segunda-feira, 10 de maio de 2010

alegações finais #4



«Neste momento, e no limite da noite, soaram apitos. Anunciavam possivelmente partidas para um mundo que me era para sempre indiferente. Pela primeira vez, há muito tempo, pensei na minha mãe. Julguei ter compreendido porque é que, no fim de uma vida, arranjara um "noivo", porque é que fingira recomeçar. Também lá, em redor desse asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma treva melancólica. Tão perto da morte, a minha mãe deve ter se sentido libertada e pronta a tudo reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar por ela. Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por o sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público na hora de minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio.»

Albert Camus, "O Estrangeiro", Livros do Brasil, 1999

domingo, 9 de maio de 2010

dedicatória #8*


* dedicada a todos os que não estão na fotografia.

sábado, 8 de maio de 2010

a temperatura do corpo #3




«Invejo os poetas. Que maravilhoso deve ser encher uma página e, da página, onde apenas uma sombra continua a correr, levantar voo para o azul do céu. A imundície, a sujeira duma execução, de todas as manipulações, antes e depois. Como é fria a lâmina, como é liso o cabo do machado. Na pedra de amolar. Suponho que a dor da separação será vermelha e sonora. O pensamento, uma vez escrito, torna-se menos opressivo, mas alguns pensamento são como um tumor canceroso: espreme-se, remove-se e volta a crescer pior do que antes.»

Vladimir Nabokov, "Convite Para Uma Decapitação", Assírio & Alvim, 2006

sexta-feira, 7 de maio de 2010

a poesia não me interessa #20



A CEIA MISERÁVEL

Até quando estaremos nós à espera do
que nos é devido... E em que curva estenderemos
nossos pobres joelhos para sempre! Até quando
a cruz que nos anima não deterá seus remos.

Até quando a Dúvida nos oferecerá brasões
por ter sofrido... Já nos termos sentado
muito à mesa, com a amargura de um menino
que a meio da noite chora, insone, esfomeado...

E quando nos veremos com os outros, à beira
de uma manhã eterna, ninguém já em jejum.
Até quando este vale de lágrimas, para onde
nunca pedi que me trouxessem.

Cotovelos
firmes, banhando em pranto, repito cabisbaixo
e vencido: até quando a ceia durará.

Há alguém que bebeu muito e está a zombar
e se abeira e afasta de nós - como negra colher
de amarga essência humana - o túmulo...
E menos sabe
esse obscuro até quando a ceia durará!

César Vallejo, "Antologia Poética", Relógio D'Água, 1992

quinta-feira, 6 de maio de 2010

quarta-feira, 5 de maio de 2010

terça-feira, 4 de maio de 2010

o Mal-estar da Civilização #17



«Grande é a angústia do homem que toma consciência da sua solidão e se evade da sua própria memória; vencido e banido, é repelido para a mais profunda angústia da criatura, a angústia daquele que sofre e comete a violência; repelido numa solidão de uma força implacável, a sua fuga, o seu desespero, a sua triste estupidez, podem assumir proporções tais que seja necessariamente conduzido a pensar em pôr fim aos seus dias para escapar à lei de pedra do acontecimento.»

Hermann Broch, "Os Sonâmbulos, Vol. III - Huguenau ou o Realismo", Edições 70, 1989

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Teoria da Conspiração #17 (ou a Importância da Surpresa no Ataque)



«"Senhor Hemingway, o tema ou a trama ou um personagem mudam à medida que se escreve?" "Às vezes sabe-se a história", disse cobrindo a cara como se estivesse a jogar boxe, "e outras vezes inventa-se essa história à medida que se escreve e não se faz a menor ideia como as coisas vão ser. Na realidade tudo muda à medida que se move. É isso que produz o movimento que produz a história. Algumas vezes o movimento é tão lento que parece que não se está a mover. Mas há sempre mudança e há sempre movimento."»

