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terça-feira, 8 de julho de 2014
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #26
«Ama quem queiras com o coração
mas ama-me, só a mim, com o corpo.
Ninguém ama só com um coração
Um coração não serve sem um corpo.»
J. M. Fonollosa, "Cidade do Homem: New York", Antígona, 1993
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domingo, 15 de junho de 2014
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #25
«Ao apertar-te nos meus braços aperto
O meu coração contra essa beleza
Que há muito desapareceu do mundo;
As coroas de jóias que reis lançaram
Aos charcos sombrios, quando os exércitos debandaram;
As histórias de amor tecidas com fios de seda
Por sonhadoras damas em telas
Que nutriram a traça assassina;
Rosas de outrora
Que nos seus cabelos as damas entreteceram,
Lírios frescos de orvalho que as damas levavam
Por tanto corredor sagrado
Onde tais nuvens de incenso se elevavam
Que somente Deus não fechava os olhos:
Porque esse pálido peito e a mão indolente
Chegam de uma terra mais sonhadora,
De uma hora mais sonhadora do que esta;
E no teu suspirar entre beijos
Ouço a branca Beleza que também suspira,
Durante horas em que tudo deve consumir-se como o orvalho,
Mas chama sobre chama, abismo sobre abismo,
Trono sobre trono no meio do sono,
Pousadas as suas espadas sobre os joelhos de ferro,
Meditam nos seus altos mistérios solitários.»
W. B. Yeats, "Uma Antologia", Assírio & Alvim, 1996
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quarta-feira, 4 de junho de 2014
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #24
Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo apenas é
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o anjo é terrível.
Rainer Maria Rilke, "As Elegias de Duíno", Assírio & Alvim, 2002
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sábado, 26 de abril de 2014
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #23
«O drama que existiu entre os dois ainda não acabou: ele continua a vir todas as noites a este café para a ver, para reabrir a velha ferida, talvez para saber quem é que a leva para casa esta noite; e ela vem todas as noites a este café se calhar de propósito para o fazer sofrer, ou talvez esperando que o hábito de sofrer se torne para ele um hábito como outro qualquer, adquirindo o sabor do nada que há anos lhe empasta a boca e a vida.»
Italo Calvino, "Se Numa Noite de Inverno um Viajante", Editorial Teorema, 2009
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segunda-feira, 31 de março de 2014
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #22
«671 No amor nunca os pratos da balança estão equilibrados. E como a essência do amor é etérea, quem pesa mais é quem ama menos.»
Vergílio Ferreira, "Pensar", Bertrand Editora, 1992
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domingo, 16 de fevereiro de 2014
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #21
«Não é verdade que ter uma amada é uma boa desculpa para muita coisa? Para me casar sou demasiado velho e demasiado novo, demasiado inteligente e demasiado inexperiente. Mas, se tiver de ser, não digo não. Pessoas há que são muitas vezes tomadas por competentes, só porque fazem muito alarido, prova da importância que tem a superficialidade. Se mostro ser superficial, agrado às pessoas. Basta a leviandade para as conquistar. Se amarmos alguém, comportam-nos de maneira indelicada; é por isso que os amantes muitas vezes não tem sucesso. O amor não produz tanto efeito como a sua aparência.»
Robert Walser, "A Rosa", Relógio D'Água, 2004
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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #20
«Visão, possessão, vazio. Errância, pobreza, ódio. Rebelde, comunidade. Ou pensamento. Escrita. Amor sem significação óbvia nem outra. As palavras vivem de serem vivas, da decisão que as possui, do arrebatamento interior, de não serem bens, propriedades, objectos que se usam e nos desgastam, mas intensidades, sopros onde os corpos se deslocam e se encontram. Amantes.»
Silvina Rodrigues Lopes, "Teoria da Des-possessão (Sobre Textos de Maria Gabriela Llansol)", Averno, 2014
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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #19
Luís Ene, “Interruficções”, enfermaria6.com, 2014
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domingo, 17 de novembro de 2013
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #18
«Todos conheceis a intratável melancolia que se apodera de nós ao recordarmos tempos felizes. Estes, porém, pertencem irrevogavelmente ao passado, e deles nos separa a mais impiedosa das distâncias. Todavia, as imagens parecem refulgir ainda mais sedutoras no seu reflexo; pensamos nelas como quem recorda o corpo de uma mulher amada já falecida, que repousa nas profundezas da terra mas que, como uma miragem, com um esplendor mais alto e espiritual, nos assedia e faz estremecer. E nunca nos cansamos de percorrer com os dedos o que passou em sonhos sequiosos, em todos os seus pormenores e circunstâncias. Parece-nos então que não tomámos ainda a medida plena da vida e do amor, mas não há arrependimento que traga de volta a oportunidade perdida. Pudesse este sentimento servir-nos de lição, mesmo em cada instante de felicidade.»
