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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

o Mal-estar da Civilização #23


«A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos.»


José Saramago, Estocolmo, 10 de Dezembro, 1998

domingo, 30 de outubro de 2011

o Mal-estar da Civilização #22



«Digno de espanto, se bem que vulgaríssimo, e mais doloroso do que impressionante, é ver milhões de homens a servir, miseravelmente curvados ao peso do jugo, esmagados não por uma força maior, mas aparentemente dominados e encantados apenas pelo nome de um só homem cujo poder não deveria assustá-los, visto que é um só, e cujas qualidades não deviam prezar, porque os trata desumana e cruelmente.
Tal é porém a fraqueza humana: levados à obediência, obrigados a contemporizar, os homens não podem sempre ser os mais fortes.»


Etienne de la Boétie, "Discurso sobre a servidão voluntária", Antígona, 1997

quarta-feira, 11 de maio de 2011

o Mal-estar da Civilização #21



«Não esquecer Lévi-Strauss: a saber, que a "civilização" não é um grau e que não há hierarquias "naturais" a postular desse ponto de vista, mas também que a humanidade é una, pois deriva de um fundo antropológico comum. Por outras palavras, que falar de um "ataque contra a Civilização" não quer dizer nada, não mais, em todo o caso, do que a pretensão de classificar os povos em função da sua adesão a uma fé, muçulmana ou outra. Talvez seja conveniente precisar aqui que o suprematismo não é só "branco": se há quem, nas sociedades muçulmanas, se alie ao islamismo radical de um ponto de vista defensivo, ou seja, por causa da percepção de uma ameaça, a retórica dos chefes de guerra desse islamismo radical pretende-se ofensiva, e o seu proselitismo conquistador justifica-se pela inferiorizarão da civilização "decadente" do Outro.»

Samir Kassir, "Considerações Sobre a Desgraça Árabe", Cotovia, 2006

sexta-feira, 15 de abril de 2011

o Mal-estar da Civilização #20



«Estou de acordo, o homem é um animal, essencialmente criador, predestinado a aspirar a um fim na vida conscientemente e a dedicar-se à arte da engenharia, ou seja, a abrir para si mesmo um caminho, eterna e ininterruptamente, seja para onde for. Mas talvez lhe apeteça às vezes desviar-se para qualquer lado, precisamente porque é obrigado a abrir esse caminho, e também porque, por mais tolo que seja quem age directamente, talvez lhe aconteça de vez em quando pensar que esse caminho vai sempre seja para onde for e que o principal não consiste em que direcção segue, mas no próprio facto de seguir e em que a criança da boa moral não despreze a arte da engenharia e não se dedique à folga nociva que, como se sabe, é a mãe de todos os males. O homem gosta de criar e de construir caminhos, é indiscutível. Mas por que gosta também apaixonadamente da destruição e do caos? Vá, digam lá!
»

Fiódor Dostoiévski, "Cadernos do Subterrâneo", Assírio & Alvim, 2000

terça-feira, 23 de novembro de 2010

o mal-estar da Civilização #19



«Quero o inumano dentro da pessoa; não, não é perigoso, pois de qualquer modo a pessoa é humana, não é preciso lutar por isso: querer ser humano me soa bonito demais.
Quero o material das coisas. A humanidade está ensopada de humanização, como se fosse preciso; e essa falsa humanização impede o homem e impede a sua humanidade. Existe uma coisa que é mais ampla, mais surda, mais funda, menos boa, menos ruim, menos bonita. Embora também essa coisa corra o perigo de, em nossas mãos grossas, vir a se transformar em "pureza", nossas mãos que são grossas e cheias de palavras.»

Clarice Lispector, "A Paixão Segundo G.H.", Relógio D'Água, 2000

sexta-feira, 21 de maio de 2010

o Mal-estar da Civilização #18



«Somos suficientemente religiosos para nos odiarmos, mas não o suficiente para nos amarmos uns aos outros.»