Enrique Vila-Matas, "Paris Nunca se Acaba", Editorial Teorema, 2005

domingo, 2 de maio de 2010

chamada a pagar no destinatário #5


«The big advantage of a book is it's very easy to rewind. Close it and you're right back at the beginning.»

sábado, 1 de maio de 2010

electrocardioTrama #7 (ou a actividade natural da seiva)



«Não me proponho escrever uma ode ao desânimo, mas a gargantear com o vigor de um galo matutino empoleirado no poleiro, nem que seja apenas para acordar os vizinhos.»

sexta-feira, 30 de abril de 2010

a vida não é um sonho #5



«Dirigida pela lógica da teatralidade, a moda é um sistema inseparável do excesso, da desmedida, do exagero. O destino da moda é ser inexoravelmente arrastada numa escalada de sobrecargas, exageros de volume e amplificações da forma que desdenham do ridículo.»

Gilles Lipovetsky, "O Império do Efémero", Dom Quixote, 1992

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Momento Pergaminho #5



«Certos espíritos habitam os corpos humanos, outros o corpo de outros animais, plantas, pedras, minerais: em suma, nada existe que esteja privado de espírito, de inteligência - nem o espírito destinou para si morada eterna em lugar algum. A matéria flutua de espírito em espírito, de natureza em natureza ou composição, e o espírito flutua de matéria em matéria. Sucedem-se a alteração, a mutação, a paixão e, por fim, a corrupção, quer dizer, a separação de determinadas partículas e sua composição com outras. A morte mais não é que dissolução. Nenhum espírito ou corpo desaparece: há somente uma contínua mutação de combinações e actualizações.»

Giordano Bruno, "Tratado da Magia", Tinta da China, 2007

quarta-feira, 28 de abril de 2010

o homem de quarta-feira #32



«Quem se habituou a copiar palavras alheias não ignora que a escolha nasce de uma decisão súbita, de imediato - e tantas vezes durante quanto? - injustificável. É como uma chave que um dia há-de abrir alguma porta.»

Maria Filomena Molder, "A Imperfeição da Filosofia", Relógio D'Água, 2003

terça-feira, 27 de abril de 2010

a poesia não me interessa #19



«A noite é dupla: uma astenia indirecta e directa. A primeira resulta por encadeamento, por excesso de luz; a segunda por falta ou insuficiência de luz. Do mesmo modo, existe também uma inconsciência por falta de excitação interior e uma inconsciência por excesso de excitação interior - naquela um orgão demasiado rude, nesta um orgão demasiado delicado. Compensaremos uma, diminuindo a luz ou excitação interior; compensaremos a outra, aumentando-a através da multiplicação da mesma, ou através do enfraquecimento e fortalecimento do orgão. A noite e inconsciência por carência é o caso mais comum. A inconsciência por excesso é o que chamamos loucura. Uma direcção diferente da excessiva excitação interior modifica a loucura.»

Novalis, "Fragmentos de Novalis", Assírio & Alvim, 2000

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Toda a humilhação leva à morte #10



«És um ocioso, um sonâmbulo, um indolente. As definições variam conforme as horas, os dias, mas o sentido permanece mais o menos claro: sentes-te pouco disposto a viver, a agir, a modificar; queres apenas esperar e esquecer.»

Georges Perec, "Um Homem que Dorme", Editorial Presença, 1991

sábado, 24 de abril de 2010

Imediatamente embora pouco a pouco #7



«De uma maneira geral, as pessoas acreditam que o interesse e a novidade do conteúdo levam a que o tempo "passe", isto é, abreviam a passagem do tempo, ao passo que a monotonia e o vazio contribuiriam para obstruir ou refrear essa mesma passagem. Tal convicção não é necessariamente correcta. O vazio e a monotonia podem porventura alongar o momento e a hora, tornando-os mais fastidiosos, mas abreviam, por outro lado, os enormes e incomensuráveis períodos de tempo, dissipando-os até ao nada. Um conteúdo rico e interessante pode, em contrapartida, abreviar e acelerar a hora e até mesmo o dia, conferindo, no entanto, e em termos absolutos, amplitude, peso e solidez à marcha do tempo.»

Thomas Mann, "A Montanha Mágica", Publicações Dom Quixote, 2009

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Teoria da Conspiração #16 (ou o Teste de ginástica ocular)



«Se me perguntas o que eu vi, talvez seja capaz de fazer um esboço, que o represente; mas se me perguntas que percurso fez o meu olhar, na maioria dos casos, serei de todo incapaz de me recordar.»

Ludwig Wittgenstein, "Tratado Lógico-Filosófico. Investigações Filosóficas", Fundação Calouste Gulbenkian, 1995

quinta-feira, 22 de abril de 2010