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segunda-feira, 7 de julho de 2014

A vida não é um sonho #39



«Sei que o mundo é mais forte do que eu. E para resistir ao seu poder só me tenho a mim. O que já não é pouco. Se o número não me esmagar, sou, também eu, um poder. E enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo, pois quem constrói prisões expressa-se sempre pior do que quem se bate pela liberdade. E no dia em que só o silêncio me restar como defesa, então será ilimitado, pois gume algum pode fender o silêncio vivo.
É este o meu único consolo.»  

Stig Dagerman, "A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer", Fenda, 1995

sábado, 7 de junho de 2014

A vida não é um sonho #38

























«É, pois, a tragédia imitação de uma acção de carácter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes [do drama], [imitação que se efectua] não por narrativa, mas mediante actores, e que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções.»

Aristóteles, “Poética”, INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2000

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A vida não é um sonho #37



Trazemos em nós sementes de todos os deuses,
o gene da morte e o gene do prazer  - 
quem os separou: as palavras e as coisas,
quem os misturou: tormentos e o lugar
em que acabam, madeira com fiozinhos de lágrimas,
sede mesquinha de horas breves.

Não pode ser luto. Longe de mais, além de mais,
intocáveis de mais a cama e as lágrimas,
nem não, nem sim,
nascimento e dor física e crença,
uma ondulação, anónima, um deslizar,
algo de supraterreno, a fazer-se sentir no sono,
agitou cama e lágrimas - 
trata de adormecer!

Gottfried Benn, "50 poemas", Relógio D'Água, 1998    

domingo, 16 de março de 2014

A vida não é um sonho #36



«Durante a noite, foi o vento norte (o vento norte desce do mar de Murmansk, como um anjo gritando, e a terra morre bruscamente). O frio tornou-se terrível. De repente, com um som vibrante de vidro batido, a água gelou. O mar, os lagos, os rios gelam bruscamente, quebrando-se repentinamente o equilíbrio térmico. Até a água do mar se detém na atmosfera, transformando-se numa vaga de gelo curva e suspensa no vazio.
No dia seguinte, quando as primeiras patrulhas de sissit, de cabelos ruços e rosto negro de fumo, avançaram cautelosamente, pela cinza ainda quente, através da madeira calcinada e chegaram à beira do lago, um medonho e maravilhoso espectáculo se lhe ofereceu. O lago era como uma imensa placa de mármore branco, na qual estavam pousadas centenas e centenas de cabeças de cavalos. As cabeças pareciam cortadas rentes, a cutelo. Só elas emergiam da crosta de gelo. Todas as cabeças estavam voltadas para a margem. Nos olhos esbugalhados via-se ainda brilhar o terror, como uma chama branca. Perto da margem, um grupo de cavalos ferozmente curvados emergia da prisão de gelo»

Curzio Malaparte, "Kaputt", Livros do Brasil, 1962

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A vida não é um sonho #35



«Quando o camponês descobriu que a sua mulher o traiu, obrigou-a a preparar a mesa para três. E durante o resto da vida comeram contemplando, diante deles, o terceiro prato vazio.»

Tonino Guerra, "Histórias para uma Noite de Calmaria", Assírio & Alvim, 2002

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A vida não é um sonho #34



«Ele tinha caí­do de joelhos sobre um degrau e torcia as mãos. Sua face estava pálida e crispada, os dentes batiam, os olhos inundados de lágrimas, e todo o corpo sacudido por soluços que ele procurava reprimir e se transformavam em suspiros e silvos entrecortados.
Edele conservava-se sentada.
“Acalme-se, homem” disse ela num tom de sofrí­vel compaixão, não se deixe abater dessa maneira, seja um homem! Ouça: levante-se, dê uma volta pelo jardim e procure recuperar a calma.
“E a senhora não poderá amar-me de jeito nenhum?” gemeu Bigum baixinho. “Ah, é horrível não há nada em minha alma que eu não consentiria em matar, em degradar, se com isso pudesse conquistá-la! Nada! Se me propusessem a loucura para poder possuí­-la, possuí­-la nas visões da loucura, eu diria: “Tomem o meu cérebro, destruam implacavelmente esta maravilhosa construção e arrebentem os fios delicados que ligam o meu espí­rito ao radioso carro triunfante do Espí­rito universal, deixem-me sucumbir no lodo da matéria, sob as rodas do carro, deixem que os outros prossigam na sua rota magní­fica para a luz!”. Compreende? Compreende que mesmo que seu amor viesse despido de todo brilho, de sua auréola de pureza, envilecido, enlameado, como uma caricatura do amor, um fantasma mórbido, eu ainda o aceitaria de joelhos, como se fosse uma sagrada hóstia? Mas é inútil, tanto o que eu tenho de melhor como o que eu tenho de pior, é inútil! Clamo pelo sol, e ele não brilha; apelo para a estátua, ela não responde… Responder! Mas que resposta pode ter o meu sofrimento? Não, estas torturas indizí­veis, que estrangulam o mais í­ntimo do meu ser em suas raí­zes e apenas roçam pela senhora, estas dores apenas lhe causam um pequeno arranhão, e a senhora em seu í­ntimo ri ironicamente da paixão insensata do preceptor!…»

