quinta-feira, 29 de abril de 2010

Momento Pergaminho #5



«Certos espíritos habitam os corpos humanos, outros o corpo de outros animais, plantas, pedras, minerais: em suma, nada existe que esteja privado de espírito, de inteligência - nem o espírito destinou para si morada eterna em lugar algum. A matéria flutua de espírito em espírito, de natureza em natureza ou composição, e o espírito flutua de matéria em matéria. Sucedem-se a alteração, a mutação, a paixão e, por fim, a corrupção, quer dizer, a separação de determinadas partículas e sua composição com outras. A morte mais não é que dissolução. Nenhum espírito ou corpo desaparece: há somente uma contínua mutação de combinações e actualizações.»

Giordano Bruno, "Tratado da Magia", Tinta da China, 2007

quarta-feira, 28 de abril de 2010

o homem de quarta-feira #32



«Quem se habituou a copiar palavras alheias não ignora que a escolha nasce de uma decisão súbita, de imediato - e tantas vezes durante quanto? - injustificável. É como uma chave que um dia há-de abrir alguma porta.»

Maria Filomena Molder, "A Imperfeição da Filosofia", Relógio D'Água, 2003

terça-feira, 27 de abril de 2010

a poesia não me interessa #19



«A noite é dupla: uma astenia indirecta e directa. A primeira resulta por encadeamento, por excesso de luz; a segunda por falta ou insuficiência de luz. Do mesmo modo, existe também uma inconsciência por falta de excitação interior e uma inconsciência por excesso de excitação interior - naquela um orgão demasiado rude, nesta um orgão demasiado delicado. Compensaremos uma, diminuindo a luz ou excitação interior; compensaremos a outra, aumentando-a através da multiplicação da mesma, ou através do enfraquecimento e fortalecimento do orgão. A noite e inconsciência por carência é o caso mais comum. A inconsciência por excesso é o que chamamos loucura. Uma direcção diferente da excessiva excitação interior modifica a loucura.»

Novalis, "Fragmentos de Novalis", Assírio & Alvim, 2000

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Toda a humilhação leva à morte #10



«És um ocioso, um sonâmbulo, um indolente. As definições variam conforme as horas, os dias, mas o sentido permanece mais o menos claro: sentes-te pouco disposto a viver, a agir, a modificar; queres apenas esperar e esquecer.»

Georges Perec, "Um Homem que Dorme", Editorial Presença, 1991

sábado, 24 de abril de 2010

Imediatamente embora pouco a pouco #7



«De uma maneira geral, as pessoas acreditam que o interesse e a novidade do conteúdo levam a que o tempo "passe", isto é, abreviam a passagem do tempo, ao passo que a monotonia e o vazio contribuiriam para obstruir ou refrear essa mesma passagem. Tal convicção não é necessariamente correcta. O vazio e a monotonia podem porventura alongar o momento e a hora, tornando-os mais fastidiosos, mas abreviam, por outro lado, os enormes e incomensuráveis períodos de tempo, dissipando-os até ao nada. Um conteúdo rico e interessante pode, em contrapartida, abreviar e acelerar a hora e até mesmo o dia, conferindo, no entanto, e em termos absolutos, amplitude, peso e solidez à marcha do tempo.»

Thomas Mann, "A Montanha Mágica", Publicações Dom Quixote, 2009

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Teoria da Conspiração #16 (ou o Teste de ginástica ocular)



«Se me perguntas o que eu vi, talvez seja capaz de fazer um esboço, que o represente; mas se me perguntas que percurso fez o meu olhar, na maioria dos casos, serei de todo incapaz de me recordar.»

Ludwig Wittgenstein, "Tratado Lógico-Filosófico. Investigações Filosóficas", Fundação Calouste Gulbenkian, 1995

quinta-feira, 22 de abril de 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

o homem de quarta-feira #31



«Assim que apanhei o Tom a sós, perguntei-lhe qual era a ideia, na altura da evasão - o que é que contava fazer se a evasão tivesse ocorrido como deve ser e se tivéssemos conseguido libertar um preto que já era livre? Ele disse aquilo que tinha planeado desde o princípio era que se conseguíssemos tirar o Jim dali ileso, íamos descer o rio com ele, sempre a ter aventuras até chegarmos à foz; depois contávamos-lhe que ele era livre e trazíamo-lo de volta para cima num vapor, em grande estilo, pagávamos-lhe pelo tempo que tinha perdido; escrevíamos uma carta antes de chegar, para reunir os pretos todos e entrávamos com ele na cidade a dançar com uma procissão de candeias e uma banda e então ele seria um herói, e nós também.»

