natureza", Sinais de Fogo, 2001

domingo, 3 de abril de 2011

Dedicatória #11*



* dedicada a todos os que só desligam as luzes quando o adversário deixa a sala.

sábado, 2 de abril de 2011

Dicionário das causalidades #5



E

Exercitação

«Difícil é que o raciocínio e o ensino, ainda que de bom grado lhes demos fé, sejam assim assaz poderosos para nos encaminharem à acção, se, ademais, não exercitarmos e formarmos pela experiência a alma ao andamento a que a pretendemos acomodar: de outro modo, quando ela estiver na iminência de agir, sem dúvida que se sentirá embaraçada. Eis porque, entre os filósofos, os que quiseram atingir uma maior excelência, receando que ela os surpreendesse inexperientes e novatos no combate, não se contentaram em esperar no remanso do abrigo pelos rigores da Fortuna, antes, foram ao seu encontro e deliberadamente se expuseram à prova das dificuldades: uns abandonaram os bens materiais para se exercitarem na pobreza voluntária; outros andaram à cata de fadigas e buscaram uma penosa austeridade de vida para se endurecerem contra a dor e o sofrimento; outros ainda, privaram-se das mais preciosas partes do corpo, tais como os olhos e os membros genitais, não fosse a sua utilização, demasiado prazenteira e amena, relaxar e amolecer a firmeza da sua alma. Porém, a morrer, a maior tarefa que temos de fazer, a exercitação não nos pode ajudar. Podemos, pela usança e pela experiência, fortalecermo-nos contra as dores, a vergonha, a indigência e outros acidentes que tais, mas, quanto à morte, só a podemos ensaiar uma vez - quando a ela chegarmos, todos somos aprendizes.
Houve na Antiguidade homens tão exímios a gerir o seu tempo que, na própria morte, tentaram degustá-la e saboreá-la, e que entesaram o espírito para ver o que é que, afinal, era o passamento, mas não voltaram cá para nos dar novas»

Montaigne, "Ensaios", Relógio d'Água, 1998

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Toda a humilhação leva à morte #11



«Na verdade, por minúscula que seja, uma obra de arte acrescenta ao que já é qualquer coisa que não estava lá. O que não deveria normalmente acontecer causa embaraço. Mesmo uma tradição que reaparece pode ser intrusa e por assim dizer perturbadora. Um segundo ponto torna a arte embaraçosa: não só aumenta o que é imprevisível, como odeia a morte. Os artistas são assassinos da morte. Neste sentido, é normal serem castigados pelos que tem como profissão tanto administrá-la, como aumentá-la.»

Pascal Quignard, "As Sombras Errantes", Gótica, 2003

quinta-feira, 31 de março de 2011

Perguntas Abandonadas #10


«O ser é suspeito. O que dizer então da "vida", que consiste no desvio e no envilecimento do ser?»

E. M. Cioran (1911-1995)

quarta-feira, 30 de março de 2011

Orelhas de Elefante #17

para rapariguinhas maduras


June Tabor, "Ashore", Topic Records, 2011

para meninos crescidos


Bill Callahan, "Apocalypse", Drag City, 2011


Porque há musicas de outras dimensões.

«Toda a atracção acontece mediante estímulo. Tudo o que nos excita, atrai-nos.»
Novalis

terça-feira, 29 de março de 2011

segunda-feira, 28 de março de 2011

teoria da Conspiração #22 (ou a Trama Broncodilatadora)



«- Serias um amor, querida Chloé, se as tomasses!
- Eu bem quero - disse Chloé - mas tens de me beijar.
- Combinado - disse Colin. - Não ficas aborrecida por beijares um marido desprezível como eu?...
- É verdade que não és bonito - disse Chloé, arreliadora.
- Não tenho culpa.
Colin baixou o nariz.
- Não durmo o bastante - continuou.
- Beija-me, Colin querido, sou muito má. Dá-me duas pílulas.
- És louca - disse Colin. - Só uma. Vá, engole...
Chloé fechou os olhos, empalideceu e levou a mão ao peito.
- Já está - disse com esforço. - Vai recomeçar...»

Boris Vian, "A Espuma dos Dias", Relógio d'Água, 2001

domingo, 27 de março de 2011

a temperatura do corpo #6



«
Comecei a perceber mais profundamente do que alguma vez se conhecera antes, a tremenda imaterialidade, a brumosa transitoriedade deste corpo aparentemente tão sólido com que andamos ataviados. Descobri que certos agentes têm o poder de abalar e repuxar essa vestimenta carnal, do mesmo modo que um vento afasta as cortinas de um pavilhão. Não entrarei muito nesse ramo científico da minha confissão, e isto por duas razões. Primeiro, porque fui levado a entender que o fado e o fardo da nossa vida serão para sempre carregados sobre os ombros do homem, e que quando se tenta pô-los de parte, limitam-se a regressar sobre nós com uma pressão ainda mais anormal e mais terrível. Depois porque, como a minha narrativa infelizmente há-de tornar demasiado evidente, as minhas descobertas estavam incompletas. Bastou, então, que eu não apenas reconhecesse o meu corpo natural pela mera aura e esplendor de alguns dos poderes que formavam o meu espírito, mas conseguisse compor uma droga com a qual esses poderes fossem destronados da sua supremacia, substituída por uma segunda forma e semblante, apesar de tudo naturais em mim dado serem a expressão, e carregarem o selo, dos elementos mais baixos da minha alma.»

Robert Louis Stevenson, "O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde e outros contos", Assírio & Alvim, 2007

segunda-feira, 21 de março de 2011

a poesia não me interessa #22


«A boca de uma rapariga que tinha jazido muito tempo entre canaviais
estava toda roída.
Quando lhe abriram o peito, o esófago estava todo esburacado.
Finalmente, num recanto sob o diafragma,
encontraram um ninho de jovens ratazanas.
Um dos irmãozinhos estava morto.
Os outros viviam de fígado e de rins,
bebiam o sangue frio, e aqui
tinham passado uma bela juventude.
Bela e rápida foi também a sua morte:
Lançaram-nos todos à água.
Ah, como os pequenos focinhos chiavam!»


Gottfried Benn in "A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas", selecção e tradução de João Barrento, Relógio D' Água, 2001

quinta-feira, 3 de março de 2011

o homem de quarta-feira #38



«hoje
graças ao progresso
já não é verdade que
a pobreza
seja uma doença incurável»

Alberto Pimenta, "Ainda há Muito para Fazer", &etc, 1998

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

a temperatura do corpo #5



«Por diversas noites, uma jovem religiosa, que sofria mais do que qualquer outra criatura a renúncia aos prazeres do corpo, recolheu os folhetos que alguém, secretamente, fizera passar por baixo da porta fechada da sua cela. Eram pedaços de um papel muito branco, sobre o qual se distinguia uma marca, provavelmente o desenho de uma parte do rosto. Primeiro um olho, uma madeixa de cabelo, depois uma orelha, a boca, a testa, o queixo. A religiosa, unindo os fragmentos, procurou compor o rosto e, com terror, sofria cada vez mais o fascínio que exalava aquela imagem ainda incompleta. Na última noite, quando estava certa que encontraria o último fragmento para completar o rosto do secreto sedutor, acendeu uma vela para queimar aquela imagem de tentação. E apercebeu-se que se tratava do rosto de Deus. Então, um a um, como se fossem hóstias consagradas, engoliu os fragmentos de todo aquele papel.»

Tonino Guerra, "Histórias para uma noite de calmaria" Assírio & Alvim, 2002