Jens Peter Jacobsen, "Niels Lyhne”

sábado, 16 de novembro de 2013

A vida não é um sonho #33


De tudo o que disse de mim que resta
Conservei falsos tesouros em armários vazios
Um navio inútil liga a minha infância ao meu fastio
Os meus jogos ao cansaço
A tempestade ao arco das noites em que estou só
Uma ilha sem animais aos animais que amo
Uma mulher abandonada à mulher sempre nova
Em veia de beleza
A única mulher real
Aqui e em qualquer parte
A oferecer sonhos aos ausentes
Sua mão estendida para mim
Reflecte-se na minha
Digo bom-dia sorrindo
Não se pensa na ignorância
E a ignorância reina
Sim eu tudo esperei
E desesperei de tudo
Da vida do amor do esquecimento do sono
Das forças das fraquezas
Já não me conhecem
Lobos são meu nome e minha sombra.

Paul Éluard, "Algumas Palavras (Antologia)", Publicações Dom Quixote, 1977

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A vida não é um sonho #32


«Imagine-se um indivíduo por natureza e infortúnio propenso a um sombrio desalento, haverá tarefa mais apta a aumentar-lhe aquele, que o manuseio constante dessas cartas perdidas, preparando-as para as chamas? É que elas são queimadas, anualmente, às carradas. Por vezes, de entre as folhas dobradas, o pálido funcionário retira uma anel - o dedo ao qual se destinava talvez que apodreça já no túmulo; uma nota de banco enviada rapidamente, por caridade - aquele a quem ela iria socorrer, já não come nem tem fome; perdão para os que morreram sem a ter, a boa nova para quantos morreram opressos por fatais calamidades. Recados de vida, estas cartas correm para a morte.»

Herman Melville, "Bartleby", Assírio & Alvim, 1988

sábado, 29 de junho de 2013

A vida não é um sonho #31


«Se não podes fazer da vida o que tu queres,
tenta ao menos isto, quanto puderes:
não a disperses em mundanas cortesias,
em vã conversa,
fúteis correrias.

Não a tornes banal
à força de exibida,
e de mostrada
muito em toda a parte
e a muita gente,
no vácuo dia-a-dia que é o deles
- até que seja em ti uma visita incómoda.»  

Constantino Cavafy, "90 e Mais Quatro Poemas", Edições Asa, 2003

terça-feira, 21 de maio de 2013

A vida não é um sonho #30


«Nunca chegamos aquele Algo que está em falta. Aquilo que esperamos e esperamos nunca chega. 
Aquilo que todos esperam nunca aparece. É este o pecado maior»

Robert Walser

terça-feira, 2 de abril de 2013

A vida não é um sonho #29


«Porque é que procuras bons dias aqui, na terra, onde não os podes encontrar? O que queres? Talvez que passem anos e anos, e que não chegue ao fim desses anos? A tua aspiração é um contra-senso: queres caminhar, mas não queres chegar ao fim da caminhada!»  

Santo Agostinho, "Sermão 108: 3, 3" 

domingo, 10 de março de 2013

A vida não é um sonho #28


«A sua lua-de-mel foi um longo arrepio. Loura, angelical e tímida, o duro carácter do seu marido gelou as suas sonhadas criancices de noiva. Ela amava-o muito, no entanto, por vezes sentia um ligeiro estremecimento quando, ao passear juntos, de noite, pela rua, deitava um olhar furtivo à elevada estatura de Jordán, mudo há mais de uma hora. Por sua parte, ele amava-a profundamente, sem lho dar a conhecer.»

Horacio Quiroga, "Contos de Amor, Loucura e Morte", Cavalo de Ferro, 2003

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A vida não é um sonho #27


«São os primeiros empenhos exame do valor e como que um sair à vista da fama e do caudal.
Não bastam milagres de progressos para realçar princípios ordinários, pois, quando muito, todo o esforço depois é remendo do antes.
Um bizarro princípio, alem de pôr em súbito traste o aplauso, empenha muito o valor.
É a suspeita, em matéria de reputação aos princípios, da condição do danado, pois que se uma vez entra, nunca mais sai do desprezo.» 