Jonathan Swift, "Pensamentos", Editora Licorne, 2010

terça-feira, 4 de maio de 2010

o Mal-estar da Civilização #17



«Grande é a angústia do homem que toma consciência da sua solidão e se evade da sua própria memória; vencido e banido, é repelido para a mais profunda angústia da criatura, a angústia daquele que sofre e comete a violência; repelido numa solidão de uma força implacável, a sua fuga, o seu desespero, a sua triste estupidez, podem assumir proporções tais que seja necessariamente conduzido a pensar em pôr fim aos seus dias para escapar à lei de pedra do acontecimento.»

Hermann Broch, "Os Sonâmbulos, Vol. III - Huguenau ou o Realismo", Edições 70, 1989

quinta-feira, 8 de abril de 2010

o Mal-estar da Civilização #16



«Não quero rebaixar o meu pai, mas tenho de te confessar que uma vida como a sua me daria a morte se tivesse de a viver. Que é que tu julgas que significa viver, para ele? Nada mais que levantar-se de manhã, ler o jornal, tomar uma chávena de café, ir para a oficina, consertar uma mesa, voltar para casa, jantar, dormitar, escutar a telefonia, ir ao w.c., contar uma história, das porcas de preferencia, sair, ir ao cinema, ir para a cama ou para o café, ver um filme, despir uma mulher ou beber uma cerveja, voltar para casa despir-se, ressonar, acordar, tomar uma chavena de café, ler o jornal e ir para o trabalho. O pior ainda não é ele supor que viver seja isto, o pior numa vida destas é ele sentir-se satisfeito.»

Stig Dagerman, "O Vestido Vermelho", Antígona, 1989

terça-feira, 23 de março de 2010

o Mal-estar da Civilização #15



SÓCRATES

Um homem que pratica a ginástica e que faça o estudo desta vai prestar atenção ao elogio, à critica e à opinião de qualquer pessoa ou apenas daquele que é o seu médico ou o seu mestre?

CRÍTON
Apenas à deste

SÓCRATES

Portanto, será apenas deste que deve temer a crítica e não apreciar o elogio, sem se preocupar com a maioria.

CRÍTON
É evidente que sim.

SÓCRATES

Assim, deverá agir, exercitar-se, comer e beber como o decidir o único homem que o dirige e é competente, em vez de seguir o parecer de todos os outros reunidos.

CRÍTON
Isso é indesmentível.

SÓCRATES

Estamos, então, de acordo. Mas se ele desobedecer a esse homem único, se desdenhar a sua opinião e os seus elogios para seguir a opiniões da multidão incompetente, não irá sofrer algum mal?

Platão, "Diálogos III - Críton", Pub. Europa-América, 2ª Edição


quinta-feira, 4 de março de 2010

o mal-estar da Civilização #14



Na Suécia,

18% da mulheres foram, numa ou noutra ocasião, ameaçadas por um homem

46% das mulheres suecas foram sujeitas a violência por parte de um homem

13% das mulheres suecas foram vítimas de violência sexual agravada fora de um relacionamento sexual

92% das mulheres que foram vítimas de agressão sexual não denunciaram à polícia o incidente violento mais recente


Stieg Larsson, "Os Homens Que Odeiam as Mulheres", Oceanos, 2008

domingo, 7 de fevereiro de 2010

o Mal-estar da Civilização #13


«Desde quando é que se tornou digno de louvor o facto de alguém possuir uma natureza de escravo? Depois de todos os símbolos do poder terem desaparecido, já não tinhas qualquer razão para obedecer, mas continuaste a fazê-lo. Que força misteriosa te impelia a obedecer às ordens de pessoas tão desgraçadas como tu, tão nuas e miseráveis como tu? Eras demasiado cobarde para tentares fazer como os outros, para experimentares dizer uma vez que fosse ao capitão: vai buscar lenha, preciso de me aquecer à fogueira. Não, tinhas descoberto uma outra solução; enquanto estavas ainda saciado, calculavas friamente que chegaria a hora em que a tua fome seria maior do que a dos outros todos. E então pensavas: em breve ficarei faminto, tornar-me-ei selvagem e sem escrúpulos, revoltar-me-ei, não abertamente, mas de modo dissimulado, contra estes terroristas. Com a cabeça fria, fazias projectos sobre a maneira como utilizarias a tua embriaguez, e é isso que é desprezível. Para que serve o desejo de revolta se te recusas a revoltar-te quando estás saciado?»

