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quinta-feira, 3 de julho de 2014

diário dos mesmos pesares #40











«Tão indiferente
Consumiste na força bravia
Todo o encanto das coisas que havia
E lançaste na praia ardente
Náuseas e pragas
Despojos de almas
As carnes em chagas
As mágoas
Condenaste-me à noite
De sangue e fogo
E vento e sombras
Ao teu quebranto
Mas deixa-me ao menos
O corpo despido
Em descanso»


Fausto, "Por Este Rio Acima", O que a vida me deu, 1982


sexta-feira, 13 de junho de 2014

diário dos mesmos pesares #39



«Muitas vezes vos disse: reinaria a noite e faria frio
Sobre a Terra, e em miséria consumir-se-ia
A alma, se de tempos a tempos não enviassem
Os deuses, bons, tais jovens
Para dos homens a vida estiolada refrescar.» 

Friedrich Hölderlin, "A Morte de Empédocles", Relógio d'Água, 2012

terça-feira, 20 de maio de 2014

diário dos mesmos pesares #38



























«O escritor que alguma vez desceu ao mercado começa por olhar em volta, como num «panorama»
Um género literário específico faz as suas primeiras tentativas de orientação. É a literatura panorâmica.» 

Walter Benjamin, “A Modernidade”, Assírio & Alvim, 2007



segunda-feira, 21 de abril de 2014

diário dos mesmos pesares #37

«No lance do verbo jogo,
Mas, se vigio o meu lado, 
A boca sabe-me a fogo 
Do sentido inesperado.»


«Flato de voz é morte irreparável, 
Só Verbo é vida: 
Aquele que tenta o inefável 
Fala de voz proibida.»

Vitorino Nemésio, "O Verbo e a Morte", Moraes Editora, 1959

sábado, 1 de março de 2014

diário dos mesmos pesares #36



«Hoje de manhã, ao acordar,
pensei:
hoje, o amor vai assaltar-te
embora não soubesse como ele é
nem o que vale.»


Jürgen Theobaldy in "A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas", selecção e tradução de João Barrento, Relógio D' Água, 2001

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

diário dos mesmos pesares #35



«Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida. Desde que Tomas conhecera Tereza, nenhuma mulher tinha o direito de deixar qualquer marca, por mais efémera que fosse, nessa zona do seu cérebro.» 

Milan Kundera, "A Insustentável Leveza do Ser", Dom Quixote, 2013

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

diário dos mesmos pesares #34
























«O homem mais forte do mundo é aquele que está mais só»

Henrik Ibsen, "O Inimigo do Povo", 1882

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

diário dos mesmos pesares #33










«encosto a face à parede
mais triste do quarto, fiel


guardiã do sol posto.



o coração que me deixaste

é uma casa difícil de habitar.»


Renata Correia Botelho, "Um Circo no Nevoeiro", Averno, 2009

terça-feira, 15 de outubro de 2013

diário dos mesmos pesares #32



«Meu amor - que amor? Não és tu. És, és. Não és. Na realidade não sei. Na realidade há o que existe, o que se diz um facto, o que se avalia ao quilo ou ao quilómetro. E há o que nos existe, aquilo que está por dentro ou nós por dentro disso - vou amar o teu corpo como nunca te amei. Um corpo é tão misterioso e o nosso mistério com ele. Tenho muita coisa a dizer-te, isso que espere. Porque eu amei o teu corpo de tanta maneira, não sei se contigo também aconteceu assim. Ama-se um corpo como instrumento de amar, como forma de onanismo de que o trabalho é dele. Ou como êxtase de um terror paralítico. Ou como orientação ao impossível que não está lá. Com raiva desespero de quem já não pode mais e não sabe o quê. Como avidez insuportável não de o ter tido na mão, porque o podemos ter nela, sofregamente, boca seios o volume quente harmonioso da anca e tudo esmagar-se até à fúria, ter o que aí se procura e que é o que lá está, mas não o que está atrás disso e é justamente o que se procura e se não sabe o que é nem jamais poderemos atingir.» 


Vergílio Ferreira, "Em Nome da Terra", Bertrand Editora, 1990

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

diário dos mesmos pesares #31


«Olho a minha face no espelho para saber quem sou, para saber como me portarei dentro de algumas horas, quando me defrontar com o fim. A minha carne pode ter medo; eu não.»

Jorge Luis Borge, "O Aleph", Editorial Estampa, 1988

sábado, 20 de julho de 2013

diário dos mesmos pesares #30


« - [O que tenho?] - disse ele - Nada de especial. Tenho... um décimo de segundo a mostrar que não está pelos ajustes... Espere... Há momentos em que o meu corpo se ilumina... É muito curioso. De repente fico-me visível... distingo o fundo das minhas camadas de carne, sinto zonas de dor, anéis, pólos, coroas de dor. Está a ver estas figuras vivas?, a geometria do meu sofrimento? Alguns destes relâmpagos parecem realmente ideias. Fazem compreender - daqui até ali... E no entanto deixam-me incerto. Incerto será a palavra... Quando isto está para vir, acho qualquer coisa de confuso ou difuso em mim. No meu ser formam-se lugares... enevoados, parecem lonjuras. Apanho na memória uma pergunta, uma questão qualquer... E meto-me nela a fundo. Conto grãos de areia... e, enquanto os vou vendo... - A dor crescente obriga-me a examiná-la. Penso nela! - Só espero pelo meu grito... e, mal o oiço - o objecto, o terrível objecto, faz-se pequeno, cada vez mais pequeno, furta-se à minha visão interior...» 
Paul Valery

Italo Calvino, "Seis Propostas para o Próximo Milénio", Editorial Teorema, 2007

quarta-feira, 10 de julho de 2013

diário dos mesmos pesares #29


«Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
 - Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.»  