Baltasar Gracián, "O Herói", frenesi, 2003 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A vida não é um sonho #26


«Mónica, minha querida. Não sei se tu te entreténs aí na cova a divagar um pouco sobre o que aconteceu. Eu sim. É um modo de viver em duplicado, vivo a cópia mesmo já um pouco apagada do que foi. É um modo de o meu vazio estar cheio de outro vazio, mas menos, e com propriedades de enchimento.»

Vergílio Ferreira, "Em Nome da Terra", Bertrand Editora, 1990

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A vida não é um sonho #25


«Uma mulher muito magra mede a sua cintura com uma fita métrica amarela.
Depois debruça-se sobre a mesa e escreve algo num papel.
Julgamos que é um número, mas agora, quando vemos de perto o papel, vemos que não é um número. A mulher não apontou a medida da cintura mas sim uma palavra.
É uma palavra, mas não conseguimos perceber qual.
Agora sim, finalmente, conseguimos ler. São afinal, três palavras: magra de mais. 
A mulher pega de novo na fita métrica e mede, de novo, com rigor, a sua cinta.
Debruça-se outra vez e agora vemos o que ela escreve.
De novo escreve: magra de mais.» 

Gonçalo M. Tavares, "Short Movies", Editorial Caminho, 2011 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A vida não é um sonho #24


«Eu conheci a anã da Trajanplatz. Ela tinha mais couro cabeludo que cabelo, era surda-muda e tinha uma trança de erva como as cadeiras reformadas à sombra das amoreiras das pessoas idosas. Alimentava-se do lixo da frutaria. Todos os anos ficava grávida dos homens de Lola, que à meia-noite acabavam o turno da noite. A praça ficava escura. A anã não conseguia fugir a tempo, porque não podia ouvir ninguém a aproximar-se. E não podia gritar.»

Herta Müller, "A Terra das Ameixas Verdes", Difel, 2009

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A vida não é um sonho #23

«Podia apenas dizer que ele a matou e se matou a seguir, e estaria a contar a história tal e qual aconteceu, mas esta seria sem dúvida uma história muito mal contada, ainda que a verdade seja tão-somente que ele a matou, para a amar ainda mais, e se matou a seguir, para que o amor que os unia vivesse para sempre.»


«Planeou matar a namorada e suicidar-se em seguida, mas as coisas saíram-lhe ao contrário. O funeral terá lugar amanhã.»

Luís Ene, "ÍTACA, Cadernos de ideias textos & imagens", Coisas de Ler, nº1 Fevereiro de 2010

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A vida não é um sonho #22


«A relação que um homem tem com a sua mulher, por mais perfeita que seja, torna-se, com o tempo, tão rotineira como a que mantém com a sua cidade. Rotineira no sentido de que a atenção vai afrouxando e ele acaba por não conhecer, do objecto que lhe está próximo, mais do que certos pontos de referência. Tal como ao fim de muitos anos a morar numa cidade já não reparamos nas praças, nas avenidas, nos monumentos, excepto quando o acaso ou o dever no-los apontam (Ah, mas aqui havia árvores; oh, repara que belo edifício, etc.), também às vezes descobrimos que a nossa mulher tem seios ou olhos bonitos ou quadris tentadores. Mas são momentos esporádicos e seguramente anormais, uma vez que exigem de nós uma nova abordagem ou um novo ajuste do diafragma da nossa consciência, o que implica um esforço e, por essa mesma razão, encontra em nós resistência. É por esse motivo que a vida conjugal, quando não há filhos nem interesses comuns nem afinidades intelectuais nem, sobretudo, compatibilidades temperamentais ou sexuais, acaba por se transformar numa ficção, num companheirismo às cegas, tão fantasmagórico como o itinerário mil vezes percorrido numa cidade, em que nos limitamos a ser conduzidos pelos nossos reflexos. A mulher percebe isso e, uma vez por outra, tenta fazer-se notar através de um novo penteado, de um novo detalhe no vestuário ou de um convite para que a sigam pelo bairro não visitado e censurado do seu corpo. O homem também o percebe e impõe-se, de vez em quando, uma mudança de aparência (caso patológico do travesti). Mas os disfarces também cansam e não passam de disfarces.»

Julio Ramón Ribeyro, "Prosas Apátridas", Edições Ahab, 2011

quarta-feira, 25 de julho de 2012