quarta-feira, 26 de maio de 2010

terça-feira, 25 de maio de 2010

alegações finais #5



«É rumo à liberdade, rumo à liberdade, o mundo velho tem de ruir, acorda, brisa da manhã.
E é marcar passo e esquerdo direito, esquerdo direito, marchar, marchar, pr'á guerra vamos, cem músicos connosco levamos, com pífaros e tambores, rataplão-plão-plão, direitinhos andam uns, outros entortarão, firme s'aguentam uns, outros caem ao chão, em frente correm alguns, mudos outros se quedarão, rataplão-plão-plão.»

Alfred Döblin, "Berlim Alexanderplatz", Publicações Dom Quixote, 1992

domingo, 23 de maio de 2010

a poesia não me interessa #21



O Tempo Aprazado

Vêm aí dias difíceis.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.

Do outro lado enterra-se-te a amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe o silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.

Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe so cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!

Vêm aí tempos difíceis.

Ingeborg Bachmann, "O Tempo Aprazado", Assírio & Alvim, 1993

sexta-feira, 21 de maio de 2010

o Mal-estar da Civilização #18



«Somos suficientemente religiosos para nos odiarmos, mas não o suficiente para nos amarmos uns aos outros.»

Jonathan Swift, "Pensamentos", Editora Licorne, 2010

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Imediatamente embora pouco a pouco #8



«Não digas muitas vezes que tens razão, professor!
Deixa que o aluno o reconheça.
Não puxes de mais pela verdade:
Ela não aguenta.
Ouve quando falas!»

Bertolt Brecht (1898-1956)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

o homem de quarta-feira #35



«Quando alcançámos o solo, virou-se para mim, enquanto eu ainda o segurava por trás, de modo que ficámos peito contra peito.
- Deixe-me! - disse ele. - Eu não sei quais são as suspeitas que tem contra mim, mas eu estou inocente. - Repetiu: - Claro que eu não sei do que suspeita de mim.
- Aqui não se trata de suspeitar de alguém ou de ser inocente. Peço-lhe que não diga isso outra vez. Somos estranhos; o nosso conhecimento é tão velho como os degraus da igreja são altos. O que aconteceria se começássemos imediatamente a discutir a nossa inocência?
- É exactamente o que eu penso, - disse ele - Já agora o senhor disse "A nossa inocência". Por acaso está a sugerir que se eu tivesse provado a minha inocência, também teria de provar a sua? É isso que quer dizer?»

Franz Kafka, "Descrição de uma Luta", Coisas de Ler, 2004

terça-feira, 18 de maio de 2010

ligação directa #2



Aura Miguel Bombarda

Terapia Celestial

segunda-feira, 17 de maio de 2010

espécie de oração particular #6



«Permitindo-se hoje, não sei por que erro, o acesso ao microfone de um poeta que já foi um desses tais, quero voltar a afirmar a minha ternura pelos jovens tipos sem piedade. Não tenho ilusões nenhumas. Falo para o vazio e no escuro, mas mesmo que o tenha feito só para mim, quero insultar uma vez mais os que insultam.»

Jean Genet, "A Criança Criminosa", hiena editora, 1988

domingo, 16 de maio de 2010

subir na vida



©Weir,Peter;1998

sábado, 15 de maio de 2010

Teoria da Conspiração #18 (ou a Solidão mais longe possível)



«Nem há um só instante que seja meu, e querem que eu saiba para onde me hei-de virar. Ah sei muito bem para onde me viraria, se a cabeça me obedecesse. Se querem que eu pareça preocupar-me com o que estou a fazer, só têm de repetir, se é que o disseram alguma vez. Repetir o tom, os termos, para eu pensar que são da minha lavra. Sempre os mesmos truques, desde que meteram na cabeça que a minha existência é só uma questão de tempo. Acho que tenho falhas de memória, que há frases inteiras que saltam, não, inteiras não. Talvez não tenha conseguido descobrir a chave do enigma da história. Mesmo que não o tivesse compreendido, tê-lo-ia revelado, é o que me pedem, e isso ter-me-ia sido tido em conta, aquando do meu próximo julgamento, sim, sim, de vez em quando julgam-me, são pessoas sérias. Um dia, talvez venha a saber, a dizer o que fiz de mal.»

