terça-feira, 10 de novembro de 2009

o homem da quarta-feira #13



«Há uma velha história acerca de um trabalhador suspeito de roubar no trabalho: todas as tardes, quando sai da fábrica, os vigilantes inspeccionam cuidadosamente o carro de mão que ele empurra, mas nunca encontraram seja o que for. Até que um dia se descobre a trama: o que o trabalhador rouba são carros de mão!»

Slavoj Žižek, "Violência", Relógio D’Água, 2009

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Teoria da Conspiração #6 (ou o cheiro da inconveniência)



«Florista: Compra-me uma rosa?
Artur: Não, hoje não.
Florista: É isso que oiço todos os dias da sua boca. (Para Edgar) E o senhor?
Edgar (compra a rosa e oferece-a à criada de mesa, com quem está a conversar.)
Artur: Só quero saber de mim e de mais ninguém, estou insatisfeito comigo mesmo, mas isso até produz um belo efeito. Esta criada é muito atraente, sente respeito por mim e está furiosa comigo. É melhor assim, do que se me fizesse sorrisos. Nesta vida, uma pessoa ou é tida por boazinha e tratada com pouca consideração ou é levada a sério e evitada. Eu prefiro a segunda modalidade. Com as mulheres, há que fazer-lhes frente com delicadeza, para causar boa disposição.
Edgar (levanta-se, despede-se e sai).
Artur (dirigindo-se à rosa que a criada de mesa pôs numa jarra): Ele foi o nobre ofertante e eu sou o grosseiro egoísta. A franqueza é simpática, não é? (aspira o perfume da rosa) Como é doce o teu perfume!
A criada de mesa (sorrindo divertida): Não são os atenciosos que impressionam as mulheres. Nós, as mulheres, tratamos com todo o respeito aqueles que não nos ligam nenhuma. São os muito ocupados, os comprometidos que nos atraem. (Para Artur:) Tu vieste cá só para matar a fome. O que haverá por detrás desta testa? (Afaga-o.)
Artur: Tu não me tens por desprovido de sentimentos.
A criada de mesa: Não! Os teus olhos atraiçoam-te com demasiada clareza. Esse teu ar de superficialidade é apenas um disfarce. És alguém que sabe o que é sofrer, e é por isso que eu te quero bem, um pouco.
Artur: Doravante, passarei a cumprimentar-te com as mais profundas vénias. É bonita a rosa que aquele homem te ofereceu.
A criada de mesa: Infelizmente, não foste tu quem ma ofereceu.
Artur: A minha, já eu a ofereci e estou preso a isso. A fidelidade impõe-nos obrigações, mas faz-nos felizes.»

Robert Walser, "A Rosa", Relógio D'Água, 2004

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

o Mal-estar da Civilização #9



«[...] incorporámos o inferno no quotidiano do mais fascinante e atroz dos séculos. Basta passar em revista o imaginário deste fim de século -- da ficção à música, do cinema ao teatro, da biologia à tecnologia -- para ter uma ideia do ponto a que chegou um mundo onde o horror se tornou invisível, consumido como pura virtualidade, para ter uma ideia da metamorfose da cultura humana. Pode discutir-se se a desordem em que estamos mergulhados -- desde a económica até à da legalidade e da ética -- releva ou não, em sentido próprio, do conceito de caos. Do que não há dúvidas é de que o habitamos como se fosse o próprio esplendor.»

Eduardo Lourenço, "O Esplendor do Caos", Gradiva, 1998

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

puro veludo



©Lynch, David;1988

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

o homem da quarta-feira #12



O Leão e o Rato

Um Leão que havia apanhado um Rato estava prestes a matá-lo, quando o Rato lhe disse:
- Se me poupares a vida, farei o mesmo por ti um dia destes.
O Leão, num acto de generosidade, deixou-o ir. Aconteceu que, pouco tempo depois, o Leão foi apanhado por uns caçadores e atado com uma corda. O Rato, ao passar pelo local e vendo o seu benfeitor indefeso, roeu-lhe a cauda.

