quinta-feira, 11 de março de 2010

Teoria da Conspiração #13 (ou o cio da terra generosa)



«Tudo o que deres à terra, a terra devolver-te-á mil vezes, disse o homem para a menina que o seguia enquanto ele preparava os carreiros por onde a água haveria de passar. Mil, quantos são mil?, perguntou a menina, espantada no meio da horta que o homem fizera nas traseiras da igreja. O homem deixou o que estava a fazer e agachou-se até ficar à altura da menina. Abre as mãos, estica os dedos. O homem percorreu com os seus os dedos da menina abertos em leque. Imagina que de cada um destes dedinhos nasce uma menina com as mão abertas e os dedos esticados. Como eu? Como tu. As mãos do homem prolongavam as da menina. E que de cada um dos dedos dessas meninas nascem outras meninas de mãos abertas com os dedos esticados. São mil os dedos dessas meninas no dedos das meninas que tu tens nos dedos, disse o homem e sorriu. A menina não tinha a certeza de ter percebido bem mas os olhos dela brilhavam. A menina parecia feliz. Tantos! O homem endireitou-se e foi abrir a água que, rápida, percorreu certinha os carreiros todos. A terra é generosa se a tratares bem, a terra é sempre muito generosa, disse o homem. A terra dá tudo, tudo, tudo?, perguntou a menina. Tudo. Foi nesse instante que a menina decidiu o que havia de fazer.»

(Dulce Maria Cardoso - Desaparecida)

in Contos Policiais, Porto Editora, 2008

quarta-feira, 10 de março de 2010

o homem de quarta-feira #27



«Deus é um fanático pelo cinema que passa os dias em frente a milhões de televisões, assistindo a milhões de filmes realizados por ele próprio. Os argumentos são todos diferentes: cada um conta a vida de cada um de nós. Há alguns que ele gostava de poder alterar e filmar outra vez, mas está velho e cansado para isso. Consta que também tem bastantes problemas com a vista.»

Pedro Serrazina, "Pequenas Estórias Sem Importância”, Cadernos do Campo Alegre, 2006

terça-feira, 9 de março de 2010

retrato de Família #12




Giovanni P. Karamazov (1881–1956)

«Existirá algum jovem e desconhecido amigo que encontrará nestas páginas apressadas alegria e compreensão»

domingo, 7 de março de 2010

é meia-noite no fim do céu #4



«O que é citável de um livro, de um autor? Decerto a sua morte pode ser citável. E, sobretudo, o seu silêncio»

Herberto Helder em carta endereçada a Eduardo Prado Coelho, 1977

sábado, 6 de março de 2010

dicionário das causalidades #3



C

Cidades

«Mesmo em Raissa, cidade triste, corre um fio invisível que liga um ser vivo a outro por um instante e a seguir se desfaz, e depois torna a estender-se entre pontos em movimento desenhando novas rápidas figuras de modo que a cada segundo a cidade infeliz contém uma cidade feliz que nem sequer sabe que existe.»

Italo Calvino, "As Cidades Invisíveis", Editorial Teorema, 2002

sexta-feira, 5 de março de 2010

Teoria da Conspiração #12 (ou a magia do absurdo)



«Vendo bem, nem a última das verdades tem sentido. É o caso da conhecida definição circular de 'livro obsceno', que é aquele tipo de livro que desperta certas ideias no espírito daquele tipo de pessoas nas quais essas ideias são despertadas por esse tipo de livros.»