Stig Dagerman, "A Ilha dos Condenados", Antígona, 1990

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

o Mal-estar da Civilização #12



«Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso»

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Obra Poética I", Círculo de Leitores, 1992

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

o Mal-estar da Civilização #11


«Não tão viciante como a heroína, menos prejudicial do que o álcool, mas, ainda assim, problemático do ponto de vista ambiental, é o outro grande tranquilizante moderno: ir às compras. Muitas pessoas admitem prontamente que as compras não são tanto um meio de obterem os bens de que precisam, mas a sua principal actividade recreativa. Uma grande dose de compras parece ajudar a ultrapassar a depressão. Ir às compras é o substituto moderno das actividades mais tradicionais da caça e da recolecção. O centro comercial substituiu os antigos territórios de caça. Tal como recolher raízes, sementes e bagas num ambiente árido, as compras podem ocupar uma grande parte do dia. Permitem o desenvolvimento de formas especializadas de conhecimentos e competências. (Como se seleccionam os items certos a recolher? Onde e quando se encontram pechinchas genuínas?) Ir às compras pode até passar por uma actividade útil: o seu componente de lazer pode ser disfarçado ou negado de uma forma que não seria possível se se passasse o dia a jogar golfe.»

Peter Singer, "Como havemos de viver? – a ética numa época de individualismo", Dinalivro, 2005

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

o Mal-estar da Civilização #10



«Os especialistas da fome no mundo (há muitos e trabalham em conjunto com outros especialistas empenhados em fazer-nos acreditar que vivemos num reino de abundantes delícias, embora nenhuma “grande farra” se vislumbre...) vêm comunicar-nos os seus cálculos: o planeta será capaz de produzir a quantidade suficiente de cereais para que ninguém passe fome, mas o que é perturbante nessa visão idílica é o facto dos “países ricos” consumirem abusivamente metade dos cereais, só para alimentação do seu gado. Mas quando se conhece o gosto desastroso da carne que nos chega dos matadouros, proveniente de engorda acelerada à base de cereais, poderá falar-se de “países ricos”? Certamente que não. Não é para nos fazer viver no sibaritismo que uma parte do planeta tem de morrer à fome: é para nos fazer viver na lama. O eleitor, contudo, adora ser lisonjeado quando lhe lembram que o seu coração pode estar a ficar um pouco insensível - ele a viver tão bem enquanto outros países contribuem, à custa dos cadáveres dos filhos, stricto sensu, para que vá engordando. O que agrada ao eleitor, neste discurso, é ouvir dizer que vive como um rico. Sente-se bem a acreditar nisso.»


atribuído a Guy Debord, "Enganar a Fome", frenesi, 2000


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

o Mal-estar da Civilização #9



«[...] incorporámos o inferno no quotidiano do mais fascinante e atroz dos séculos. Basta passar em revista o imaginário deste fim de século -- da ficção à música, do cinema ao teatro, da biologia à tecnologia -- para ter uma ideia do ponto a que chegou um mundo onde o horror se tornou invisível, consumido como pura virtualidade, para ter uma ideia da metamorfose da cultura humana. Pode discutir-se se a desordem em que estamos mergulhados -- desde a económica até à da legalidade e da ética -- releva ou não, em sentido próprio, do conceito de caos. Do que não há dúvidas é de que o habitamos como se fosse o próprio esplendor.»

