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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

diário dos mesmos pesares #20


«Surpreende-me e irrita-me - pois pertenço a essa espécie - o humilde contentamento dos humanos. Falam a todo o momento de grandezas - the diggest in the world - e a seguir descobre-se que lhes parece imensa qualquer modesta pequenez. Falta, em absoluto, a todos o senso do gigantesco. Falam como Sansões e agem como o Pequeno Polegar.»

Giovanni Papini, "Gog", Livros do Brasil, 1988

terça-feira, 2 de outubro de 2012

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

diário dos mesmos pesares #18


«A história é simples. Conta-se em poucas palavras. Mas é tão poética na sua aparência externa que mais parece ficção que realidade. O jovem a que me refiro sabia que ia morrer dentro de meia dúzia de dias. Apesar disso, quando falei com ele, mostrou-se alegre. "Agradeço ao destino o ter-me ferido tão duramente", disse-me ele textualmente, "porque a minha vida anterior, a minha vida burguesa, era demasiado cómoda, e as minhas ambições espirituais, mesquinhas".
Nos últimos dias, concentrava-se cada vez mais em si próprio: "Essa árvore", disse-me ele apontado através da janela do barracão, "é o único amigo que tenho no meio da minha solidão". Havia realmente fora da barraca um castanheiro em flor, que nós podíamos ver da tarimba. "Às vezes, falo com ela", acrescentou.
Confesso que não sabia como interpretar as suas palavras. Estaria ele a delirar ou com alucinações? Movido pela curiosidade, perguntei-lhe se a árvore também falava com ele. "Sim." "E que é que lhe diz?" E ele responde-me: "Diz-me assim: "Estou aqui - estou aqui; eu sou a vida"...»  

Viktor Frankl, "Um psicólogo no campo de concentração", Nova Vega, 2008

quarta-feira, 18 de julho de 2012

diário dos mesmos pesares #17


«Assim, as coisas já não eram tão simples como no começo, ele passava a erguer barricadas no pensamento, na esperança de um dia poder combater em cima delas: durante a noite, ficava horas e horas acordado, aparentemente calmo, mas tremendamente perseguido por si próprio ao longo da praia, no alto dos rochedos, através da selva e de novo na falésia, no fundo de uma fenda a pique onde os pés e as mãos mal achavam onde se agarrar.»


Stig Dagerman, "A Ilha dos Condenados", Antígona, 1990

sexta-feira, 8 de junho de 2012

diário dos mesmos pesares #16


«Cada homem é a medida do Universo.»


Teixeira de Pascoaes, "Aforismos", Assírio & Alvim, 1998


«Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.»


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Obra Poética I", Editorial Caminho, 1992

sábado, 19 de maio de 2012

diário dos mesmos pesares #15



«Lilith pegou no veneno e sacudiu-o. Como se faz a um lençol coberto de migalhas.
Pela boca se morre mais do que pelo tacto. No caso do veneno.




Mas a morte é uma função do tacto, é um efeito que toca. Não é saboreado, ou cheirado, ou visto. A morte não é algo que entre pelos olhos como a cor ou a forma de uma coisa. A morte toca. Morrer-se porque se tem o sentido do tacto. Poderemos não ter todos os outros sentidos, mas possuindo o tacto somos mortais.
Só é imortal o que não pode ser tocado.
Só é mortal o que pode ser tocado.




Mas, repara: o passado não pode ser tocado. Experimenta tocar em algo que sucedeu ontem ou há seis séculos. O passado é intocável, é imortal.
Como já acabou, não acaba. Que estranho, dirás.




Mas a morte vem em diferentes estados de matéria. A morte poderá surgir no estado gasoso; no estado líquido (água envenenada); ou no estado sólido: um sólido mortal (faca, bala)




Como se a morte tivesse diferentes temperaturas.       
Como se a morte fosse uma substância que tolerasse grandes variações de temperatura. No grande frio e no grande calor: prossegue.




Mas num dia frio, pede-se que a morte venha a temperaturas altas. Para compensar, alguém dirá.»




Gonçalo M. Tavares, "Breves Notas sobre as Ligações (Llansol, Molder, Zambrano)", Relógio d'Água, 2009

terça-feira, 1 de maio de 2012

diário dos mesmos pesares #14


Sofremos com nojo a pertença em nós
inculcada de uma geração, as suas taras
vindas de longe, modos diferentes
de se ser igual. Com uma raiva triste,
vemo-los foder, procriar, indo aos poucos
definhando, esperados que são
por pós-modernos jazigos.


Não há nada a fazer,
nenhuma palavra nos salva.
Somos sempre contemporâneos da merda.


