sábado, 10 de abril de 2010

sexta-feira, 9 de abril de 2010

espécie de oração particular #5



«Estranha é a coragem
que me dás, estrela antiga:

Brilha sozinha na aurora
para a qual nada representas!»

William Carlos Williams, "Antologia Breve", Assírio & Alvim, 1995

quinta-feira, 8 de abril de 2010

o Mal-estar da Civilização #16



«Não quero rebaixar o meu pai, mas tenho de te confessar que uma vida como a sua me daria a morte se tivesse de a viver. Que é que tu julgas que significa viver, para ele? Nada mais que levantar-se de manhã, ler o jornal, tomar uma chávena de café, ir para a oficina, consertar uma mesa, voltar para casa, jantar, dormitar, escutar a telefonia, ir ao w.c., contar uma história, das porcas de preferencia, sair, ir ao cinema, ir para a cama ou para o café, ver um filme, despir uma mulher ou beber uma cerveja, voltar para casa despir-se, ressonar, acordar, tomar uma chavena de café, ler o jornal e ir para o trabalho. O pior ainda não é ele supor que viver seja isto, o pior numa vida destas é ele sentir-se satisfeito.»

Stig Dagerman, "O Vestido Vermelho", Antígona, 1989

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Imediatamente embora pouco a pouco #6



«Adiante, adiante! Vagabundos que encontrava pelas planícies diziam-me que a fronteira não era longe. Eu exortava os meus homens a não pararem, apagava os tons de desalento que se formavam nos seus lábios. Tinham já passado quatro anos desde que eu partira; que longa canseira. A capital, a minha casa, o meu pai tinham-se tornado estranhamente remotos, quase como se não existissem. Vinte meses de silêncio e solidão decorriam agora entre uma aparição e outra dos mensageiros. Traziam-me curiosas cartas amarelecidas pelo tempo, e nelas encontrava nomes esquecidos, modos de dizer que me eram estranhos, sentimentos que não conseguia compreender. Na manhã seguinte, após uma única noite de repouso, enquanto nós retomávamos o caminho, o mensageiro partia na direcção oposta, levando para a cidade as cartas que eu já tinha preparadas havia muito tempo.»

Dino Buzzati, "Os Sete Mensageiros", Cavalo de Ferro, 2005

terça-feira, 6 de abril de 2010

Retrato de Família #13




Clarice L. Karamazov (1920-1977)

«Eu tinha medo da face de Deus, tinha medo de minha nudez final na parede. A beleza, aquela nova ausência de beleza que nada tinha daquilo que eu antes costumava chamar de beleza, me horrorizava.»

segunda-feira, 5 de abril de 2010

a temperatura do corpo #2



«Na mulher sem sexo, lisa e fechada, hermética e toda branca, depilada e sem pregas, os seios ganham uma importância suprema. Nada distrai da tentação dos seios, e isso dá-lhes uma esfericidade suprema. Há-de esgravatar toda a vida o homem neste seios solitários, e dar de beber à sua sede com as suas mãos , tal como se bebe nas fontes mais cristalinas e puras. Nessa mulher sem sexo a elevação dos seios é prodigiosa, radiante, e a feminilidade está neles sem se esbanjar, sem se perder, sem encontrar saída. De facto, se jamais encontrámos esses seios da mulher sem sexo, não vimos os seios em toda a sua apoteose.»

Ramón Gómez de La Serna, "Seios", Edições Antígona, 2000

domingo, 4 de abril de 2010

Corpus Christi Carol #2



«A experiência do Ser Essencial, da semente de vida divina, é a experiência que os pais da Igreja chamam de "O Arquétipo da Síntese". A síntese entre o finito e o infinito, entre o eterno e o tempo, entre o humano e o divino. Este arquétipo é uma imagem estruturante em nosso interior que se manifestou e se manifesta até hoje na historia.
Para a tradição cristã o Cristo é a encarnação desta imagem interior, desta síntese, a qual é, ao mesmo tempo, plenamente humana e plenamente divina, sendo no plenamente humano que o divino se manifesta.»

Jean-Yves Leloup, "Livro das Bem-Aventuranças e do Pai-Nosso: Uma antropologia do desejo", Editora Vozes, 2004

sábado, 3 de abril de 2010

alegações finais #1



«Doze vozes gritavam em fúria e eram todas idênticas. Não havia agora dúvidas sobre o que estava a acontecer às caras dos porcos. Os animais que estavam lá fora olhavam dos porcos para os homens, dos homens para os porcos e novamente dos porcos para os homens; mas já não era possível dizer quem era quem.»

