domingo, 3 de abril de 2011

Dedicatória #11*



* dedicada a todos os que só desligam as luzes quando o adversário deixa a sala.

sábado, 2 de abril de 2011

Dicionário das causalidades #5



E

Exercitação

«Difícil é que o raciocínio e o ensino, ainda que de bom grado lhes demos fé, sejam assim assaz poderosos para nos encaminharem à acção, se, ademais, não exercitarmos e formarmos pela experiência a alma ao andamento a que a pretendemos acomodar: de outro modo, quando ela estiver na iminência de agir, sem dúvida que se sentirá embaraçada. Eis porque, entre os filósofos, os que quiseram atingir uma maior excelência, receando que ela os surpreendesse inexperientes e novatos no combate, não se contentaram em esperar no remanso do abrigo pelos rigores da Fortuna, antes, foram ao seu encontro e deliberadamente se expuseram à prova das dificuldades: uns abandonaram os bens materiais para se exercitarem na pobreza voluntária; outros andaram à cata de fadigas e buscaram uma penosa austeridade de vida para se endurecerem contra a dor e o sofrimento; outros ainda, privaram-se das mais preciosas partes do corpo, tais como os olhos e os membros genitais, não fosse a sua utilização, demasiado prazenteira e amena, relaxar e amolecer a firmeza da sua alma. Porém, a morrer, a maior tarefa que temos de fazer, a exercitação não nos pode ajudar. Podemos, pela usança e pela experiência, fortalecermo-nos contra as dores, a vergonha, a indigência e outros acidentes que tais, mas, quanto à morte, só a podemos ensaiar uma vez - quando a ela chegarmos, todos somos aprendizes.
Houve na Antiguidade homens tão exímios a gerir o seu tempo que, na própria morte, tentaram degustá-la e saboreá-la, e que entesaram o espírito para ver o que é que, afinal, era o passamento, mas não voltaram cá para nos dar novas»

Montaigne, "Ensaios", Relógio d'Água, 1998

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Toda a humilhação leva à morte #11



«Na verdade, por minúscula que seja, uma obra de arte acrescenta ao que já é qualquer coisa que não estava lá. O que não deveria normalmente acontecer causa embaraço. Mesmo uma tradição que reaparece pode ser intrusa e por assim dizer perturbadora. Um segundo ponto torna a arte embaraçosa: não só aumenta o que é imprevisível, como odeia a morte. Os artistas são assassinos da morte. Neste sentido, é normal serem castigados pelos que tem como profissão tanto administrá-la, como aumentá-la.»

Pascal Quignard, "As Sombras Errantes", Gótica, 2003

quinta-feira, 31 de março de 2011

Perguntas Abandonadas #10


«O ser é suspeito. O que dizer então da "vida", que consiste no desvio e no envilecimento do ser?»

E. M. Cioran (1911-1995)

quarta-feira, 30 de março de 2011

Orelhas de Elefante #17

para rapariguinhas maduras


June Tabor, "Ashore", Topic Records, 2011

para meninos crescidos


Bill Callahan, "Apocalypse", Drag City, 2011


Porque há musicas de outras dimensões.

«Toda a atracção acontece mediante estímulo. Tudo o que nos excita, atrai-nos.»
Novalis

terça-feira, 29 de março de 2011

segunda-feira, 28 de março de 2011

teoria da Conspiração #22 (ou a Trama Broncodilatadora)



«- Serias um amor, querida Chloé, se as tomasses!
- Eu bem quero - disse Chloé - mas tens de me beijar.
- Combinado - disse Colin. - Não ficas aborrecida por beijares um marido desprezível como eu?...
- É verdade que não és bonito - disse Chloé, arreliadora.
- Não tenho culpa.
Colin baixou o nariz.
- Não durmo o bastante - continuou.
- Beija-me, Colin querido, sou muito má. Dá-me duas pílulas.
- És louca - disse Colin. - Só uma. Vá, engole...
Chloé fechou os olhos, empalideceu e levou a mão ao peito.
- Já está - disse com esforço. - Vai recomeçar...»