(Aleister Crowley - Eight Lectures On Yoga)

Alberto Pimenta, "A Magia Que Tira os Pecados do Mundo", Cotovia, 1995

quinta-feira, 4 de março de 2010

o mal-estar da Civilização #14



Na Suécia,

18% da mulheres foram, numa ou noutra ocasião, ameaçadas por um homem

46% das mulheres suecas foram sujeitas a violência por parte de um homem

13% das mulheres suecas foram vítimas de violência sexual agravada fora de um relacionamento sexual

92% das mulheres que foram vítimas de agressão sexual não denunciaram à polícia o incidente violento mais recente


Stieg Larsson, "Os Homens Que Odeiam as Mulheres", Oceanos, 2008

quarta-feira, 3 de março de 2010

o homem de quarta-feira #26



«A minha alma é monstruosamente egoísta: não teria suportado que eu fosse bela.
Falar do físico nas minhas circunstâncias é insensato: trata-se tão clara e evidentemente de outra coisa.
- Ela agrada-lhe fisicamente?
- Acaso quer agradar fisicamente? Nego-me a conceder o direito a uma apreciação assim.
Eu sou eu: e os meus cabelos são - eu, e a minha mão masculina de dedos quadrados é - eu, o meu nariz aquilino - eu. E, exactamente: nem os meus cabelos são eu, nem a minha mão, nem o meu nariz são eu: o meu eu é invisível.
Venerem o invólucro, agraciado pelo sopro divino.
E vão amar - outros corpos!»

Marina Tsvétaïeva, "Indícios Terrestres", Relógio D'Agua, 1995.

terça-feira, 2 de março de 2010

Perguntas Abandonadas #5


«O pó futuro, em que nos havemos de converter, é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade?»

Padre António Vieira (1608-1697)

segunda-feira, 1 de março de 2010

espécie de oração particular #4



«Quem me dera
Ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro
Que entreguei a quem
Conseguiu me convencer
Que era prova de amizade
Se alguém levasse embora
Até o que eu não tinha

(...)»

Renato Russo, "Índios", EMI, 1986

domingo, 28 de fevereiro de 2010

viagem ao centro do ego


©Sant,Gus Van;2002

sábado, 27 de fevereiro de 2010

a vida não é um sonho #3



«Hemingway, Ernest

Acabou se matando porque descobriu que não era um grande escritor. Isto o salva, em parte. (Revista Siete Días 19/6/86)»

Carlos R. Stortini, "Dicionário de Borges", Bertrand Brasil, 1990

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Orelhas de Elefante #12



Porque há musicas de outras dimensões.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

o homem de quarta-feira #25



«Atenção! Não podemos carregar na dose. Actue com delicadeza e subtileza para não envenenarmos nada e não ficarmos expostos sem necessidade. Graças a Deus, até agora a sorte tem estado connosco - mas é preciso não exagerar. Tome cuidado consigo. Muito cuidado!»

Witold Gombrowicz, "A Pornografia", Relógio D'Água, 1988

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

a poesia não me interessa #15



A uma transeunte

A rua ensurdecedora em meu redor berrava
Alta, esguia, de luto carregado, dor majestosa,
Um mulher passou, com sua mão faustosa
Erguendo, baloiçando o ramo e a bainha

Ágil e nobre, com sua perna de estátua,
Eu bebia, crispado como extravagante,
No seu olhar, céu lívido onde nasce o furacão,
A doçura que fascina e o prazer que mata

Um raio… em seguida, a noite! __ Beleza fugitiva
Cujo olhar me fez repentinamente renascer,
Só voltarei a ver-te na eternidade?

Algures, bem longe daqui! Demasiado tarde! Nunca talvez!
Eu não sei para onde fugiste, tu não sabes para onde vou,
Tu que eu teria amado, tu que sabias que sim!

Charles Baudelaire, "As Flores do Mal", Relógio D'Água, 2003

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Chamada a pagar no destinatário #3

«Did you say, "No, this can't happen to me"? And did you rush to the phone to call? Was there a voice unkind in the back of your mind saying, "Maybe, you didn't know him at all, you didn't know him at all, oh, you didn't know"?»

domingo, 21 de fevereiro de 2010

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Retrato de Família #11



Joseph C. Karamazov (1857–1924)

«Uma pessoa perdia-se naquele rio (…) e acabava por julgar-se vítima de um feitiço, isolada para sempre do que até ali conhecera, sei lá onde, muito longe, talvez noutra vida.»a.