segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

o Mal-estar da Civilização #13


«Desde quando é que se tornou digno de louvor o facto de alguém possuir uma natureza de escravo? Depois de todos os símbolos do poder terem desaparecido, já não tinhas qualquer razão para obedecer, mas continuaste a fazê-lo. Que força misteriosa te impelia a obedecer às ordens de pessoas tão desgraçadas como tu, tão nuas e miseráveis como tu? Eras demasiado cobarde para tentares fazer como os outros, para experimentares dizer uma vez que fosse ao capitão: vai buscar lenha, preciso de me aquecer à fogueira. Não, tinhas descoberto uma outra solução; enquanto estavas ainda saciado, calculavas friamente que chegaria a hora em que a tua fome seria maior do que a dos outros todos. E então pensavas: em breve ficarei faminto, tornar-me-ei selvagem e sem escrúpulos, revoltar-me-ei, não abertamente, mas de modo dissimulado, contra estes terroristas. Com a cabeça fria, fazias projectos sobre a maneira como utilizarias a tua embriaguez, e é isso que é desprezível. Para que serve o desejo de revolta se te recusas a revoltar-te quando estás saciado?»

Stig Dagerman, "A Ilha dos Condenados", Antígona, 1990

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Teoria da Conspiração #11 (ou o peso da ferradura)



«Todos os homens são mais ou menos invejosos; os políticos são-no absolutamente. Quem se transforma num deles só o faz na medida em que não suporta ninguém acima de si ou do seu par. Lançarmo-nos na iniciativa de uma acção, seja ela qual for, e ainda que se trate da mais insignificante, é sacrificar à inveja, prerrogativa suprema dos seres vivos, lei e mola dos actos. Quando ela nos deixa, cada um de nós passa a ser apenas um insecto, um nada, uma sombra. E um doente. Ao passo que se ela nos sustentar, remediará as quebras do orgulho, velará pelos nossos interesses, triunfará sobre a apatia, operará mais do que um milagre.»

E. M. Cioran, "História e Utopia", Bertrand, 1994

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

o homem de quarta-feira #24



«Que seja esta a primeira destreza da arte dos entendidos: medir a ocasião com o seu artifício. Grande astúcia é ostentar-se o conhecimento, mas não a compreensão; alimentar a expectativa, mas nunca desenganando-a de todo. Que prometa mais o muito, e a melhor acção deixe sempre esperanças de outras maiores.
Que o varão culto a todos desculpe por lhe sondarem a fundura da sua torrente, caso queira que todos o venerem. Formidável foi o rio até se lhe encontrar o vau, e venerado o varão até se lhe conhecerem os limites das capacidades;»

Baltasar Gracián, "O Herói", frenesi, 2003

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

electrocardioTrama #5 (ou a actividade interior do composto)



«O homem não é o mundo em viva síntese consciente? A Natureza, para o criar, serviu-se de todos os seus materiais. Nós somos um edifício construído por fora com toda a terra e iluminado, por dentro, com todas as estrelas. E nele, vive silencioso e prisioneiro, o fantasma do ser Arquitecto.»

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

ligação directa #1

Joaquim Agostinho da Silva

Filosofia de Alta Montanha

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

a poesia não me interessa #14



Tempos houve em que o meu demónio ria,
E eu era uma luz em jardins soalheiros,
Tinha jogo e dança por companheiros
E o vinho do amor que me inebria.

Tempos houve em que o meu demónio chorava,
E eu era uma luz em jardins de crueldade,
Tinha por companheira a humildade
Que a casa da pobreza iluminava.

Hoje o meu demónio não ri nem chora,
Eu sou uma sombra num jardim perdido,
E o meu companheiro, pela morte enegrecido,
É o silêncio vazio de antes da aurora.

Georg Trakl, "Outono Transfigurado", Assírio & Alvim, 1991

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O Idiota (uma história no plural) #2



« - Como vou anunciar uma pessoa como o senhor? - murmurou o camareiro quase sem querer.» (página 24)

Fiódor Dostoiévski, "O Idiota", Editorial Presença, 2007

domingo, 31 de janeiro de 2010

Perguntas Abandonadas #4


«O rouxinol! em cem pessoas, quantas dão por ele?»

D. T. Suzuki (1870–1966)

sábado, 30 de janeiro de 2010

Teoria da Conspiração #10 (ou o encontro na sombra)



«FAUSTO:
De ti, ó ígnea imagem, não me escudo!
Sou eu, sou Fausto, igual a ti em tudo!

ESPÍRITO:
Nas vagas da vida, vendavais de acção,
Me vês subir , descer,
Tecer fios neste pano!
Nascer e morrer,
Eterno oceano,
Alternando a trama,
A vida uma chama,
E sentado ao tear vibrante do Tempo
Teço à divindade o seu manto vivo.

FAUSTO:
Tu, que a vastidão do mundo envolves,
Génio da acção, que perto estou de ti!