Eduardo Lourenço, "O Esplendor do Caos", Gradiva, 1998

terça-feira, 27 de outubro de 2009

o Mal-estar da Civilização #8



«Na hora de mais frequência nas ruas, quando a espessa malha da multidão se cruza evitando-se habilidosamente, incansavelmente artista em não chocar os seus guarda-chuvas, os seus carregos de caixas de cartão vazias, podemos meditar na desordem como numa consequência do ritmo de parentesco. Vemos de súbito toda essa gente, vizinha no seu tempo, nos seus desejos, na sua cidade, parecer explodir em direcções diferentes, procurando ignorar-se e precipitando-se nos intervalos livres de um passeio, duma praça. E se aproximássemos a nossa observação até ao nível das suas opiniões notaríamos que elas dependem mais da oposição ao que lhes é idêntico, do que resultam da lógica dos seus interesses. A desordem é a sensibilidade da limitação.»

Agustina Bessa Luís, "Conversações com Dmitri e outras fantasias", Na Regra do Jogo, 1979

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

o Mal-estar da Civilização #7



«Falsos deuses são as duas coisas: tanto testemunhos como produtores da vã procura de uma identidade que nos salve. Enquanto não encararmos realmente de frente o desamor que nos rodeia, não seremos capazes de chegar a uma identidade própria e firmemente enraizada no que realmente somos. Se esse for o caso, a identidade tem de basear-se numa trama exterior: psicodramas e posturas ostensivas em que posses de sentimentos e valores tomam o lugar de uma identidade interior. Isso empurra as pessoas para a dependência de estruturas externas, tal como o estatuto social, posse, ordem, dever e obediência. Quando essas estruturas começam a vacilar devido à sua dinâmica própria, as pessoas que edificaram a sua identidade sobre elas desagregam-se. É esse o solo que não só permite como favorece os falsos deuses! O divino, salvador, que o Homem procura, é procurado no exterior da própria pessoa.»

Arno Gruen, "Falsos Deuses", Paz Editora, 1997

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

o Mal-estar da Civilização #6



“O oficial faz um gesto e o sargento agarrou o miúdo por um braço, tirando a pistola do coldre. «Não, aqui não. Mais longe» disse o oficial, voltando as costas. A criança começou a andar ao lado do sargento, correndo para poder acompanhá-lo. De repente, o oficial voltou-se, levantou a chibata e gritou:
«Um momento!». O sargento voltou-se, olhou para o oficial com ar perplexo, depois voltou atrás, empurrando na sua frente a criança, com a extremidade da mão estendida.
«Que horas são?» perguntou o oficial. Depois, sem esperar pela resposta, começou a andar de um lado para o outro, na frente da criança, batendo nas botas com a chibata. O cavalo puxou pelas rédeas e seguiu-o baixando a cabeça e resfolegando. A certa altura, o oficial parou diante da criança. Fixou-a muito tempo em silêncio e disse-lhe com voz lenta, baixa, contrariada:
«Ouve, não quero fazer-te mal. Não passas de um miúdo. Não faço guerra aos miúdos. Disparaste sobre os meus soldados. Mas eu não faço guerra às crianças. Meu Deus! Não fui eu quem inventou a guerra!». O oficial parou e disse ao rapaz com estranha suavidade:
«Ouve, eu tenho um olho de vidro. É difícil distingui-lo do bom. Se fores capaz de me dizer imediatamente, sem pensar, qual dos dois é o olho de vidro, deixo-te partir em liberdade».
«O olho esquerdo» respondeu imediatamente o rapaz.
«Como o descobriste?»
«Porque é o único que tem expressão humana».”

Curzio Malaparte, "Kaputt", Livros do Brasil, 1962

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

o Mal-estar da Civilização #5


"Hoje que o tempo é outro e a terra é a mesma ainda,
com luzes que devassam a noite, o seu segredo,
e gritos que acesos trespassam o vento, dizei-nos,
de onde somos, que raça habita em nós ainda?"

Paulo Teixeira, "Conhecimento do Apocalipse", & etc., 1988

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

o Mal-estar da Civilização #4



"O cego mexe a sua bengala branca como se tirasse a temperatura à indiferença humana."

Ramón Gómez de La Serna, "Greguerías - Uma Selecção", Assírio & Alvim, 1998