Samuel Beckett, "O Inominável", Assírio & Alvim, 2002

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Orelhas de Elefante #15

Porque há musicas de outras dimensões.
Bernardo Sassetti Trio - "Motion", Clean Feed, 2010


«Portanto se vai ser uma viagem que essa viagem seja longa
uma viagem verdadeira da qual não se regressa
repetição do mundo original
um diálogo com a natureza uma pergunta sem resposta
um pacto forçado após uma batalha
grande expiação»

Zbigniew Herbert

quinta-feira, 13 de maio de 2010

o combate com o demónio #1


Séraphine Louis (1864–1942)

«Os anjos são de luar, como de sol os demónios. O sol, encarnando, escurece. A raça negra...»

Teixeira de Pascoaes

quarta-feira, 12 de maio de 2010

o homem de quarta-feira #34



«Só existe um destino, nenhum caminho. Aquilo a que chamamos caminho é hesitação.»

Franz Kafka, "Parábolas e Fragmentos", Assírio & Alvim, 2004

segunda-feira, 10 de maio de 2010

alegações finais #4



«Neste momento, e no limite da noite, soaram apitos. Anunciavam possivelmente partidas para um mundo que me era para sempre indiferente. Pela primeira vez, há muito tempo, pensei na minha mãe. Julguei ter compreendido porque é que, no fim de uma vida, arranjara um "noivo", porque é que fingira recomeçar. Também lá, em redor desse asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma treva melancólica. Tão perto da morte, a minha mãe deve ter se sentido libertada e pronta a tudo reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar por ela. Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por o sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público na hora de minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio.»

Albert Camus, "O Estrangeiro", Livros do Brasil, 1999

domingo, 9 de maio de 2010

dedicatória #8*


* dedicada a todos os que não estão na fotografia.

sábado, 8 de maio de 2010

a temperatura do corpo #3




«Invejo os poetas. Que maravilhoso deve ser encher uma página e, da página, onde apenas uma sombra continua a correr, levantar voo para o azul do céu. A imundície, a sujeira duma execução, de todas as manipulações, antes e depois. Como é fria a lâmina, como é liso o cabo do machado. Na pedra de amolar. Suponho que a dor da separação será vermelha e sonora. O pensamento, uma vez escrito, torna-se menos opressivo, mas alguns pensamento são como um tumor canceroso: espreme-se, remove-se e volta a crescer pior do que antes.»

Vladimir Nabokov, "Convite Para Uma Decapitação", Assírio & Alvim, 2006

sexta-feira, 7 de maio de 2010

a poesia não me interessa #20



A CEIA MISERÁVEL

Até quando estaremos nós à espera do
que nos é devido... E em que curva estenderemos
nossos pobres joelhos para sempre! Até quando
a cruz que nos anima não deterá seus remos.

Até quando a Dúvida nos oferecerá brasões
por ter sofrido... Já nos termos sentado
muito à mesa, com a amargura de um menino
que a meio da noite chora, insone, esfomeado...

E quando nos veremos com os outros, à beira
de uma manhã eterna, ninguém já em jejum.
Até quando este vale de lágrimas, para onde
nunca pedi que me trouxessem.

Cotovelos
firmes, banhando em pranto, repito cabisbaixo
e vencido: até quando a ceia durará.

Há alguém que bebeu muito e está a zombar
e se abeira e afasta de nós - como negra colher
de amarga essência humana - o túmulo...
E menos sabe
esse obscuro até quando a ceia durará!

César Vallejo, "Antologia Poética", Relógio D'Água, 1992