Manuel de Freitas, "A última Porta (Antologia)", Assírio e Alvim, 2010


segunda-feira, 19 de março de 2012

diário dos mesmos pesares #13



«O meu pai morreu no dia 10 de Junho, há dois meses e meio. Pouco antes o Miguel perguntou-lhe – O que é que gostava de nos ter transmitido? e ele respondeu, sem hesitações – O amor das coisas belas pensou um bocadinho e acrescentou – Ou pelo menos das coisas que eu considero belas. Sou eu que ocupa agora o seu lugar à mesa, na cadeira de braços, na extremidade oposta ao sítio em que costumava sentar-me. O mundo parece diferente visto da cabeceira. Ainda não me habituei por completo. Julgo que me encontro em paz com ele. Desde os dez ou onze anos a minha vida tem um sentido de que nunca se afastou, e me acompanhará, com a mesma determinação, até ao fim: escrever. Toda a minha arquitectura mental a construí com esse objectivo e o resto encaro-o como secundário. Nunca quis agradar a ninguém, nunca procurei reconhecimento nem aplauso e, portanto, nunca pedi muito ao meu pai, e a sua opinião era-me igual ao litro. Um mérito ele e a minha mãe tiveram, e estou-lhes grato por isso: não me encheram de amor e atenção, o que teria matado em mim o artista: no que diz respeito às emoções mais secretas estive sempre sozinho. Em contrapartida, a criatura de quem herdei o lugar à mesa inculcou-me o ódio impiedoso a três coisas: a desonestidade, a cobardia e a falta de rigor. Tão pouco lhe escutei, uma vez sequer, um exagero, uma mentira. Recebi dele o desprezo ou indiferença pelas coisas materiais, a frugalidade e, sobretudo, o tal amor das coisas belas: nada mau como legado. Não existiram, entre nós, efusões, confidências, pieguices: não era meu amigo, era apenas meu pai. Não era amigo dele, era seu filho. Durante dois meses e meio tenho pensado no que sinto em relação a um homem com o qual não possuo a menor semelhança física e cujo feroz egoísmo, cuja impulsiva violência me surpreendiam. (serei assim tão diferente?) e é-me difícil explicar. Em que medida foi importante para mim? Amava-o? Faz-me falta? Como responder a estas três questões? É muito clara, na minha cabeça, a noção que me fiz a mim mesmo, sem ajudas, e que, com qualquer outra família, a minha existência teria sido idêntica. Quanto ao amor não sei: afigura-se-me que não é uma palavra que possa aplicar à minha relação com o meu pai e, no entanto, um estranho elo me prende à sua lembrança: não o consigo definir, o que não me inquieta demasiado. Quanto a fazer-me falta julgo que me faz falta no sentido em que cresci junto dele, junto dele e longe dele ao mesmo tempo. Era eu muito pequeno e dizia-me poemas, dava-me livros para ler, falava com entusiasmo dos seus pintores, dos seus compositores, dos seus escritores, que só parcialmente são os meus. O meu pai não foi uma pessoa criativa, não detinha o mínimo sentido de humor embora o notasse capaz de apreciar o dos outros, mas viveu apaixonado pelo seu trabalho, pelas coisas que considerava belas, espero que por mulheres também. Suponho que foi feliz, seja o que for que isso signifique. Irascível, cruel, ciumento, perdoando-se unicamente a si, era igualmente capaz de guinadas de generosidade e de autêntico afecto. Contraditório, infantil, comodista. Estava aqui a fazer esta crónica e vieram-me à ideia os seus letreiros: o tubo de cola com um papel que dizia: ESTA COLA É DO PAI NÃO MEXER em maiúsculas e sublinhado, a tampa de uma lata de tinta com que andava a pintar, não me lembro o quê, na Praia das Maçãs, e ISTO NÃO É CINZEIRO e creio que a melhor homenagem que lhe fizeram foi a do meu irmão Nuno: estava o corpo na igreja, na antecâmara, numa mesinha, de toalha preta, a salva para os cartões-de-visita, o Nuno, em maiúsculas e sublinhado, encostou à salva ISTO NÃO É CINZEIRO e tenho a certeza absoluta que o meu pai teria adorado. No dia da sua morte fomos os seis filhos, juntos, ao Hospital da CUF: parecíamos um comando da Al Qaeda. Não, faltava o João que tinha ido a Bragança receber um penduricalho presidencial: fomos os outros cincos mas parecíamos um comando da AL Qaeda na mesma, em versão pele branca e olho azul. Isso ele teria adorado também, espero eu. Levávamos-lhe a roupa, aquela vestimenta comprida de professor. Claro que chorei: por ele, por mim, pela incompreensível finitude da vida: não somos feitos para a morte. Depois da missa disse-lhe um soneto do seu amado Antero. E lá ficou, consoante o seu desejo, em campa rasa, num caixão de pobre. Tive vontade, ao dar com ele no caixão, de lhe pôr em cima um letreiro ISTO NÃO É O MEU PAI porque o meu pai não era aquele. O meu pai é um homem de trinta anos a jogar ténis na Urgeiriça e a fazer fosquinhas às inglesas. O meu pai é um homem de trinta e tal ou quarenta anos a entrar-me no quarto, onde eu fumava às escondidas, de papéis na mão, a ler-me um parágrafo qualquer da tese de doutoramento, em que penou durante séculos, para me perguntar – O que é que achas? Eu nem o ouvia, ocupado a esconder o cigarro, e respondia-lhe que achava bem para o ver pelas costas. Há uma semana reli a sua tese, pai, com a atenção que pedia a um adolescente desesperado para disfarçar uma beata. Posso responder-lhe hoje que acho bem. Palavra de honra que acho bem. Volte para o escritório sossegado que escreveu uma tese do caneco. E, já agora, tenho saudades do cheiro do cachimbo. Tenho saudades de irmos de automóvel para Nelas. Tenho saudades de patinarmos no Benfica. O Nuno, aos três anos, com uma peritonite – Eu vou morrer e quero o meu paizinho. Isto nunca esqueci. Ia morrer (foi um milagre não ter morrido) e queria o paizinho dele. Sempre que lembro esta frase comovo-me tanto: – Eu vou morrer e quero o meu paizinho. esta frase e a cara de sofrimento do meu irmão. Foi graças a si que ele não morreu. Foi graças a si que não morri da meningite. Não pense que me esqueço. Não esqueço. Paizinho»

