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domingo, 6 de julho de 2014
o Mal-estar da Civilização #43
«Penso que um dos grandes problemas foi que não se acrescentou a participação à compreensão que se faz do mundo. É preciso ter medo, não basta compreender o medo. O peso da modernidade ainda é tão forte que o acto de participação está excluído. E então constroem-se teorias e teorias, mas a essas teorias falta uma coisa que é participar. É essa dimensão biológica que falta à compreensão.»
Rui Nunes, "www.ionline.pt", 2 Set 2013
sábado, 12 de abril de 2014
sexta-feira, 28 de março de 2014
o Mal-estar da Civilização #41
«A compaixão, no homem que vive sob a direcção da Razão, por si mesma é má e inútil.»
Bento de Espinosa, "Ética", Relógio d’Água, 1992
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
o Mal-estar da Civilização #40
«Os homens nunca revelam os verdadeiros objectivos pelos quais actuam. Intimamente, exageram os motivos baixos, materiais: publicamente, anunciam os motivos nobres, espirituais. Mentem em ambos os casos. Os homens não conhecem os outros nem a si próprios.
A maior parte dos homens vive de instinto, hábito e imitação, animalmente - por vezes, com intermédios de felicidade inconsciente. Os poucos superiores sofrem, tentam, desesperam. Os mais elevados são os que desejam apenas as coisas inacessíveis, impossíveis (amor perfeito, arte perfeita, felicidade, eternidade, etc.).
Todos os homens tentam enganar o próximo. Todos os homens procuram superar e dominar o próximo. Todos os homens se imaginam no bem, no passado ou no futuro. Todos homens se esquecem dos verdadeiros fins e fazem dos meios os seus objectivos. Para onde quer que os homens se voltem, depara-se-lhes o impossível. Todos os homens se julgam mais que os outros.
Não basta aos homens possuir um bem, se não for maior que o do próximo. E, obtido um bem, cansam-se dele (saciedade, náusea) - ou então têm medo de o perder e padecem - ou desejam outro. Para obterem um bem imediato, não pensam no mal próximo que advirá.»
Giovanni Papini, “Relatório sobre Os Homens”, Livros do Brasil, 1986
domingo, 1 de dezembro de 2013
o Mal-estar da Civilização #39
«Geralmente, há no facto de ser homem um elemento pesado, fastidioso, que é necessário superar. Mas este peso e esta repugnância jamais haviam sido tão penosos como desde Auschwitz. Como vós e eu, os responsáveis de Auschwitz tinham narinas, uma boca, uma voz, uma razão humana, podiam unir-se, ter filhos: como as Pirâmides ou a Acrópole, Auschwitz é o feito, é o signo do homem. A imagem do homem é doravante inseparável de uma câmara de gás...»
Georges Bataille, "Sartre"
sexta-feira, 21 de junho de 2013
o Mal-estar da Civilização #38
«Não esqueçamos que o progresso é um objectivo facultativo, não um compromisso incondicional, e que o seu ritmo, por compulsivo que possa vir a tornar-se, nada tem de sagrado. Lembremos também que um progresso mais lento na conquista da doença não ameaçaria a sociedade, angustiante como é para aqueles que têm a deplorar o facto de que a sua própria doença ainda não tenha sido vencida, mas essa mesma sociedade ficaria de facto ameaçada pela erosão daqueles valores morais cuja perda, talvez causada por uma busca implacável do progresso científico, faria com que os seus mais deslumbrantes triunfos não valessem a pena. Lembremos enfim que o progresso não pode ter por meta abolir a condição da mortalidade. De um ou de outro mal, cada um de nós morrerá. A nossa condição mortal recai sobre nós com a sua crueldade mas também com a sua sabedoria - porque sem ela não haveria a promessa eternamente renovada da frescura, da imediatez e da sofreguidão da juventude; nem existiria para nenhum de nós incentivo para contarmos os nossos dias e fazer com que valham a pena. Com todo o denodo que pomos em arrebatar o que pudermos à nossa mortalidade, deveríamos suportar-lhe o fardo com paciência e dignidade»
Hans Jonas, "Ética, Medicina e Técnica", Vega, 1994
domingo, 28 de abril de 2013
o Mal-estar da Civilização #37
«Dizem que uma injustiça é, por natureza um bem, e sofrê-Ia, um mal, mas que ser vítima de injustiça é um mal maior do que o bem que há em cometê-Ia. De maneira que, quando as pessoas praticam ou sofrem injustiças umas das outras, e provam de ambas, lhes parece vantajoso, quando não podem evitar uma coisa ou alcançar a outra, chegar a um acordo mútuo, para não cometerem injustiças nem serem vítimas delas. Daí se originou o estabelecimento de leis e convenções entre elas e a designação de legal e justo para as prescrições da lei. Tal seria a génese e essência da justiça, que se situa a meio caminho entre o maior bem — não pagar a pena das injustiças — e o maior mal — ser incapaz de se vingar de uma injustiça. Estando a justiça colocada entre estes dois extremos, deve, não preitear-se como um bem, mas honrar-se devido à impossibilidade de praticar a injustiça. Uma vez que o que pudesse cometê-ia e fosse verdadeiramente um homem nunca aceitaria a convenção de não praticar nem sofrer injustiças, pois seria loucura.»