Boris Vian, "A Espuma dos Dias", Relógio d'Água, 2001

domingo, 27 de março de 2011

a temperatura do corpo #6



«
Comecei a perceber mais profundamente do que alguma vez se conhecera antes, a tremenda imaterialidade, a brumosa transitoriedade deste corpo aparentemente tão sólido com que andamos ataviados. Descobri que certos agentes têm o poder de abalar e repuxar essa vestimenta carnal, do mesmo modo que um vento afasta as cortinas de um pavilhão. Não entrarei muito nesse ramo científico da minha confissão, e isto por duas razões. Primeiro, porque fui levado a entender que o fado e o fardo da nossa vida serão para sempre carregados sobre os ombros do homem, e que quando se tenta pô-los de parte, limitam-se a regressar sobre nós com uma pressão ainda mais anormal e mais terrível. Depois porque, como a minha narrativa infelizmente há-de tornar demasiado evidente, as minhas descobertas estavam incompletas. Bastou, então, que eu não apenas reconhecesse o meu corpo natural pela mera aura e esplendor de alguns dos poderes que formavam o meu espírito, mas conseguisse compor uma droga com a qual esses poderes fossem destronados da sua supremacia, substituída por uma segunda forma e semblante, apesar de tudo naturais em mim dado serem a expressão, e carregarem o selo, dos elementos mais baixos da minha alma.»

Robert Louis Stevenson, "O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde e outros contos", Assírio & Alvim, 2007

segunda-feira, 21 de março de 2011

a poesia não me interessa #22


«A boca de uma rapariga que tinha jazido muito tempo entre canaviais
estava toda roída.
Quando lhe abriram o peito, o esófago estava todo esburacado.
Finalmente, num recanto sob o diafragma,
encontraram um ninho de jovens ratazanas.
Um dos irmãozinhos estava morto.
Os outros viviam de fígado e de rins,
bebiam o sangue frio, e aqui
tinham passado uma bela juventude.
Bela e rápida foi também a sua morte:
Lançaram-nos todos à água.
Ah, como os pequenos focinhos chiavam!»


Gottfried Benn in "A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas", selecção e tradução de João Barrento, Relógio D' Água, 2001

quinta-feira, 3 de março de 2011

o homem de quarta-feira #38



«hoje
graças ao progresso
já não é verdade que
a pobreza
seja uma doença incurável»

Alberto Pimenta, "Ainda há Muito para Fazer", &etc, 1998

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

a temperatura do corpo #5



«Por diversas noites, uma jovem religiosa, que sofria mais do que qualquer outra criatura a renúncia aos prazeres do corpo, recolheu os folhetos que alguém, secretamente, fizera passar por baixo da porta fechada da sua cela. Eram pedaços de um papel muito branco, sobre o qual se distinguia uma marca, provavelmente o desenho de uma parte do rosto. Primeiro um olho, uma madeixa de cabelo, depois uma orelha, a boca, a testa, o queixo. A religiosa, unindo os fragmentos, procurou compor o rosto e, com terror, sofria cada vez mais o fascínio que exalava aquela imagem ainda incompleta. Na última noite, quando estava certa que encontraria o último fragmento para completar o rosto do secreto sedutor, acendeu uma vela para queimar aquela imagem de tentação. E apercebeu-se que se tratava do rosto de Deus. Então, um a um, como se fossem hóstias consagradas, engoliu os fragmentos de todo aquele papel.»

Tonino Guerra, "Histórias para uma noite de calmaria" Assírio & Alvim, 2002

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

diário dos mesmos pesares #6



«Odiava, odiava, odiava o mundo. Odiava e evitava tudo o que existia, se movia e vivia. E então chegaste tu, fresco, tolo, desajeitado, insolente e com o aroma de emoções incorruptas em flor, e eu, como é natural, reagi com violência, mas assim que te vi sabia já que tu eras um esplêndido rapaz, caído do céu, enviado e oferecido, assim me parecia, por um deus omnisciente.»

Robert Walser, "Jakob van Gunten", Relógio d´Água, 2005

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

em nome da Tulipa



©Solondz,Todd;2009

sábado, 5 de fevereiro de 2011

a vida não é um sonho #8



«Mas chegámos a uma estação de comboios. Aqueles que tinham lugar perto das janelas disseram-nos o nome da estação:
- Auschwitz.
Ninguém tinha ouvido falar daquele nome.
O comboio não voltava a partir. O meio-dia passou lentamente. Depois, as portas do vagão deslizaram. Podiam sair dois homens para procurar água.
Quando voltaram, contaram que tinham conseguido saber, em troca de um relógio de ouro, que se tratava do término. Íamos desembarcar. Aqui existia um campo de trabalho. Com boas condições. As famílias não seriam separadas. Somente os jovens iriam trabalhar nas fábricas. Os velhos e os doentes tratariam da terra.
O barómetro da confiança deu um salto. Era a súbita libertação de todos os terrores das noites anteriores. Demos graças a Deus.»