Ambrose Bierce, "Esopo Emendado & Outras Fábulas Fantásticas", Antígona, 1996

terça-feira, 3 de novembro de 2009

a poesia não me interessa #8





Querida. Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei: vou-te escrever. Mas não te quero amar no tempo em que te lembro. Quero-te amar antes, muito antes. É quando o que é grande acontece. E não me digas diz lá porquê. Não sei. O que é grande acontece no eterno e o amor é assim, devias saber. Ama-se como se tem uma iluminação, deves ter ouvido. Ou se bate forte com a cabeça. Pelo menos comigo foi assim. Ou como quando se dá uma conjução de astros no infinito, deve vir nos livros.Ou mais provavelmente esse tempo nunca pôde existir, que é quando realmente existe o que vale a pena existir.

Vergílio Ferreira, "Em Nome da Terra", Bertrand Editora, 1990

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Teoria da Conspiração #5 (ou a praga de esperar)

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«Não é necessário que saias de casa. Permanece à mesa e escuta. Nem sequer escutes, aguarda apenas. Nem sequer aguardes, fica em silêncio e só. O mundo apresentar-se-á perante ti para ser desmascarado, não poderá fazer outra coisa, contorcer-se-á, em êxtase, aos teus pés.»

Franz Kafka (1883-1924)

domingo, 1 de novembro de 2009

é meia-noite no fim do céu #1



«O deus estranho deteve-se ao fundo da grande escadaria e escutou. Colmilhos Brancos parecia morto, tão imóvel estava, enquanto observava e esperava. Aquelas escadas conduziam aos aposentos do seu deus e aos de todos os entes que lhe eram queridos. Por isso o pêlo eriçou-se-lhe, mas ele esperou. O pé do deus estranho ergueu-se. Começava a subir»

Jack London, "Colmilhos Brancos", Civilização Editora, 1969

sábado, 31 de outubro de 2009

Toda a humilhação leva à morte #3



"O artista aceitou o seu próprio destino de olhos abertos e não creio que deseje qualquer tipo de caridade relativamente ao sacríficio que ele próprio assumiu. A única coisa que quer é compreensão e amor por aquilo que faz, mais nada."

Mark Rothko, "A Realidade do Artista", Cotovia, 2007

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Orelhas de Elefante #8

a Mitologia

Cristina Branco, "Kronos", Universal, 2009


a Filosofia

Júlio Resende, "Assim Falava Jazzatustra", Clean Feed, 2009


Porque há musicas de outras dimensões.

«Geometria que não se vê.
O AR é o chão da Música.
Não cai, encanta.»

Gonçalo M. Tavares

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

o homem da quarta-feira #11


«Cliente: Uma pessoa que habitualmente faz uma escolha entre dois diferentes métodos de ser legalmente roubado.»

Ambrose Bierce, "Dicionário do Diabo", Tinta da China, 2006.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

o Mal-estar da Civilização #8



«Na hora de mais frequência nas ruas, quando a espessa malha da multidão se cruza evitando-se habilidosamente, incansavelmente artista em não chocar os seus guarda-chuvas, os seus carregos de caixas de cartão vazias, podemos meditar na desordem como numa consequência do ritmo de parentesco. Vemos de súbito toda essa gente, vizinha no seu tempo, nos seus desejos, na sua cidade, parecer explodir em direcções diferentes, procurando ignorar-se e precipitando-se nos intervalos livres de um passeio, duma praça. E se aproximássemos a nossa observação até ao nível das suas opiniões notaríamos que elas dependem mais da oposição ao que lhes é idêntico, do que resultam da lógica dos seus interesses. A desordem é a sensibilidade da limitação.»

Agustina Bessa Luís, "Conversações com Dmitri e outras fantasias", Na Regra do Jogo, 1979

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

electrocardioTrama #2 (ou a actividade poética do coração)

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«Quando leres isto, eu que era visível, serei invisível,
Agora és tu, concreto, visível, aquele que me lê, aquele que me procura,
Imagino como serias feliz se eu estivesse a teu lado e fosse teu companheiro,
Sê tão feliz como se eu estivesse contigo. (Não penses que não estou agora junto a ti.)»

domingo, 25 de outubro de 2009

Retrato de Família #6


Luiz P. Karamazov (1925-2008)

"Tive dois ameaçozitos. De um ameaço salvou-me o Cesariny e o Carlos. De repente estive para me mandar para dentro de água…"

sábado, 24 de outubro de 2009

a teia


©Cronenberg,David,2002

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

dedicatória #3*



* dedicada a todos os indivíduos que resolvem as relações à cabeçada.