«Efectivamente, todos os homens acreditam que lhes é muito mais vantajosa, individualmente, a injustiça do que a justiça. E pensam a verdade, como dirá o defensor desta argumentação. Uma vez que, se alguém que se assenhoreasse de tal poder não quisesse jamais cometer injustiças, nem apropriar-se dos bens alheios, pareceria aos que disso soubessem muito desgraçado e insensato. Contudo, haviam de elogiá-lo em presença uns dos outros, enganando-se reciprocamente, com receio de serem vítimas de alguma injustiça.»
Platão, "A República [Livro II]", Fundação Calouste Gulbenkian, 2001
sábado, 23 de março de 2013
o Mal-estar da Civilização #36
«Também eu, excelente homem, tendo familiares; pois que, como diz Homero, não nasci nem dum carvalho, nem dum rochedo, mas de seres humanos.»
Platão, "Diálogos III - Apologia de Sócrates", Pub. Europa-América, 2ª Edição
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
o Mal-estar da Civilização #35
« - E relativamente ao Ivan Matveitch? Já lá vamos. Aqui estamos nós, ansiosos por trazer o capital estrangeiro para o país e, apenas isto em conta: no momento em que o capital de um estrangeiro, que foi atraído para Petersburgo, se duplicou através do Ivan Matveitch, em vez de estarmos a proteger o capitalista estrangeiro propomo-nos a abrir a barriga do seu capital original, o crocodilo. Acha consistente?
- Na minha opinião, Ivan Matveitch, enquanto verdadeiro filho da pátria, deveria regozijar-se e ficar orgulhoso por, através dele, o valor de um crocodilo estrangeiro ter duplicado e possivelmente até triplicar. É isso que se pretende, para atrair capital. Se um homem for bem-sucedido, repare, aparecerá outro com um crocodilo, um terceiro trará dois ou três de uma vez e o capital irá crescer em volta deles e aí terá a burguesia. Isto tem de ser incentivado.»
Fiódor Dostoiévski, "O Crocodilo", Estrofes & Versos, 2011
domingo, 20 de janeiro de 2013
o Mal-estar da Civilização #34
«À medida que os computadores encolheram até ao tamanho de iPhones e BlackBerrys, o banquete passou a ser volante, disponível a qualquer hora, em qualquer lugar. Em casa, no trabalho, no carro, na sala de aula, na carteira, no bolso. Mesmo aqueles que estão conscientes da influência sempre crescente da Internet, raramente permitem que as suas preocupações interfiram com o uso que fazem e com o modo como desfrutam da tecnologia.
O crítico de cinema David Thomson afirmou uma vez que “as dúvidas podem-se tornar fracas face à certeza do meio”. Ele estava a falar do cinema e de como ele projecta as suas sensações e sensibilidades não só na tela mas também em nós, a plateia absorta e complacente. A sua afirmação aplica-se com mais força ainda à Internet. O ecrã do computador desfaz as nossas dúvidas com as suas benesses e comodidades. É tão bom como nosso servo que pareceria indelicado sublinhar que é também nosso amo.»
Nicholas Carr, "Os Superficiais - O que a internet está a fazer aos nossos cérebros", Gradiva, 2012
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
o Mal-estar da Civilização #33
«Nunca viste uma criança conduzindo um carrito de mão, a descer uma encosta? Ela o guia; mas, se o abandona à inércia, será imediatamente arrastada. Assim é a civilização. Ela compõe-se dum conjunto de instrumentos de acção humana, ela é mesmo o depósito da cooperação social; mas se o espírito criador adormece, será o conflito social, a escravidão do fim humano aos meios materiais. Tudo isto é, no plano prático imediato, a repetição do que aconteceu no longínquo plano metafísico. O homem abandonou os instrumentos da sua acção cósmica, do poder criador que os gerou; eles o irão governar e toda a sua vida, perdendo o significado metafísico, o valor total, será dispersa em fragmentos de fingida realidade, pálido arremedo do seu maciço ser de liberdade.»