Mark Twain, "As Aventuras de Huckleberry Finn", Relógio D'Água, 2009

terça-feira, 20 de abril de 2010

Orelhas de Elefante #14



Scout Niblett, "The Calcination of Scout Niblett", Drag City, 2010

Porque há musicas de outras dimensões.

«As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra»

António Ramos Rosa

segunda-feira, 19 de abril de 2010

alegações finais #3



«- Todos os sucessos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; porque enfim, se vós não tivésseis sido expulso de um belo castelo com grandes pontapés no traseiro por amor da menina Cunegundes, se vós não tivésseis passado pela Inquisição, se vós não percorrêsseis a América a pé, se vós não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se vós não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do maravilhoso Eldorado, vós não estaríeis aqui a comer os limões, doces e pistácios.
- Tudo isso é muito bonito - respondeu Cândido - mas é preciso cultivar a nossa horta.»

Voltaire, "Cândido", Guimarães Editores, 1999

domingo, 18 de abril de 2010

diário dos mesmos pesares #4



«Entra pela janela aberta o rumor da avenida. E do parque entre os prédios, um músico ambulante toca o seu saxofone. É um som volumoso, oco, tem nos finais vibrações melodiosas. É uma música nostálgica, de uma lentidão genesíaca. E a toada sobe por entre o rumor do tráfego. E paira ao alto como uma estrela.»

Vergílio Ferreira, "Pensar"‎, Bertrand Editora, 1992

sábado, 17 de abril de 2010

ondas de paixão



©Gondry,Michel;2004

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Perguntas Abandonadas #7


«Se admito a malícia, por que hei-de afastar a distracção, a causalidade?»

Adolfo Bioy Casares (1914-1999)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

a poesia não me interessa #18



Em cada mesa dois. Mulheres e homens entre-
cruzados. Sem tormento. E próximos e nus.
O peito esquartejado. O crânio aberto. O ventre
pela última vez agora a dar à luz.

Do cérebro aos testículos, cada um três malgas rentes.
E o templo de Deus e o estábulo infernal
agora peito a peito no chão da cuba, os dentes
a arreganhar prò Gólgota e a queda original.

O resto nos caixões. Tantos recém-nascidos:
cabelos de mulher, um peito de miúdo,
pernas de homem. De dois amantes prostituídos,
qual vindo de um só ventre, vi que ali estava tudo.

Gottfried Benn, "50 Poemas", Relógio D'Água, 1998

quarta-feira, 14 de abril de 2010

dedicatória #7*

* dedicada a todos os que acreditam que a literatura cura.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Teoria da Conspiração #15 (ou a Saída em caso de exigência)



«Agora a claridade. Detesto a claridade. Aí vem ela. É preciso baixar-me. A claridade convida a sair. É melhor esperar. Ignorar. Fechar os olhos. Assim, isso. Os olhos fechados. Não serei apanhado pela luz. Mas mesmo assim. Sinto uma intensidade. Doí-me. A luz doí-me. Se vês dói. Se não vês também. É uma armadilha. A luz é uma armadilha.»

Gonçalo M. Tavares, "A Colher de Samuel Beckett e outros textos", Campo das Letras, 2002

Nota: caso esteja interessado em saber a proveniência da imagem, guarde a mesma no seu computador mantendo o nome que eu lhe atribuí.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

explicando melhor #2



- Se eu fosse um fama dir-lhe-ia: Regina Pessoa é a autora do desenho. Deve indicar o nome dos autores das imagens que publica, salvo sejam anónimas. Tenha juízo, homem!!!! Mas como sou um cronopio, limito-me a dizer que a imagem faz parte da brilhante obra de animação "História Trágica Com Final Feliz", de Regina Pessoa. Não lho digo a si, que talvez já o saiba, mas a todos os que lêem o blog, para que tenham a oportunidade de a ver (no Youtube) - disse Cronopio.

- Um cronópio ultrapassa o medo de se aproximar demasiado. - disse com esperança o Irmão Karamazov.

domingo, 11 de abril de 2010

alegações finais #2



«Pelo verbo, pela imagem, pelo acto, todas estas abençoadas almas que me fizeram companhia testemunharam a eterna realidade da visão. Será nosso, um dia, o seu mundo quotidiano. De facto já é nosso - simplesmente, estamos demasiado empobrecidos para lhe reivindicar a propriedade.»

Henry Miller, "O Sorriso aos Pés da Escada", Edições Asa, 2000

sábado, 10 de abril de 2010