Herberto Helder, "Ou o Poema Contínuo", Assírio & Alvim, 2001

domingo, 26 de maio de 2013

diário dos mesmos pesares #28


«Todos os homens vivem rodeados de linhas de baleias. Todos nascem com cordas em volta do pescoço; é apenas quando se encontram perante uma morte súbita e rápida que os mortais percebem os perigos silenciosos, subtis e sempre presentes da vida. E se vós sois filósofos, embora sentados numa baleeira, não sentireis no vosso coração mais terror do que se vos encontrásseis sentados diante do fogo da lareira, com um atiçador e não com um arpão ao alcance da mão.» 

Herman Melville, "Moby Dick", Relógio D'Água, 2007  

quarta-feira, 1 de maio de 2013

diário dos mesmos pesares #27





















«[...] algumas pessoas são levadas a crer que fazer dinheiro constitui o objecto da gestão doméstica e pensam que tudo o que há a fazer na vida é aumentar o seu pecúlio sem limites [...]; alguns homens transformam qualquer qualidade ou arte num meio de fazer dinheiro: concebem isto como fim e todas as coisas têm de contribuir para a promoção desse fim»  

Aristóteles, "Política", Vega, 1998

quinta-feira, 25 de abril de 2013

diário dos mesmos pesares #26


 «Nos regimes fascistas da primeira metade do século XX, estabilizou-se absurdamente a forma obsoleta da economia, e multiplicou-se o terror de que ela necessita para se manter em pé, e agora o seu absurdo vem totalmente à luz do dia. Mas também por ele está caracterizada a vida privada. Com o poder de disposição implantou-se, uma vez mais e simultaneamente, a asfixiante ordem do privado, o particularismo dos interesses, a já há muito ultrapassada forma da família, o direito de propriedade e o seu reflexo no carácter. Mas com má consciência, com a dificilmente dissimulada consciência da inverdade. O que na burguesia sempre se considerou bom e decoroso, a independência, a persistência, a previsão e a prudência, está corrupto até ao cerne. Pois enquanto as formas burguesas da existência se conservam com obstinação, o seu pressuposto económico foi derrubado. O privado transferiu-se inteiramente para o privativo que, no fundo, desde sempre foi, e com o pertinaz apego ao interesse próprio misturou-se tal obcecação que de nenhum modo já consegue perceber que é possível ser diferente e melhor. Os burgueses perderam a sua ingenuidade; tornaram-se a tal respeito de todo insensíveis e mal intencionados. A mão protectora que ainda cuida e cultiva o seu pequeno jardim, como se este, desde há muito, não se tivesse convertido em «lote», mas que, timorata, mantém à distância o intruso desconhecido, é a que já recusa o asilo ao refugiado político. Como se tivessem objectivamente ameaçados, os detentores do poder e o seu séquito tornam-se subjectivamente de todo inumanos. A classe dobra-se assim sobre si mesma e apropria-se da vontade destruidora do curso do mundo. Os burgueses sobrevivem como fantasmas que anunciam o desastre.» 

Theodor W. Adorno, "Minima Moralia", Edições 70, 2001

domingo, 3 de março de 2013

diário dos mesmos pesares #25


«Portanto declaro solenemente que, até ao fim dos meus dias, nada empreenderei para repetir a minha tristeza experiência de ascensão. Fico em baixo e a partir de baixo cuspirei para toda a vossa hierarquia social. Sim. Um cuspo a cada degrau. Para a subir é preciso ter trombas de judeu, não ter medo de nada, ser um maricas feito de aço da cabeça aos pés. E isso é que eu não sou.» 

Venedikt Erofeev, "De Moscovo a Petuchki - a Lucidez de um Alcoólico Genial", Cotovia, 1995

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

diário dos mesmos pesares #24


«Tudo o que vejo neste mundo está animado dum movimento simultâneo de vaivém: tudo simultaneamente avança e simultaneamente recua, como o fole do ferreiro, como, ao sinal verde ou vermelho, tudo na minha prensa muda para o seu contrário, e só assim o mundo consegue avançar sem tropeçar.»

Bohumil Hrabal, "Uma solidão demasiado ruidosa", Edições Afrontamento, 1992

domingo, 13 de janeiro de 2013

diário dos mesmos pesares #23


«294 Suou que se fartou, passou noites em claro, rojou-se pela lama, sofreu vexames, foi amável e servil para quem detestava, fez favores a quem desejava insultar, rabeou pela imprensa para ser em público, emagreceu na luta, ajoelhou-se, ameaçou quando a ameaça era funcional, deu mesmo alguns socos para maior funcionalidade, e mais e mais. Mas por fim venceu. Como é que esta vitória se equilibra com as derrotas que a antecederam? E as que virão depois?»

Vergílio Ferreira, "Pensar"‎, Bertrand Editora, 1992   

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

diário dos mesmos pesares #22


«Tudo o que é preparado, está pré-parado, imóvel ainda antes de existir. O acaso não; o acaso pré-move-se: antes de acontecer uma dessas reuniões com o acaso, este já se movimenta algures num sítio não visível. O acaso pré-move-se, não se prepara.»

Gonçalo M. Tavares, "Breves Notas sobre as Ligações (Llansol, Molder, Zambrano)", Relógio d'Água, 2009

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

diário dos mesmos pesares #21


«Olho para as ciganas do meu bairro, este bairro do mundo de Jonet, e imponho-me uma estóica reaprendizagem de ser pobre. Isto de reaprender a ser pobre tem muito que se lhe diga, porque só reaprende a ser pobre quem já o foi e deixou de ser.»

hmbf, "http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/", Quarta-feira, 7 de Novembro de 2012