Ernst Jünger, "Sobre as Falésias de Mármore", Vega, 1998
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terça-feira, 29 de outubro de 2013
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #17
«Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve de nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor de ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo...»
Antoine de Saint Exupéry, “O Principezinho”, Relógio d'Água, 1995
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quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #16
Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador
Al Berto, "Vigílias", Assírio & Alvim, 2004
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segunda-feira, 15 de julho de 2013
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #15
«Vivia só com os gatos, deixara de parte a vida com os outros seres humanos e, todas as noites, aquela senhora, antes de adormecer, metia no seu leito um livro, um objecto ou uma carta, para reencontrar, em seus sonhos, as coisas que amava. Um dia, sobre um dos travesseiros, poisou uma pena que um jovem amante lhe oferecera.
E o rapaz sonhou que a matava.»
Tonino Guerra, "Histórias para uma Noite de Calmaria", Assírio & Alvim, 2002
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sábado, 6 de julho de 2013
domingo, 9 de junho de 2013
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #13
(há homens que falam com deus em segredo: são os insensatos. Têm na voz o horizonte de outra voz, soletram as palavras que deus soletra na sua eternidade.
há homens que transportam um voz para dizimar o rosto para que falam.
há vozes que escurecem os contornos de um rosto.)
Extracto do Diário de Abel
Rui Nunes, "A Boca na Cinza", Relógio d'Água, 2003
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sexta-feira, 10 de maio de 2013
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #12
Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará
Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua
É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solitário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tuido isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente
Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.
Ruy Belo, "O Problema da Habitação", Assírio & Alvim, 2013
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sábado, 13 de abril de 2013
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #11
«Apaixonado pela sua beleza, transformou-se num touro de resplandecente brancura e cornos semelhantes a duas luas na fase de quarto crescente. Aproximou-se assim da jovem, indo deitar-se a seus pés. Primeiro, Europa assustou-se, mas, pouco depois, tomando coragem, acariciou o animal, sentando-se no seu dorso. Logo o touro se levanta, correndo em direcção ao mar.»
Pierre Grimal, "Dicionário da Mitologia Grega e Romana", Difel, 2009
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quarta-feira, 27 de março de 2013
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #10
«Feliz aquele que do mundo vão
Sem ódio deixa a luta,
E aperta um amigo ao coração
E com ele desfruta
O que, sem que o homem sequer saiba
Ou nisso atente,
Através do labirinto da alma
Erra à noite, silente.»
J. W. Goethe, "Poemas. Antologia", Centelha Editora, 1986
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quinta-feira, 14 de março de 2013
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #9
«Quando conseguiu libertar-se daquele abraço, a náusea havia destruído nele toda a emoção. Não sentiu nenhuma necessidade de continuar a prédica iniciada e saiu, depois de ter feito uma carícia paternal e indulgente à rapariguinha, que não queria deixar desgostosa.
Uma grande tristeza apoderou-se dele quando se viu sozinho na rua. Sentia que a carícia feita por complacência àquela garota marcava precisamente o fim da sua aventura.
Ele próprio desconhecia que período importante da sua vida encerrara com essa carícia.
Durante muito tempo a sua aventura deixou-o desequilibrado, insatisfeito. Pela sua vida tinham passado o amor e a dor e, privado desses elementos, era agora dominado pela a mesma sensação de alguém a quem amputaram uma parte importante do corpo. Mas o vazio acabou por se encher. Voltou a nascer nele o gosto pela tranquilidade e pela segurança, e o cuidar de si próprio afastou dele quaisquer outros desejos.»
Ítalo Svevo, "Senilidade", Relógio D'Água, 1988
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sábado, 2 de março de 2013
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #7
Das palavras
que aprendeste
só uma
não tem tradução.
Quando traduzes
o amor, tu sabes
que é já outro o seu nome.
Assim são as algas
quando apodrecem.
Albano Martins, "Escrito a Vermelho", Campo das Letras, 1999
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