Elie Wiesel, "Noite", Texto Editora, 2003

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Retrato de Família #14




Jack L. Karamazov (1876-1916)

«O dinheiro... só podia deitar-me numa cama de cada vez, e de que valia um rendimento diário de cem cervejarias quando só podia comer numa?»

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Por vocações de Leitura #1


Cesárea Bolaño

Veronika Coelho

Kitty Auster

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Imediatamente embora pouco a pouco #9



«No espanto desenhado da palavras azuis, há ocasiões em que paro, a meio de escrever, e me apavoro. Eu: que escrevi, porque escrevi.
Quem sou eu para me revirar e jogar isso num papel a caminho de outra gente? Quem sou eu (repito) para ensopar na tinta que sou as coisas que me furam?
Olho, penso, não acho resposta. "Nem que sim nem que não", diz assobiadamente o silêncio de tudo e todos a este respeito.
Encolho-me. Ninguém dá por mim (a própria cigarra que grita terá do que se está a passar uma suspeita leve e breve).
Quite em tudo que não seja o braço, mexidamente direito, e o sangue e o respirar, volto ao papel. O Tempo: é como chuva. E em qualquer sítio uma qualquer porta atrás de que pode estar alguém.»

Nuno Bragança, "A Noite e o Riso", Obra Completa, Dom Quixote, 2009

domingo, 23 de janeiro de 2011

espécie de oração particular #7



«Enterrei hoje minha mulher - porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira. Levá-la para o cemitério, e como? Fica longe. Ela pedira-mo uma vez, inesperadamente, acordando-me a meio da noite. Queria que a enterrasse junto ao muro que dá para o caminho, porque se vê daí a casa dela. Habituara-se a olhar para aquele sítio depois que ficou só. E pensava: "Verei dali a janela do meu quarto." Mas teria de transportá-la para lá. Não tenho forças e cai neve. A quantos estamos? É Inverno, Dezembro, talvez, ou Janeiro. Tiro a neve com uma pá, traço o rectângulo e cavo.»

Vergílio Ferreira, "Alegria Breve", Bertrand, 2004

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Teoria da Conspiração #21 (ou a Parafina do Éden)



«Naquele tempo, costumava levar gelo à Nina Simone. Era sempre simpática comigo. Tratava-me sempre por "Queriiido". Levava-lhe uma bandeja cinzenta cheia de gelo, para ela pôr no Whisky.

Ela descascava a cabeleira loura e atirava-a para o chão. Por debaixo da cabeleira, o seu cabelo verdadeiro era miudinho, como o pêlo de um cordeiro negro tosquiado. Descascava as pestanas postiças e colava-as ao espelho. As pálpebras eram salientes. Pintava-as de azul. Faziam-me sempre pensar numa dessas rainhas egípcias, como as que eu tinha visto na National Geographic. A sua pele brilhava de molhada. Enrolava uma toalha azul à volta do pescoço e depois inclinava-se para a frente, descansando os cotovelos sobre os joelhos. O suor rolava-lhe pela cara abaixo, salpicando o chão vermelho de cimento, entre os seus pés.

Habitualmente acabava o espectáculo com a canção "Jenny The Pirate", de Bertolt Brecht. Cantava sempre esta canção como se se tratasse de uma vingança sua, muito profunda, como se tivesse sido ela própria a autora do poema. A sua actuação era como um tiro, que alvejava, primeiro, a garganta de uma audiência branca. Depois, o coração. Finalmente, a cabeça. Nesses tempos, ela disparava a matar.

A canção do seu espectáculo que realmente me punha fora de mim era "Que bom era ter-te à minha espera". Sempre que a cantava, eu ficava assombrado, hipnotizado. Andava a recolher copos de Whiskey Sour quanto ela atacava aquele piano, que desabava sobre nós, retumbante, com a sua voz fantasmagórica, serpenteando através do amontoado das cordas. Os meus olhos subiam para o palco e por lá ficavam, enquanto as minhas mãos continuavam a trabalhar.

Uma vez, estava ela a cantar essa canção, derrubei uma vela. A cera quente espirrou para cima do fato de um homem de negócios, sujando-o todo. Fui chamado ao escritório do gerente. O homem lá estava, com os salpicos de cera quente espalhados pelas calças abaixo. Parecia que se tinha vindo para cima do fato. Nessa noite, fui despedido.
Lá fora, na rua, ainda podia ouvir a sua voz atravessando as paredes: "Seria o paraíso, ter-te à minha espera".»

Sam Shepard, "Crónicas Americanas", Difel, 2002