sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

a poesia não me interessa #11




Retrato Proletário


Uma jovem alta sem chapéu
de avental

Parada na rua com o cabelo
puxado para trás

Um pé com a peúga tocando
a calçada

O sapato na mão. Examinando-o
atentamente

Retira a palmilha
à procura do prego

Que a magoava tanto


William Carlos Williams, "Antologia Breve", Assírio & Alvim, 1995

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

o homem da quarta-feira #17



«A música é, por sua vez, uma espécie de púlpito, com o seu espaço de ressonância próprio que, inabalavelmente, interfere no discurso. Pela altura em que escrevi os versos das canções de “Circa 1999” estava fortemente dominado pela leitura de “Igitur (A Loucura de Elbehnon)” de Mallarmé. Penso que isso se faz sentir. Foi uma leitura complexa para a qual tive de usar alguma dose de persistência, de forma a levar a bom termo a sua conclusão. O mesmo se tinha passado anteriormente com “O Idiota”, de Dostoievski, e mais tarde com “O Inominável”, de Beckett. No caso deste último, existe uma ausência de pistas sobre a identidade do narrador. É uma semifigura em constante metamorfose. E, por falar nisso, a primeira vez que contemplei um livro com um sentimento de terror foi aos 15 anos, quando li “A Metamorfose”, de Kafka.»

B Devlin, "A pop não-pop das margens", entrevista de Rui Eduardo Paes

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Teoria da Conspiração #8 (ou a vaidade do avesso)



«Narciso gostou muito de si próprio quando se viu reflectido na água, porque não sabia que a sua imagem estava invertida. Quando lhe explicaram, criou o complexo.»

Dimíter Ánguelov, "Código Evidente", & etc., 1989

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Perguntas Abandonadas #3


«És um homem justo? Sensato?
É nisso que assenta a tua confiança?
És amado por todos?
Achas que os teus sofrimentos serão menores porque aprecias a bondade? A verdade?»

Terrence Malick (1943-)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

domingo, 6 de dezembro de 2009

Momento Pergaminho #2


Humor de Duende

Quando à noite, já deitada
Vês que não fizeste nada
Daquilo que querias ser
Fecha os olhos a sorrir
Há sempre um duende a rir
Atrás de ti a dizer:

- "Hé... Hé... Hé!...
Só se ganha em se perder
Amanhã vai melhorar
Sei o que estou a dizer!

Eu sou um duende à espreita
Na tua esquina mais estreita
Por isso sou teu amigo
E quem sabe rir comigo
Sabe-se a si transformar!

Não te rales se és assim
Esses males têm fim
Faz a fila atrás de mim
Vem mas é para a floresta
Pois lá estamos sempre em festa
Se caíres esfolas a testa
Mas não vais disso morrer!

Põe-te na fila a dançar
Sai do jogo quem quiser
E também sai quem olhar
P'ro seu umbigo a chorar
Ou quem dançar a gemer!

Vá lá, avança,
Vê se mexes essa pança
Dá saltos e faz caretas
Faz como eu piruetas
Sacode-te dessas tretas
Não fiques sisudo aí!
Não tenhas pena de ti!

Quem já souber rir de si
Sabe o mundo transformar
E o dia será bom!
Estará sempre a melhorar!!

Luísa Barreto, "Pelo Caminho da Fadas", Centro Lusitano de Unificação Cultural, 2001

sábado, 5 de dezembro de 2009

Imediatamente embora pouco a pouco #2



«Procede deste modo, caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti, concentra e aproveita todo o tempo que até agora te era roubado, te era subtraído, que te fugia das mãos. Convence-te de que as coisas são tal como as descrevo: uma parte do tempo é-nos tomada, outra parte vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente.»

Séneca, "Cartas a Lucílio", Fundação Calouste Gulbenkian, 2004


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Retrato de Família #8

«Não me cansava de ver essa aparição que tu eras. Suave, esfregada pela luz; a tua boca macia, húmida, irisada de estrelas; o teu corpo cada vez mais transparente na água da noite. Susana. Susana San Juan.»

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

orquestrar a sanidade



©Cassavetes,John;1974

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

o homem da quarta-feira #16



«Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte, certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tão pouco me legaram o disfarçado furor do céptico, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso acusar os que só acreditam naquilo que duvido, nem os que fazem o culto da própria dúvida, como se não estivesse, também esta, rodeada de trevas. Seria eu, também, o acusado, pois de uma coisa estou certo: o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível de satisfazer. Como posso, assim, viver a felicidade?»