Leonardo Coimbra, "Obras de Leonardo Coimbra I", Lello & Irmão - Editores, 1983
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
o Mal-estar da Civilização #32
«No asco aos animais, a sensação dominante é o medo de, pelo contacto, ser reconhecido por eles. Aquilo que ao homem profundamente repugna é a consciência obscura de que em si há algo vivo que é tão pouco diferente ao animal asqueroso, que a pessoa poderia vir a ser reconhecida por ele. Todo o asco é primordialmente um asco ao contacto. E o próprio autodomínio só ultrapassa este sentimento com movimentos repentinos e excessivos: aquilo que provoca o asco é vigorosamente enlaçado, devorado, enquanto a zona de delicado contacto epidérmico permanece tabu. Só assim se pode explicar o paradoxo do imperativo moral que exige do homem, a um só tempo, a superação e o mais subtil desenvolvimento do sentimento de repulsa. Ele não pode negar o parentesco animal com a criatura, a cuja alusão responde com a repulsa: tem de tornar-se senhor dela.»
Walter Benjamin, "Rua de Sentido Único e Infância em Berlim por Volta de 1900", Relógio D'Água, 1992
sábado, 28 de julho de 2012
o Mal-estar da Civilização #31
«O que há de nocivo no que se come para enganar a fome não se limita a tudo o que isso suprime, alastra também a tudo o que transporta consigo apenas pelo simples facto de existir, segundo um esquema que se aplica a cada nova produção do velho mundo. Os alimentos, que perderam todo o seu gosto, acabam por ser apresentados como higiénicos, dietéticos e saudáveis, por oposição às arriscadas aventuras das formas pré-científicas de alimentação.»
atribuído a Guy Debord, "Enganar a Fome", frenesi, 2000
segunda-feira, 16 de julho de 2012
quinta-feira, 5 de julho de 2012
o Mal-estar da Civilização #29
«Diz aos teus amigos e conhecidos que, se não voltares, é porque o teu sangue parou e se imobilizou ao ver estas cenas atrozes e bárbaras, ao ver como pereceram as crianças inocentes e sem protecção do meu povo só e abandonado.
Diz-lhe que, se o teu coração se transformar em [pedra], o teu cérebro em frio mecanismo de pensamento e o teu olho em simples máquina de fotográfica, também não voltarás ao seu encontro.»
Z. Gradowski
terça-feira, 19 de junho de 2012
o Mal-estar da Civilização #28
«Os moralistas teóricos chamam “boas” apenas às acções que são expressão de moções pulsionais boas, e negam o seu reconhecimento às demais. Mas a sociedade, guiada por propósitos práticos, não se preocupa com tal distinção; contenta-se com que um homem oriente o seu comportamento e as suas acções segundo as prescrições culturais, e não se interroga sobre os seus motivos.
Vimos que a coerção externa, exercida sobre o homem pela educação e pelo meio ambiente, suscita uma ulterior transformação da sua vida pulsional no sentido do bem, uma viragem do egoísmo para o altruísmo. Mas este não é o efeito necessário ou regular da coacção exterior. A educação e o ambiente não se limitam a oferecer prémios de amor, mas lidam também com prémios de outra natureza, com a recompensa e o castigo. Podem, pois, fazer que o indivíduo submetido à sua influência se resolva a agir bem, no sentido cultural, sem que nele tenha realizado um enobrecimento das pulsões, uma mutação das tendências egoístas em tendências sociais. O resultado será, no conjunto, o mesmo; só em circunstâncias especiais se tornará patente que um age sempre bem, porque a tal o forçam as suas inclinações pulsionais, mas o outro só é bom porque tal conduta cultural traz vantagens aos seus intentos egoístas, e só enquanto e na medida em que as procura. Nós, porém, com o nosso conhecimento superficial do indivíduo, não temos meio algum de distinguir os dois casos, e o nosso optimismo induzir-nos-á decerto a exagerar desmesuradamente o número dos homens transformados pela cultura.»
