«O ser é suspeito. O que dizer então da "vida", que consiste no desvio e no envilecimento do ser?»
quinta-feira, 31 de março de 2011
quarta-feira, 30 de março de 2011
Orelhas de Elefante #17
terça-feira, 29 de março de 2011
segunda-feira, 28 de março de 2011
teoria da Conspiração #22 (ou a Trama Broncodilatadora)

«- Serias um amor, querida Chloé, se as tomasses!
- Eu bem quero - disse Chloé - mas tens de me beijar.
- Combinado - disse Colin. - Não ficas aborrecida por beijares um marido desprezível como eu?...
- É verdade que não és bonito - disse Chloé, arreliadora.
- Não tenho culpa.
Colin baixou o nariz.
- Não durmo o bastante - continuou.
- Beija-me, Colin querido, sou muito má. Dá-me duas pílulas.
- És louca - disse Colin. - Só uma. Vá, engole...
Chloé fechou os olhos, empalideceu e levou a mão ao peito.
- Já está - disse com esforço. - Vai recomeçar...»
Boris Vian, "A Espuma dos Dias", Relógio d'Água, 2001
domingo, 27 de março de 2011
a temperatura do corpo #6

Robert Louis Stevenson, "O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde e outros contos", Assírio & Alvim, 2007
segunda-feira, 21 de março de 2011
a poesia não me interessa #22

«A boca de uma rapariga que tinha jazido muito tempo entre canaviais
estava toda roída.
Quando lhe abriram o peito, o esófago estava todo esburacado.
Finalmente, num recanto sob o diafragma,
encontraram um ninho de jovens ratazanas.
Um dos irmãozinhos estava morto.
Os outros viviam de fígado e de rins,
bebiam o sangue frio, e aqui
tinham passado uma bela juventude.
Bela e rápida foi também a sua morte:
Lançaram-nos todos à água.
Ah, como os pequenos focinhos chiavam!»
Gottfried Benn in "A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas", selecção e tradução de João Barrento, Relógio D' Água, 2001
quinta-feira, 3 de março de 2011
o homem de quarta-feira #38
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
a temperatura do corpo #5

Tonino Guerra, "Histórias para uma noite de calmaria" Assírio & Alvim, 2002
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
diário dos mesmos pesares #6

Robert Walser, "Jakob van Gunten", Relógio d´Água, 2005
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
sábado, 5 de fevereiro de 2011
a vida não é um sonho #8

- Auschwitz.
Ninguém tinha ouvido falar daquele nome.
O comboio não voltava a partir. O meio-dia passou lentamente. Depois, as portas do vagão deslizaram. Podiam sair dois homens para procurar água.
Quando voltaram, contaram que tinham conseguido saber, em troca de um relógio de ouro, que se tratava do término. Íamos desembarcar. Aqui existia um campo de trabalho. Com boas condições. As famílias não seriam separadas. Somente os jovens iriam trabalhar nas fábricas. Os velhos e os doentes tratariam da terra.
O barómetro da confiança deu um salto. Era a súbita libertação de todos os terrores das noites anteriores. Demos graças a Deus.»
Elie Wiesel, "Noite", Texto Editora, 2003
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Retrato de Família #14
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Imediatamente embora pouco a pouco #9

Quem sou eu para me revirar e jogar isso num papel a caminho de outra gente? Quem sou eu (repito) para ensopar na tinta que sou as coisas que me furam?
Olho, penso, não acho resposta. "Nem que sim nem que não", diz assobiadamente o silêncio de tudo e todos a este respeito.
Encolho-me. Ninguém dá por mim (a própria cigarra que grita terá do que se está a passar uma suspeita leve e breve).
Quite em tudo que não seja o braço, mexidamente direito, e o sangue e o respirar, volto ao papel. O Tempo: é como chuva. E em qualquer sítio uma qualquer porta atrás de que pode estar alguém.»
Nuno Bragança, "A Noite e o Riso", Obra Completa, Dom Quixote, 2009
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Imediatamente embora pouco a pouco
domingo, 23 de janeiro de 2011
espécie de oração particular #7

Vergílio Ferreira, "Alegria Breve", Bertrand, 2004
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Teoria da Conspiração #21 (ou a Parafina do Éden)

Ela descascava a cabeleira loura e atirava-a para o chão. Por debaixo da cabeleira, o seu cabelo verdadeiro era miudinho, como o pêlo de um cordeiro negro tosquiado. Descascava as pestanas postiças e colava-as ao espelho. As pálpebras eram salientes. Pintava-as de azul. Faziam-me sempre pensar numa dessas rainhas egípcias, como as que eu tinha visto na National Geographic. A sua pele brilhava de molhada. Enrolava uma toalha azul à volta do pescoço e depois inclinava-se para a frente, descansando os cotovelos sobre os joelhos. O suor rolava-lhe pela cara abaixo, salpicando o chão vermelho de cimento, entre os seus pés.
Habitualmente acabava o espectáculo com a canção "Jenny The Pirate", de Bertolt Brecht. Cantava sempre esta canção como se se tratasse de uma vingança sua, muito profunda, como se tivesse sido ela própria a autora do poema. A sua actuação era como um tiro, que alvejava, primeiro, a garganta de uma audiência branca. Depois, o coração. Finalmente, a cabeça. Nesses tempos, ela disparava a matar.
A canção do seu espectáculo que realmente me punha fora de mim era "Que bom era ter-te à minha espera". Sempre que a cantava, eu ficava assombrado, hipnotizado. Andava a recolher copos de Whiskey Sour quanto ela atacava aquele piano, que desabava sobre nós, retumbante, com a sua voz fantasmagórica, serpenteando através do amontoado das cordas. Os meus olhos subiam para o palco e por lá ficavam, enquanto as minhas mãos continuavam a trabalhar.
Uma vez, estava ela a cantar essa canção, derrubei uma vela. A cera quente espirrou para cima do fato de um homem de negócios, sujando-o todo. Fui chamado ao escritório do gerente. O homem lá estava, com os salpicos de cera quente espalhados pelas calças abaixo. Parecia que se tinha vindo para cima do fato. Nessa noite, fui despedido.
Lá fora, na rua, ainda podia ouvir a sua voz atravessando as paredes: "Seria o paraíso, ter-te à minha espera".»
Sam Shepard, "Crónicas Americanas", Difel, 2002
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
a vida não é um sonho #7

«Ela falava, falava, falava. Falava pelos cotovelos. Eu sou a dona da casa. E essa empregada gorda só sabia falar, falar, falar. Onde quer que eu estivesse, lá estava ela, chegava e começava a falar. De tudo e de nada, disto e daquilo, para ela tanto fazia. Despedi-la por causa disso? Teria que lhe dar três meses de indeminização. Ainda por cima, seria bem capaz de me rogar uma praga. Até na casa de banho: e para aqui e para acolá, e frito e cozido. Espetei-lhe o garfo na boca para que se calasse. Não morreu por causa disso, mas por já não poder falar: as palavras explodiram no interior.»
Max Aub, "Crimes eXemplares", Antígona, 2001
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
esquece tudo o que te disse #13
«O que acho que está bem é uma pessoa poder ver de certa maneira e outra de uma maneira completamente diferente»
Pina Bausch
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