Stig Dagerman, "A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer", Fenda, 1995

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Orelhas de Elefante #10

os Magos

The Beatles, "Stereo Box Set [BOX SET] [ORIGINAL RECORDING REMASTERED]", EMI, 2009



os Duendes

Pixies, "Minotaur (Limited Signed Edition) [BOX SET]", Artist In Residence, 2009


Porque há musicas de outras dimensões.


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Não respire... (ou leituras em apneia) #1



«Tu lutas contra esta figura que dentro de ti te impele; tu queres fugir de ti próprio, queres separar-te de ti mesmo, e não podes. Só consegues, à custa de esforços desesperados, manteres-te dentro da fórmula ou da máscara que escolheste, e arredar o crime e a loucura, e fingir e sorrir.»

Raul Brandão, "Húmus", Campo das Letras, 2000

Pode respirar.

domingo, 29 de novembro de 2009

a poesia não me interessa #10



Cânticos*

I

Não queiras ter pátria.
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto,
Que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
Estarás em tudo,
Como Deus.

II

Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens ...
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade ...
É a eternidade.
És tu.

III

Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu.
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde é Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso.
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.

* (3 de 26)

Cecília Meireles, "Antologia Poética", Editora Record, 1963

sábado, 28 de novembro de 2009

dedicatória #4*



* dedicada a quem, desde 2007, tem conduzido o esférico para a frente.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Toda a humilhação leva à morte #5



«Exprimir sob a forma de arte, com finalidade de catarse, uma tragédia interior, apenas o pode fazer o artista que, no momento em que vivia a tragédia, ia já tecendo os fios construtivos, ia já realizando a incubação criadora. Não existe a tempestade sofrida loucamente e, depois, a libertação através da obra, arriscando até o suicídio. É tão verdade que os artistas que realmente se mataram por causa dos seus casos trágicos são habitualmente cantores ligeiros, diletantes de sensações, que nunca nas suas obras deixaram transparecer nada do profundo cancro que os roía. Donde se conclui que o único modo de fugir ao abismo é encará-lo, medi-lo, sondá-lo e mergulhar nele.»

Cesare Pavese, "O Ofício de Viver", Relógio D'Água, 2004

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

diário dos mesmos pesares #1



26 de Novembro

Às vezes digo para comigo: o teu destino não tem nenhum com que se compare: podes considerar todos os outros homens felizes... nunca mortal algum sofreu como tu.
Depois leio qualquer poeta de outros tempos e parece-me que estou lendo no meu próprio coração. Tenho tanto a suportar! Já haveria antes de mim homens tão infelizes como eu sou?

Goethe, "Werther", Guimarães Editores, 1998

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

o homem da quarta-feira #15



«É um facto, Nietzsche enlouqueceu, Hölderlin endoideceu, Rilke não conseguiu entrar com o seu corpo no poema, Virginia Woolf suicidou-se, Spinoza acabou silenciando-se, Kafka foi apanhado a tempo por uma tuberculose galopante, Pessoa foi-se degradando no alcoolismo, Kierkgaard acabou triste e só. Nestas coisas, não há hereditariedade, mas há continuidade de problemática e, o que é bem mais importante, permanência do vórtice vibratório.»

Maria Gabriela Llansol, "Na Casa de Julho e Agosto", Relógio D`Água, 2003

terça-feira, 24 de novembro de 2009

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Teoria da Conspiração #7 (ou a liberdade é escravidão)



«Enquanto não tomarem consciência não se revoltarão e enquanto não se revoltarem não poderão tomar consciência».

George Orwell, "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro", Antígona, 1991

domingo, 22 de novembro de 2009

Imediatamente embora pouco a pouco #1



«Viver a abolição do tempo, viver esse momento, rápido como o "relâmpago", pelo qual dois instantes, infinitamente separados, vêm "pouco a pouco embora imediatamente" ao encontro um do outro, unindo-se como duas presenças que, pela metamorfose do desejo, se identificassem, é percorrer toda a realidade do tempo, e ao percorrê-la experimentar o tempo como espaço e lugar vazio, quer dizer, livre de acontecimentos que habitualmente o preenchem . Tempo puro, sem acontecimentos, vacância movente, distância agitada, espaço interior em devir onde os êxtases do tempo se dispõem numa simultaneidade fascinante, o que significa tudo isso?»

Maurice Blanchot, "O Livro por Vir", Relógio D` Água, 1984