terça-feira, 2 de novembro de 2010

quero outra noite no fim do dia #2



« - A voz ascende como um membro das suas tramas de sangue.

Desenvolve-se nas noites descentradas»

Herberto Helder

quarta-feira, 9 de junho de 2010

dançar com os pés do acaso #5 (fim)



«Três horas me dão de vida
Estes que à morte me encoltam
E visto ser longa a senda
Insistem no sair cedo...
Ah! Quão curto soa este tempo que me resta:
Quem tanto deve, bem pouco pode pagar.»

Álvarez de Soria

terça-feira, 8 de junho de 2010

segunda-feira, 7 de junho de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

sexta-feira, 4 de junho de 2010

alguém sabe?



©Koreeda,Hirokazu;2004

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Perguntas Abandonadas #9


«- O que é a família?
- É o acto sexual praticado com um cadáver.

- O que é o surrealismo?
- É a morte dos séculos projectando uma sombra muito longa debaixo da água do sonho.

- O que é a loucura?
- É a base de todas as paisagens.

- O que é o sonho?
- É uma chamada obscurecida pelo recalcamento do desejo.

- O que é a pátria?
- É uma coisa sem solução.

- És mulher?
- Sim.
- Porquê?
- Porque é útil.»

Carlos Calvet (1928-)
Mário Henrique Leiria (1923-1980)

quarta-feira, 2 de junho de 2010

o homem de quarta-feira #37


«Mulher honrada não tem ouvidos»

terça-feira, 1 de junho de 2010

dedicatória #9*


* dedicada a todos os Nicolaus.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Chamada a pagar no destinatário #6



«Oh, I could spend my life having this conversation - look - please try to understand before one of us dies»

domingo, 30 de maio de 2010

é meia-noite no fim do céu #6



«Não havia a fazer: as mãos, disso tinha ele a impressão horrivelmente clara, caminhava a grandes passadas pelo caminho do gelo definitivo.
E teve então um clarão de génio!
Deitando mão à espingarda, não hesitou em fazer fogo na noite e a disparar uns atrás de outros, meia dúzia de tiros.
Depois disto, aproximando as mãos insensíveis do cano muito quente da arma, sentiu a circulação a restabelecer-se: estava salvo!»

Alphonse Allais, "O Capitão Cap., Editorial Estampa, 1973

sábado, 29 de maio de 2010

a vida não é um sonho #6



«Hoje, não. Os tempos começam a ser outros.»

Manuel Laranjeira, "Prosas dispersas", Relógio de d'Água, 1990

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Teoria da Conspiração #19 (ou o Universo é composto de histórias, não de átomos)



«Milhões de anos, milhões de barris. Milhões de dólares. É uma espécie de aprofundamento geopolítico da teoria da relatividade: Energia igual a Miséria e Combustão - ao quadrado, digo, à segunda potência. Continua a fascinar-me a forma como a massa sedimentada é engolida num átomo de ignição. O tempo geológico da Terra desaparece, em chama, no carvão do tempo biológico do Homem. A Física pode destruir o futuro num cogumelo, mas a Geologia e a Química oferecem, numa chaminé azul, o que ainda resta do passado. Passado é o que sobra da acumulação. Não me seguro de fascínio por esta ciência do esbanjamento. E é verdade que resta cada vez menos.»

Pedro Rosa Mendes, "Lenin Oil", Publicações Dom Quixote, 2006.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

diário dos mesmos pesares #5



«A Indústria da Poesia
New Parthenon, 27 de Maio.

Renunciei, há muito, a todas as minhas direcções e participações industriais para comprar a coisa mais cara do Mundo - no sentido económico e moral: a liberdade. Um luxo que não está hoje ao alcance nem mesmo de um simples milionário. Suponho que sou um dos cinco ou seis homens quase livres que vivem na Terra.
Mas, quando alguém se entregou ao vício dos negócios durante tantos anos, é quase impossível conseguir que este não torne a recrudescer. No passado, veio-me o desejo de criar uma pequena indústria, a fim de poder subtrair-me às grandes e pesadas. Queria que fosse absolutamente nova e que não exigisse grande capital.
Ocorreu-me, então, a poesia. Esta espécie de ópio verbal, ministrado em pequenas doses de linhas numeradas, não é, certamente, género de primeira necessidade, mas a verdade é que alguns homens não podem prescindir dele. Ninguém pensou, todavia, a organizar de um modo racional a fabricação de versos. Isso tem sido deixado, sempre, ao capricho da anarquia pessoal. A razão desta negligência reside, provavelmente, no facto de , embora florescente, uma indústria, poética deve dar lucros bastantes modestos, já pela dificuldade - não digo impossibilidade - de adoptar máquinas, já pela escassez de consumo de produtos.
Para mim, não se tratava da questão de dinheiro, mas de curiosidade.»

Giovanni Papini, "Gog", Livros do Brasil, 1988

quarta-feira, 26 de maio de 2010

terça-feira, 25 de maio de 2010

alegações finais #5



«É rumo à liberdade, rumo à liberdade, o mundo velho tem de ruir, acorda, brisa da manhã.
E é marcar passo e esquerdo direito, esquerdo direito, marchar, marchar, pr'á guerra vamos, cem músicos connosco levamos, com pífaros e tambores, rataplão-plão-plão, direitinhos andam uns, outros entortarão, firme s'aguentam uns, outros caem ao chão, em frente correm alguns, mudos outros se quedarão, rataplão-plão-plão.»

Alfred Döblin, "Berlim Alexanderplatz", Publicações Dom Quixote, 1992

domingo, 23 de maio de 2010

a poesia não me interessa #21



O Tempo Aprazado

Vêm aí dias difíceis.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.

Do outro lado enterra-se-te a amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe o silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.

Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe so cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!

Vêm aí tempos difíceis.

Ingeborg Bachmann, "O Tempo Aprazado", Assírio & Alvim, 1993