George Orwell, “Triunfo dos Porcos”, Publicações Europa-América, 2001

sexta-feira, 2 de abril de 2010

a poesia não me interessa #17


A Educação pela Pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, freqüentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

João Cabral de Melo Neto, "A Educação Pela Pedra", Livros Cotovia, 2006

quinta-feira, 1 de abril de 2010

dia de mentiras



©Field,Todd;2006

quarta-feira, 31 de março de 2010

terça-feira, 30 de março de 2010

explicando melhor #1


- Mas afinal vamos lá a saber, quantos anos têm vocês? (não vale responder com o poema do R. Belo) - perguntou xú.

- Detalhe da última encarnação - disse apenas o Irmão Karamazov.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Chamada a pagar no destinatário #4


«This is an alarm-call, So wake-up, wake-up now, Woo-oo-ooh!»

domingo, 28 de março de 2010

Perguntas Abandonadas #6


«Para que é que inscreves nos túmulos a tua "saudade eterna"?»

Vergílio Ferreira (1916-1996)

sábado, 27 de março de 2010

Teoria da Conspiração #14 (ou a Singularidade de uma Mulher só)



«Lugar 1 - nesse lugar havia uma mulher que não queria ter filhos de seu ventre. Pedia aos homens que lhe trouxessem os filhos de suas mulheres para educá-los numa grande casa de um só quarto e de uma só janela; usava um xaile preto junto de seu rosto; tinha uma maneira distante de fazer amor: pelos olhos e pela palavra. Também pelo tempo, pois desde os tempos de sua bisavó, voltar a qualquer época era sempre possível. A mover-se, olhava por vezes com fixidez um sítio o mais belo de sua casa a casa toda porque toda a casa era bela e começava nesse olhar ora o tempo das crianças, ora o tempo dos homens. Mulheres, não havia outra, além dela, nunca ultrapassavam a entrada, que dava para a terra, terra de jardim onde se podiam dar passeios. Os homens ficavam contentes porque ela dizia todas as vezes não és tu que importas, é o seguinte. Certificavam-se, portanto, de que, no momento antes, haviam sido o próximo.»

Maria Gabriela Llansol, "O Livro das Comunidades",
Relógio D'Água, 1999

sexta-feira, 26 de março de 2010

Orelhas de Elefante #13

Investigações Metafísicas
Judee Sill, "Judee Sill", Asylum Records, 1971
Investigações Geométricas
Linda Perhacs, "Parallelograms", Kapp, 1970

Porque há musicas de outras dimensões.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Toda a humilhação leva à morte #9



«Não penetrais suficientemente na intimidade da forma, não a perseguis com suficiente amor e perseverança nos seus desvios e nas suas fugas. A beleza é uma coisa severa e difícil, de modo nenhum se deixa atingir assim: é preciso esperar as suas horas, espiá-la, apertá-la e enlaçá-la estreitamente para a forçar a dar-se.»

Honoré de Balzac, "A Obra Prima Desconhecida", Edições Vendaval, 2002

quarta-feira, 24 de março de 2010

terça-feira, 23 de março de 2010

o Mal-estar da Civilização #15



SÓCRATES

Um homem que pratica a ginástica e que faça o estudo desta vai prestar atenção ao elogio, à critica e à opinião de qualquer pessoa ou apenas daquele que é o seu médico ou o seu mestre?

CRÍTON
Apenas à deste

SÓCRATES

Portanto, será apenas deste que deve temer a crítica e não apreciar o elogio, sem se preocupar com a maioria.

CRÍTON
É evidente que sim.

SÓCRATES

Assim, deverá agir, exercitar-se, comer e beber como o decidir o único homem que o dirige e é competente, em vez de seguir o parecer de todos os outros reunidos.

CRÍTON
Isso é indesmentível.

SÓCRATES

Estamos, então, de acordo. Mas se ele desobedecer a esse homem único, se desdenhar a sua opinião e os seus elogios para seguir a opiniões da multidão incompetente, não irá sofrer algum mal?

Platão, "Diálogos III - Críton", Pub. Europa-América, 2ª Edição


segunda-feira, 22 de março de 2010

dedicatória #6*



* dedicado ao Livreiro e seu alter-ego por mais um início de primavera.