António Lobo Antunes, "Ajuste de Contas", Visão, 9 de Setembro de 2004 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

diário dos mesmos pesares #12


«Se pudermos considerar a linguagem uma velha cidade com um emaranhado de ruas e de praças, com bairros que remontam longe no tempo, com quarteirões demolidos, limpos e construídos de novo e subúrbios que se vão alargando ao campo circundante, eu serei uma pessoa que, após uma longa ausência, já não consegue encontrar o caminho neste aglomerado, já não sabe para que serve uma paragem de autocarro, o que é um saguão, um cruzamento, uma avenida ou uma ponte. Todo o articulado da língua, o ordenamento sintáctico de cada elemento, pontuação, conjunções e por fim até mesmo os nomes das coisas vulgares, tudo ficou mergulhado numa neblina impenetrável. Também o que eu próprio tinha escrito no passado, isso particularmente, deixei eu de entender. Estava sempre a pensar: portanto, uma frase, uma coisa pretensamente cheia de sentido, é na verdade quando muito um expediente medíocre, uma espécie de excrescência da nossa ignorância com a qual tacteamos às cegas a escuridão que nos rodeia, do mesmo modo que muitas plantas e animais marinhos usam os seus tentáculos. Precisamente o que de costume contém a expressão de uma inteligência bem orientada, a exposição de uma ideia mediante certa competência estilística, não passava, parecia-me então, de empresa de todo arbitrária ou ilusória. Já não via coerência alguma, as frases diluíam-se em muitas palavras isoladas, as palavras numa série de conjuntos de letras aleatórios, as letras em sinais desmantelados e estes num rasto cor de chumbo com reflexos prateados aqui e além que alguma criatura rastejante tivesse segregado e deixado como rasto e cuja visão me enchia cada vez mais de sentimentos de horror e vergonha.»


W. G. Sebald, "Austerlitz", Editorial Teorema, 2004 

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

diário dos mesmos pesares #11



«Sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro!.»


Clarice Lispector, "Perto do Coração Selvagem", Relógio D'Água, 2000

segunda-feira, 13 de junho de 2011

sexta-feira, 3 de junho de 2011

diário dos mesmos pesares #9



«Será que este caminho tem coração? Se tem, o caminho é bom; se não tem, não presta. Nenhum dos caminhos leva a parte alguma; mas um tem coração, o outro não tem. Um proporciona uma viagem com alegria; na medida em que se o seguires, serás uno com ele. Outro levar-te-á a amaldiçoar a vida.»

Don Juan

Tobias Schneebaum, "Lá onde o rio te leva", Antigona, 1990

terça-feira, 17 de maio de 2011

diário dos mesmos pesares #8



«Até aqui nunca lho expliquei, não pense que por deslealdade, mas simplesmente não vamos pôr-nos a explicar às pessoas que de vez em quando vomitamos um coelhito. Como sempre me aconteceu estando sozinho, guardava o facto como se guardam tantas referências do que acontece (ou fazemos acontecer) absolutamente em privado. Não me critique, Andrée, não me critique. Acontece que, de vez em quando, vomito um coelhito. Não é motivo para não viver em qualquer casa, não é motivo para ter vergonha e isolar-me e andar calado.»

in "Carta a Uma Rapariga em Paris"

Julio Cortázar, "Bestiário", Publicações Dom Quixote, 1986

segunda-feira, 11 de abril de 2011

diário dos mesmos pesares #7





















«Aqui
É tudo,
Nada
Entre Tudo e Nada.
Movimento
Gosto
E
Quando
Mais
Fim,
Causa Amante.»