Albert Einstein, Sigmund Freud, "Porquê a Guerra? Reflexões sobre o destino do mundo", Edições 70, 1997
domingo, 3 de junho de 2012
o Mal-estar da Civilização #27
«Há muitos anos que os meus pensamentos não visam outro alvo que senão eu mesmo, que só me examino e estudo a mim próprio, e se outra coisa venho a estudar, é para logo a aplicar a mim, ou, mais bem dito, em mim. E não me parece laborar em erro se, tal como se faz com outras ciências, incomparavelmente menos úteis, eu partilhar o que aprendi com esta, conquanto não esteja muito satisfeito com os progressos que nela fiz. Não há descrição tão difícil como a de si mesmo, nem, decerto, tão útil. Ademais, é preciso pentear-se, preparar-se e arranjar-se para se apresentar em público. Ora eu estou incessantemente a enfeitar-me porque incessantemente estou a descrever-me.»
Montaigne, "Ensaios", Relógio d'Água, 1998
sexta-feira, 6 de abril de 2012
o Mal-estar da Civilização #26
«O mal-educado não tirava o chapéu em nenhuma situação. Nem às senhoras quando passavam, nem em reuniões importantes, nem quando entrava na igreja.
Aos poucos a população começou a ganhar repulsa pela indelicadeza desse homem, e com os anos esta agressividade cresceu até chegar ao extremo: o homem foi condenado à guilhotina.
No dia em questão colocou a cabeça no cepo, sempre, e orgulhosamente, com o chapéu.
Todos aguardavam.
A lâmina da guilhotina caiu e a cabeça rolou.
O chapéu, mesmo assim, permaneceu na cabeça.
Aproximaram-se, então, para finalmente arrancarem o chapéu àquele mal-educado. Mas não conseguiram.
Não era um chapéu, era a própria cabeça que tinha um formato estranho.»
Gonçalo M. Tavares, "O Senhor Brecht", Caminho, 2004
domingo, 25 de março de 2012
o Mal-estar da Civilização #25
«- A libertação das algemas e o voltar-se das sombras para as figurinhas e para a luz e ascensão da caverna para o Sol, uma vez lá chegados, a incapacidade que ainda têm de olhar para os animais e plantas e para luz do Sol, mas, por outro lado, o poder contemplar reflexos divinos na água e sombras, de coisas reais, e não, como anteriormente, sombras de imagens lançadas por uma luz que é, ela mesmo, apenas uma imagem, comparada com o Sol - são esses os efeitos produzidos por todo este estudo das ciências que analisamos; elevam a parte mais nobre da alma à contemplação da visão do mais excelente seres, tal como há pouco a parte mais clarividente do corpo se elevava à contemplação do objecto mais brilhante na região do corpóreo e do visível.»
Platão, "A República", Fundação Calouste Gulbenkian, 2001
domingo, 26 de fevereiro de 2012
o Mal-estar da Civilização #24
«Dancei num matadouro, como se o sangue de todos os animais que à minha volta pendiam degolados fosse o meu. Dancei até que em mim houvesse espaço para um poema de que todas as imagens depois fossem desertando.
A luz que desse sangue irradiava, como se nele o sol tivesse mergulhado e os raios nele se houvessem diluído, atravessava-me os poros e fazia-me cantar o coração. Tratava-se de uma luz que nada tinha a ver com a piedade ou a esperança, mas cuja música, sem me passar pelos ouvidos, ia direita ao coração, que no dos animais acabados de abater por momentos encontrava um espelho ainda quente, tão diverso da algidez que habitualmente neles impera.
Só num espelho assim saído há pouco das entranhas dum ser vivo se desenha a nossa verdadeira imagem, ao invés da frigorífica mentira onde é comum a vermos esboçar-se. Só esse espelho capta a espessa luz em que parecem ter-se consumido os próprios astros, essa luz que com os objetos que ilumina se confunde numa única substância capaz de arrancar-nos à treva e de dar cor à santidade.
A luz do néon, ante aquela de que se esvazia o coração dum porco, é uma metáfora de impacto reduzido. A luz que das vísceras emana é a de deus, aquela que, por uma excessiva dose de trevas misturada, mais que qualquer outra se aproxima da de deus, que resplandece nas carcaças em costelas onde é fácil pressentir as incipientes asas de algum anjo.
O berro do animal que qualquer faca anónima remete à condição daqueles cujo sangue se escoe ao nosso lado é o único som a que dançar merece a pena. O dia declinou-lhe nas entranhas, quantas manhãs as percorreram absorvidas pelas aberturas dos seus olhos mais não são agora do que um rastro de lume sobre a lâmina e nos baldes onde pinga, reduzidas a um furtivo clarão de dignidade de que todos de repente nos sentimos órfãos.»
Luís Miguel Nava, "Poesia completa, 1979-1994", Publicações Dom Quixote, 2002
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