ESPÍRITO:
Tu és igual ao espírito que entendes,
Não a mim! (Desaparece.)»

Johann W. Goethe, "Fausto", Relógio d'Água, 2003

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

a claustrofobia



©Aronofsky,Darren;2008

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Retrato de Família #10



J. D. S. Karamazov (1919 –2010)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

o homem de quarta-feira #23



«Um Lavrador que se encontrava às portas da morte, tendo conhecimento que durante a sua doença os Filhos haviam deixado a vinha cobrir-se de ervas daninhas enquanto jogavam às cartas com o médico, disse-lhes:
- Meus rapazes, há um grande tesouro enterrado na vinha. Cavem até o encontrarem.
E foi assim que os Filhos arrancaram todas as ervas daninhas, juntamente com todas as cepas, esquecendo-se inclusive de enterrar o velhote.»

Ambrose Bierce, "Esopo Emendado & Outras Fábulas Fantásticas", Antígona, 1996

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

domingo, 24 de janeiro de 2010

Orelhas de Elefante #11

Surrealismo

Massive Attack, "Heligoland", Virgin, 2010

Realismo

The Magnetic Fields, "Realism", Nonesuch Records, 2010

sábado, 23 de janeiro de 2010

Momento Pergaminho #3



«Estás no valo a trabalhar. O crepúsculo que te envolve é cor de cinza, o céu acima é cinzento, cinzenta a neve no pálido lusco-fusco, os trapos dos teus companheiros são cinzentos, e também os semblantes deles são cor de cinza. Retomas outra vez o diálogo com o ente querido. Pela milésima vez lanças rumo ao sol teu lamento e tua interrogação. Buscas ardentemente uma resposta, queres saber o sentido do teu sofrimento e de teu sacrifício – o sentido de tua morte lenta. Numa revolta última contra o desespero da morte à tua frente, sentes teu espírito irromper por entre o cinzento que te envolve, e nesta revolta derradeira sentes que teu espírito se alça acima deste mundo desolado e sem sentido, e tuas indagações por um sentido último recebem, por fim, de algum lugar, um vitorioso e regozijante “sim”. Nesse mesmo instante acende-se ao longe uma luz, na janela de uma distante moradia camponesa, postada feito bastidor à frente do horizonte, em meio à cinzenta e desolada madrugada bávara “et lux in tenebris lucet”, e a luz resplandece nas trevas. Agora estiveste horas a fio picando o chão congelado, outra vez passou a sentinela e debochou um pouco de ti, e de novo recomeças o diálogo com teu ente querido. Tens cada vez mais o sentimento de que ela está presente. Sentes que ela está ali. Crê poder tocá-la, parece precisares apenas estender a mão para tomar sua mão. E com grande intensidade te invade o sentimento: Ela, está aqui! Eis que no mesmo instante – o que é aquilo? – sem que tenhas notado, acaba de pousar um passarinho bem à tua frente, sobre o torrão que recém cavaste, para te fitar atento e sereno...»

Viktor Frankl, "Em Busca de Sentido", Editora Vozes, 2006


sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Toda a humilhação leva à morte #7



«A virtualização, de maneira geral, é uma guerra contra a fragilidade, a dor, a usura. Em busca da segurança e do controlo, perseguimos o virtual porque nos leva a regiões ontológicas que os perigos vulgares já não atingem. A arte questiona esta tendência e virtualiza, assim, a virtualização, porque procura, a partir do mesmo momento, uma saída do aqui e do agora, e a sua exaltação sensual. Ela retoma a tentativa de evasão. Ela ata e desata a energia afectiva que nos faz superar o caos. Em ultima instância, ao denunciar o motor da virtualização, ela problematiza o esforço incansável, por vezes fecundo e sempre votado ao fracasso, que empreendemos para escapar à morte.»

Pierre Lévy

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

diário dos mesmos pesares #3




«Um Diário destes não magoa», pensa a rapariga, folheando
O seu caderno: «Apaga os passos que dei até aqui».
E imagina que a espera um espaço imenso. Páginas adiante,
A letra torna-se irregular, a simetria esvai-se confusa.
Não foi, certamente, o espaço que dela se abeirou. Não.
Também não foi o amor, como se poderia pensar.
Foi o Género. Pegou no Diário e fê-lo romance. É assim.
Só estranho o novo corpo que lhe foi dado.»

Maria Gabriela Llansol, "O Começo de um Livro é Precioso", Assírio e Alvim, 2003

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

o homem de quarta-feira #22



SALMO CXXXVII

«5     Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, minha dextra se esqueça de si mesma.
  6     Minha língua se apegue a meu paladar, se de ti me não lembro: se a Jerusalém não exalço sobre o mais alto da minha alegria.»   

Bíblia Ilustrada, "Vol. 5, Salmos - Isaías ", Assírio & Alvim, 2007