sábado, 24 de abril de 2010

Imediatamente embora pouco a pouco #7



«De uma maneira geral, as pessoas acreditam que o interesse e a novidade do conteúdo levam a que o tempo "passe", isto é, abreviam a passagem do tempo, ao passo que a monotonia e o vazio contribuiriam para obstruir ou refrear essa mesma passagem. Tal convicção não é necessariamente correcta. O vazio e a monotonia podem porventura alongar o momento e a hora, tornando-os mais fastidiosos, mas abreviam, por outro lado, os enormes e incomensuráveis períodos de tempo, dissipando-os até ao nada. Um conteúdo rico e interessante pode, em contrapartida, abreviar e acelerar a hora e até mesmo o dia, conferindo, no entanto, e em termos absolutos, amplitude, peso e solidez à marcha do tempo.»

Thomas Mann, "A Montanha Mágica", Publicações Dom Quixote, 2009

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Teoria da Conspiração #16 (ou o Teste de ginástica ocular)



«Se me perguntas o que eu vi, talvez seja capaz de fazer um esboço, que o represente; mas se me perguntas que percurso fez o meu olhar, na maioria dos casos, serei de todo incapaz de me recordar.»

Ludwig Wittgenstein, "Tratado Lógico-Filosófico. Investigações Filosóficas", Fundação Calouste Gulbenkian, 1995

quinta-feira, 22 de abril de 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

o homem de quarta-feira #31



«Assim que apanhei o Tom a sós, perguntei-lhe qual era a ideia, na altura da evasão - o que é que contava fazer se a evasão tivesse ocorrido como deve ser e se tivéssemos conseguido libertar um preto que já era livre? Ele disse aquilo que tinha planeado desde o princípio era que se conseguíssemos tirar o Jim dali ileso, íamos descer o rio com ele, sempre a ter aventuras até chegarmos à foz; depois contávamos-lhe que ele era livre e trazíamo-lo de volta para cima num vapor, em grande estilo, pagávamos-lhe pelo tempo que tinha perdido; escrevíamos uma carta antes de chegar, para reunir os pretos todos e entrávamos com ele na cidade a dançar com uma procissão de candeias e uma banda e então ele seria um herói, e nós também.»

Mark Twain, "As Aventuras de Huckleberry Finn", Relógio D'Água, 2009

terça-feira, 20 de abril de 2010

Orelhas de Elefante #14



Scout Niblett, "The Calcination of Scout Niblett", Drag City, 2010

Porque há musicas de outras dimensões.

«As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra»

António Ramos Rosa

segunda-feira, 19 de abril de 2010

alegações finais #3



«- Todos os sucessos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; porque enfim, se vós não tivésseis sido expulso de um belo castelo com grandes pontapés no traseiro por amor da menina Cunegundes, se vós não tivésseis passado pela Inquisição, se vós não percorrêsseis a América a pé, se vós não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se vós não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do maravilhoso Eldorado, vós não estaríeis aqui a comer os limões, doces e pistácios.
- Tudo isso é muito bonito - respondeu Cândido - mas é preciso cultivar a nossa horta.»

Voltaire, "Cândido", Guimarães Editores, 1999

domingo, 18 de abril de 2010

diário dos mesmos pesares #4



«Entra pela janela aberta o rumor da avenida. E do parque entre os prédios, um músico ambulante toca o seu saxofone. É um som volumoso, oco, tem nos finais vibrações melodiosas. É uma música nostálgica, de uma lentidão genesíaca. E a toada sobe por entre o rumor do tráfego. E paira ao alto como uma estrela.»

Vergílio Ferreira, "Pensar"‎, Bertrand Editora, 1992

sábado, 17 de abril de 2010

ondas de paixão



©Gondry,Michel;2004

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Perguntas Abandonadas #7


«Se admito a malícia, por que hei-de afastar a distracção, a causalidade?»

Adolfo Bioy Casares (1914-1999)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

a poesia não me interessa #18



Em cada mesa dois. Mulheres e homens entre-
cruzados. Sem tormento. E próximos e nus.
O peito esquartejado. O crânio aberto. O ventre
pela última vez agora a dar à luz.

Do cérebro aos testículos, cada um três malgas rentes.
E o templo de Deus e o estábulo infernal
agora peito a peito no chão da cuba, os dentes
a arreganhar prò Gólgota e a queda original.

O resto nos caixões. Tantos recém-nascidos:
cabelos de mulher, um peito de miúdo,
pernas de homem. De dois amantes prostituídos,
qual vindo de um só ventre, vi que ali estava tudo.