MGL

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

diário dos mesmos pesares #6



«Odiava, odiava, odiava o mundo. Odiava e evitava tudo o que existia, se movia e vivia. E então chegaste tu, fresco, tolo, desajeitado, insolente e com o aroma de emoções incorruptas em flor, e eu, como é natural, reagi com violência, mas assim que te vi sabia já que tu eras um esplêndido rapaz, caído do céu, enviado e oferecido, assim me parecia, por um deus omnisciente.»

Robert Walser, "Jakob van Gunten", Relógio d´Água, 2005

quinta-feira, 27 de maio de 2010

diário dos mesmos pesares #5



«A Indústria da Poesia
New Parthenon, 27 de Maio.

Renunciei, há muito, a todas as minhas direcções e participações industriais para comprar a coisa mais cara do Mundo - no sentido económico e moral: a liberdade. Um luxo que não está hoje ao alcance nem mesmo de um simples milionário. Suponho que sou um dos cinco ou seis homens quase livres que vivem na Terra.
Mas, quando alguém se entregou ao vício dos negócios durante tantos anos, é quase impossível conseguir que este não torne a recrudescer. No passado, veio-me o desejo de criar uma pequena indústria, a fim de poder subtrair-me às grandes e pesadas. Queria que fosse absolutamente nova e que não exigisse grande capital.
Ocorreu-me, então, a poesia. Esta espécie de ópio verbal, ministrado em pequenas doses de linhas numeradas, não é, certamente, género de primeira necessidade, mas a verdade é que alguns homens não podem prescindir dele. Ninguém pensou, todavia, a organizar de um modo racional a fabricação de versos. Isso tem sido deixado, sempre, ao capricho da anarquia pessoal. A razão desta negligência reside, provavelmente, no facto de , embora florescente, uma indústria, poética deve dar lucros bastantes modestos, já pela dificuldade - não digo impossibilidade - de adoptar máquinas, já pela escassez de consumo de produtos.
Para mim, não se tratava da questão de dinheiro, mas de curiosidade.»

Giovanni Papini, "Gog", Livros do Brasil, 1988

domingo, 18 de abril de 2010

diário dos mesmos pesares #4



«Entra pela janela aberta o rumor da avenida. E do parque entre os prédios, um músico ambulante toca o seu saxofone. É um som volumoso, oco, tem nos finais vibrações melodiosas. É uma música nostálgica, de uma lentidão genesíaca. E a toada sobe por entre o rumor do tráfego. E paira ao alto como uma estrela.»

Vergílio Ferreira, "Pensar"‎, Bertrand Editora, 1992

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

diário dos mesmos pesares #3




«Um Diário destes não magoa», pensa a rapariga, folheando
O seu caderno: «Apaga os passos que dei até aqui».
E imagina que a espera um espaço imenso. Páginas adiante,
A letra torna-se irregular, a simetria esvai-se confusa.
Não foi, certamente, o espaço que dela se abeirou. Não.
Também não foi o amor, como se poderia pensar.
Foi o Género. Pegou no Diário e fê-lo romance. É assim.
Só estranho o novo corpo que lhe foi dado.»

Maria Gabriela Llansol, "O Começo de um Livro é Precioso", Assírio e Alvim, 2003

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

diário dos mesmos pesares #2



Quarta-feira à noite [17 de Dezembro de 1941]

«E assim é a vida: um caminhar de um momento de redenção para outro. E talvez eu tenha de procurar muitas vezes a minha redenção num pedaço de prosa, tal como por vezes um homem em grande necessidade procura aquilo a que se chama, de modo plástico, uma puta, porque às vezes uma pessoa brada pela redenção, sem que interesse a forma.»

Etty Hillesum, "Diário 1941-1943", Assírio & Alvim, 2008

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

diário dos mesmos pesares #1



26 de Novembro

Às vezes digo para comigo: o teu destino não tem nenhum com que se compare: podes considerar todos os outros homens felizes... nunca mortal algum sofreu como tu.
Depois leio qualquer poeta de outros tempos e parece-me que estou lendo no meu próprio coração. Tenho tanto a suportar! Já haveria antes de mim homens tão infelizes como eu sou?

Goethe, "Werther", Guimarães Editores, 1998