Gottfried Benn, "50 Poemas", Relógio D'Água, 1998

quarta-feira, 14 de abril de 2010

dedicatória #7*

* dedicada a todos os que acreditam que a literatura cura.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Teoria da Conspiração #15 (ou a Saída em caso de exigência)



«Agora a claridade. Detesto a claridade. Aí vem ela. É preciso baixar-me. A claridade convida a sair. É melhor esperar. Ignorar. Fechar os olhos. Assim, isso. Os olhos fechados. Não serei apanhado pela luz. Mas mesmo assim. Sinto uma intensidade. Doí-me. A luz doí-me. Se vês dói. Se não vês também. É uma armadilha. A luz é uma armadilha.»

Gonçalo M. Tavares, "A Colher de Samuel Beckett e outros textos", Campo das Letras, 2002

Nota: caso esteja interessado em saber a proveniência da imagem, guarde a mesma no seu computador mantendo o nome que eu lhe atribuí.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

explicando melhor #2



- Se eu fosse um fama dir-lhe-ia: Regina Pessoa é a autora do desenho. Deve indicar o nome dos autores das imagens que publica, salvo sejam anónimas. Tenha juízo, homem!!!! Mas como sou um cronopio, limito-me a dizer que a imagem faz parte da brilhante obra de animação "História Trágica Com Final Feliz", de Regina Pessoa. Não lho digo a si, que talvez já o saiba, mas a todos os que lêem o blog, para que tenham a oportunidade de a ver (no Youtube) - disse Cronopio.

- Um cronópio ultrapassa o medo de se aproximar demasiado. - disse com esperança o Irmão Karamazov.

domingo, 11 de abril de 2010

alegações finais #2



«Pelo verbo, pela imagem, pelo acto, todas estas abençoadas almas que me fizeram companhia testemunharam a eterna realidade da visão. Será nosso, um dia, o seu mundo quotidiano. De facto já é nosso - simplesmente, estamos demasiado empobrecidos para lhe reivindicar a propriedade.»

Henry Miller, "O Sorriso aos Pés da Escada", Edições Asa, 2000

sábado, 10 de abril de 2010

sexta-feira, 9 de abril de 2010

espécie de oração particular #5



«Estranha é a coragem
que me dás, estrela antiga:

Brilha sozinha na aurora
para a qual nada representas!»

William Carlos Williams, "Antologia Breve", Assírio & Alvim, 1995

quinta-feira, 8 de abril de 2010

o Mal-estar da Civilização #16



«Não quero rebaixar o meu pai, mas tenho de te confessar que uma vida como a sua me daria a morte se tivesse de a viver. Que é que tu julgas que significa viver, para ele? Nada mais que levantar-se de manhã, ler o jornal, tomar uma chávena de café, ir para a oficina, consertar uma mesa, voltar para casa, jantar, dormitar, escutar a telefonia, ir ao w.c., contar uma história, das porcas de preferencia, sair, ir ao cinema, ir para a cama ou para o café, ver um filme, despir uma mulher ou beber uma cerveja, voltar para casa despir-se, ressonar, acordar, tomar uma chavena de café, ler o jornal e ir para o trabalho. O pior ainda não é ele supor que viver seja isto, o pior numa vida destas é ele sentir-se satisfeito.»

Stig Dagerman, "O Vestido Vermelho", Antígona, 1989

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Imediatamente embora pouco a pouco #6



«Adiante, adiante! Vagabundos que encontrava pelas planícies diziam-me que a fronteira não era longe. Eu exortava os meus homens a não pararem, apagava os tons de desalento que se formavam nos seus lábios. Tinham já passado quatro anos desde que eu partira; que longa canseira. A capital, a minha casa, o meu pai tinham-se tornado estranhamente remotos, quase como se não existissem. Vinte meses de silêncio e solidão decorriam agora entre uma aparição e outra dos mensageiros. Traziam-me curiosas cartas amarelecidas pelo tempo, e nelas encontrava nomes esquecidos, modos de dizer que me eram estranhos, sentimentos que não conseguia compreender. Na manhã seguinte, após uma única noite de repouso, enquanto nós retomávamos o caminho, o mensageiro partia na direcção oposta, levando para a cidade as cartas que eu já tinha preparadas havia muito tempo.»

Dino Buzzati, "Os Sete Mensageiros", Cavalo de Ferro, 2005

terça-feira, 6 de abril de 2010

Retrato de Família #13




Clarice L. Karamazov (1920-1977)

«Eu tinha medo da face de Deus, tinha medo de minha nudez final na parede. A beleza, aquela nova ausência de beleza que nada tinha daquilo que eu antes costumava chamar de beleza, me horrorizava.»